Capítulo 50 - Terna

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A nevoa é densa, meu coração dá duas batidas descompassadas, o fedor da floresta penetra meu nariz e contorce meu estomago, mas não a mais o que vomitar, não como nada a dias, ou seriam meses? Tento lembrar por que estou aqui, tento me inteirar do mundo ao meu redor, as cores do mundo sempre foram cinzentas? Já existiu um mundo onde eu não estivesse molhada pela chuva? Não me lembro como é ficar seca ou de não sentir frio. E minha pele por mais que eu deseje lembrar, me parece ser feita de lama e carne.

-Estou imunda. – Falo. E sou surpreendida por raízes estourando quando abro minha boca. Elas me enredaram o corpo todo, mas me desvencilho delas, acredito que já fiz isso antes. –Antes? Quando foi antes?

Me pergunto se não faço parte desta floresta, se acaso o solo não me surrupiou para si e me tornei parte de seu chão com raízes quebradiças. Não... eu caminhei pela nevoa, e me perdi de minhas... o que elas eram? Bem, então magicamente meus poderes foram bloqueados.

-Sem preces... –Digo baixinho fechando novamente os olhos.

-Você sempre foi minha preferida. –A voz sombria me sobressalta. Arrasto meus joelhos de encontro ao meu peito, temo por minha vida como um animal assustado encurralado por seu caçador. Então escuto um estalar de língua. –Pobre Terna, eles deram a você o dom da depravação, e a viram definhar. Eu dei a eles uma escolha, poderiam ter escolhido qualquer uma das três, e certamente você consegue enxergar meu desgosto quando não foi depravação a morar em minha floresta sem alma, você teria sido a aliada perfeita, contudo a fizeram uma paria em seu mundo, um mundo que não lhe pertence.

Não tenho coragem de ver quem fala, e ele não se aproxima. Sinto seu odor, depois de tanto tempo fazendo parte do ambiente, não haveria como não notar um intruso, bem talvez a intrusa seja eu. O seu odor me lembra de pedras gastas.

Estou tão cansada. Começo a recordar de meus primeiros dias aqui, minha fúria, as corridas pela floresta e meus tombos, até que cai, e não levantei, chorei por mim, auto piedade me consumiu.

-Ele não me ama... jamais me amara. –Digo. Sou surpreendida quando o ouço estalar língua. Esqueci-me novamente de sua presença.

-Oh, você fala daquele soberano da determinação, bem é verdade, eu vi através daqueles olhos, você não significa nada para ele. – Ele diz. Engulo em seco sentindo na língua o gosto da lama do chão. –Foi cruel o que fizeram com você, jamais criatura com seu dom deveria ser amado. Veja bem, a floresta teria sido mais justa, pense como teria sido estes séculos ao meu lado, melhores do que ao lado de paixão, eu garanto! Aquela soberaninha cheia de amor irracional, devotada a você.

Ele cospe. E ouço uma leve movimentação, o ser que me assombra está se aproximando. Tremo levemente. Um pensamento me domina, se este é meu monstro, por que ele não vem até aqui? Por que não aproveita a oportunidade de finalmente me derrotar, em vez de jogar suas palavras ao vento? Se ele está aqui onde estão... minha irmã Ivy, e aquela soberana cheia de vida que se chama Aurora. Pisco atordoada, me movimento levemente, mas sinto as amarras das raízes, leve, porém estão ali.

-Você é diferente delas. –Continua ele tom monótono. - Paixão e Esperança são agraciadas por preces idealistas e fervorosas, já você, aprecia a falta de sentimento, finalmente em um estado de nirvana...

Diz ele, enfim viro-me para observa-lo. As raízes estouram e som de gravetos corta o ar. Não me importo mais, suas palavras me interessam. Me atenho ao seus olhos, a divindade que vejo é segura de si, ele me parece algo que não deveria ser real, seus olhos estão postos nos meus, penetrantes como se enxergassem minha alma, são negros, não é como o fundo de um poço sem fundo, não a uma cor definitiva. Eu engulo, percebendo que apesar de ainda molhada, a chuva enfim me deu um breve descanso.

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