Pós-escrita #10 - Burning book

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Quando um escritor termina seu primeiro livro, é natural e aconselhável que ele fique animado, que se sinta realizado. Ele cruzou uma fronteira importante na sua carreira como um escritor profissional e deve comemorar. Alguns dizem, inclusive, que alguém só se torna escritor quando termina seu primeiro livro.

Depois da comemoração, com toda a esperança inconsequente que só um artista brasileiro consegue ter, envia o seu original para todas as grandes editoras. Espera, impaciente, por meses. E finalmente... nada acontece.

Sim, há muito o que se culpar o mercado editorial nacional pela desumana desimportância que dá ao autor estreante. Mas pensar culpar as editoras é tirar toda a responsabilidade do escritor.

Então, vamos fazer uma suposição dolorida e necessária agora: e se o seu livro não for bom o suficiente?

O que parece um pecado só de pensar – já que seu livro é a sua criação, o "seu filho" – deve ser considerado seriamente. A escrita é uma atividade que se desenvolve muito com a prática. No início, podemos ter referências importantes, mas estas são escritores profissionais que passaram anos aprimorando suas narrativas. Você não vai conseguir copiá-los só porque os leu. Muito menos absorver seus vastos conhecimentos e experiências que, num processo lento e dolorido, evoluíram em técnicas refinadas. É preciso criar o seu próprio caminho através da prática. E a prática do escritor é a escrita.

É o que muitos escritores americanos pensam antes mesmo de escrever o primeiro livro. Eles sabem que não são "dignos de suas histórias" ainda – citando o AJ, de Os 12 Trabalhos do Escritor. De fato, muitos escolhem como seus primeiros livros histórias que nem gostam tanto ou acreditam. Guardam as histórias que querem escrever para depois, e escrevem aquelas que podem ser "queimadas" – daí o outro apelido, burning books.

Na pior das hipóteses, ao terminarem este livro de treino, eles são escritores mais preparados e podem usar o aprendizado adquirido para escrever a história que querem escrever.

No melhor cenário, eles têm um bom livro nas mãos, que foi muito mais fácil de escrever porque não havia tanta pressão sobre ele.

Pensar em escrever um training book é um ato de fé na sua própria carreira. Você entende que vai precisar de muito esforço para chegar no Olimpo, e sabe que fará qualquer para atingir esse objetivo. Mesmo "queimar" o que te deu tanto trabalho para criar.

Eu sei que dói desperdiçar tanto esforço. Sei por conta própria. Tive um mesmo livro queimado duas vezes. E foi dessas cinzas que consegui escrever O segundo caçador (que venceu o Prêmio Ufes de Literatura) e, mais recentemente, Ascensão (que me orgulho em dizer que é, sem dúvida, o meu melhor livro).

Por isso, lembrando de toda dor que um livro malsucedido pode causar, eu recomendo a todos que comecem por histórias que aceitem queimar. 


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