Janeiro I

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Quando pequeno sempre odiei que meu aniversário fosse durante as férias de janeiro. Ninguém aparecia nas festinhas, nem tinha bolo na escola e quase ninguém me dava presente – o que, vamos confessar, era o que todo mundo esperava, afinal, numa festa de aniversário. Só meus parentes apareciam, minha mãe chamava o pessoal do prédio e a gente se reunia ao redor de uma mesa quadrada e de um bolo de cenoura com cobertura de chocolate. A Maria era a única amiga que vinha, o resto era da família ou era vizinho.

Hoje eu já acho o máximo não ter que chamar ninguém por obrigação para me ver pisar outro ano na Terra. Sabe, pra não ter que compartilhar o momento com gente desagradável, nem ter que fingir que tá tudo bom. Já era ótimo fazer aniversário nas férias – eu não tinha que dar festa nenhuma se não quisesse, e se fosse o caso os convidados eram meus, e não da minha mãe.

Mas a triste realidade é que eu não tinha ninguém pra convidar pra comemoração alguma. No dia trinta e um de janeiro, quem aparecia na minha casa, como sempre, era só a Maria. E meus parentes.

– Você vai querer Coca ou Fanta, Luiz? - era a terceira vez que minha mãe perguntava. Ela estava ao telefone com um cara de uma distribuidora, que ela conhecia e aparentemente ia nos vender as bebidas mais barato. Na outra mão ela tinha uma lista toda rabiscada com ingredientes para a minha "festinha" (era essa a palavra escrita em vermelho no topo do papel, pode acreditar). Revirei os olhos e me concentrei em apertar o X pro meu personagem no GTA correr mais rápido da polícia.

– Fanta, já falei. - resmunguei e ela transmitiu o recado pro cara do outro lado da linha.

– Você já falou com sua vó hoje? Ela pediu pra você ligar de volta assim que levantasse... E não vi você mexendo no telefone, só nesse controle de vídeo-game!

Trinquei os dentes. Mães.

– Vou ligar daqui a pouco, mãe! - o aniversário era meu, por que eu tinha que ficar ligando pra todos os meus parentes? Não deveria ser o contrário?

Vovó era legal, apesar de tudo. Sempre fazia de tudo pra me agradar – os melhores almoços de domingo, as melhores sobremesas e os melhores presentes de aniversário, com certeza. Mamãe odiava o quanto ela me "estragava" quando era mais novo. Mas, bom, não mudamos muito e os agrados dela não me fizeram uma pessoa tão diferente assim. Eu acho.

Só que vovó estava sempre cercada pelos meus tios. E isso incluía as famílias deles, meus primos e seus agregados. Como ela morava sozinha desde que meu avô falecera há uns sete anos, todo mundo se ocupava em preencher um pedacinho do tempo dela com alguma coisa. Sabe, com medo de que ela fosse surtar, ou sentir muito a falta dele e tal.

É lógico que ela sentia. Eu não acho que os filhos sejam capazes de ocupar os mesmos lugares que os esposos/esposas e vice-versa. São coisas diferentes, né? Mas acho que na minha família ninguém parou pra pensar muito nisso.

Então era domingo e eu sabia que a casa dela estaria lotada. Mesmo porque mamãe estava organizando a minha até então "festa" por lá mesmo, para aproveitar o almoço e todo mundo junto. Se eu iria pra lá em menos de três horas, por que tinha que ligar??

Enrolei mais uma meia hora em frente à TV. Era dez e pouco quando a Maria ligou desejando os parabéns. Ela havia mandado uma mensagem de texto antes, seis horas da manhã, só para não perder o costume de me acordar cedo. "Primeira!! Feliz aniversário, Lulu!!" era o que ela havia escrito. E provavelmente havia voltado a dormir depois disso, já que a ligação só viera umas quatro horas depois.

– Eu te acordei, não acordei? - ela perguntou pelo telefone, rindo.

– O que acha, Maria Eduarda?? Num domingo, seis horas da manhã, eu deveria estar fazendo o quê? Soltando pipa?!

Ela riu mais ainda, ciente de que tinha conseguido o que queria.

– Que horas você vai? - perguntei, entrando no banheiro pra me arrumar.

– Na sua avó? Ué, sua mãe disse que seria pro almoço. Meio dia? Uma hora? Que horas é o almoço na casa dos seus parentes?

– Sei lá. - dei de ombros. - Uma hora? É domingo, né.

– É...

Conversamos bobagens por mais cinco minutos e entrei no chuveiro. Meu primeiro banho aos dezesseis anos, que marco histórico! Na verdade, eu diria: meu primeiro banho no ensino médio. Afinal, dali uma semana começariam as aulas. Primeiro ano do "colegial", como minha mãe gostava de lembrar.

Coloquei a roupa que ela sugeriu. Se eu não o fizesse, ela provavelmente falaria durante todo o caminho e depois dele até o resto da minha vida. Não era uma roupa que eu desgostava, então por que não fazer esse agrado? Ela ficava infinitas vezes mais bem-humorada depois de gestos como esses. Uma coisa bem de mulher mesmo, não querendo soar machista segregador nem nada. Mas eu não ligava para roupa; mamãe e vovó ligavam.

Enfiamos algumas coisas no carro, inclusive o bolo de cenoura indispensável, e fomos para a casa da vovó comemorar minhas famigeradas dezesseis primaveras.

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