Epílogo

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As parteiras corriam de um lado a outro. As contrações eram insuportáveis. Tentava manter minha respiração normalizada, mas era difícil. Meu filho ou filha estava nascendo. Alec segurava a minha mão, tentando passar-me tranquilidade, mas era complicado. Estávamos eufóricos. O povo e os nobres aguardavam ansiosos para saber se seria um herdeiro ou uma herdeira do trono.

Quando soltei um último grito de dor, ouvi um chorinho que fez meu coração aquecer. Alec, assim como eu, estava com lágrimas nos olhos.

— É um menino. — disse a mulher. — Espera... tem outro.

— O quê? — foi tudo o que consegui dizer, antes de fazer mais um pouco de força e ouvir outro choro.

— Dois presentes. Ah, meu Deus! — Alec beijou-me.

— É uma menina.

Uma das parteiras colocou-os em meus braços. Eram pequeninos e lindos. Acalmaram-se assim que ficaram junto a mim.

— Pedro e Valentina, sejam bem-vindos. — exibi um sorriso gigantesco, embora estivesse exausta.

— Deus nos deu milagre em dobro.

— Desde quando Deus dá milagre escasso? Tudo o que Ele faz é perfeito, meu amor.

A sensação de amamentar meus filhos foi indescritível. Ver Alec com eles nos braços foi ainda mais lindo. O sorriso bobo ficou presente em seu rosto durante o dia inteiro. Minha família estava muito feliz com a chegada dos bebês, os quais, sete dias depois foram apresentados ao povo e à nobreza: Pedro Trollinger de Valência e Valentina Trollinger de Valência. Ambos eram a cópia do pai. Os mesmos olhos verdes cor de campo. Os mesmos olhos pelos quais me apaixonei há anos atrás, no bosque de Keslieve.

Quando cheguei àquele reino, sem conhecer o mais belo dos sentimentos, encontrava-me completamente vazia e sem rumo. Alec mostrou-me o caminho e o que poderia preencher meu ser. Alec mostrou-me o verdadeiro amor em uma única palavra: Cristo.

Ir contra tudo o que aprendi foi uma bela aventura. Já mencionei que o amor é isso: uma aventura. Algo preparado para os corajosos, forjado para aqueles que possuem corações valentes. Quem ama contrai feridas. Algumas cicatrizes ao longo do percurso, talvez. Quem ama está disposto a enfrentar tudo e todos para proteger seu amado. Assim como Cristo fez na cruz do calvário.

O amor é um sentimento complexo. A explicação mais propícia é Cristo. O que mais poderia explicar tal sentimento? Ou melhor, o que mais poderia ser tal sentimento, senão Jesus Cristo, pendurado na cruz, dizendo: "Pai, perdoa, pois eles não sabem o que fazem". É impossível ser encontrada uma explicação melhor do que essa.

Estávamos no século XIX, porém, futuramente, uma pessoa inspirada por Deus faria a seguinte canção:

“Deixou o esplendor de sua glória
Sabendo o destino aqui
Estava só e ferido no Gólgota
Para dar a sua vida por mim.

Se isto não for amor, o céu não é real
Não há estrelas no céu
As andorinhas não voam mais
Se isto não for amor, o oceano secou
Tudo perde valor, se isto não for amor.

Mesmo na morte lembrou-se
Do ladrão que ao seu lado estava
Com amor e ternura falou-lhe
Ao Paraíso, comigo irás”.

Sete anos passaram-se. A guerra havia acabado. Zimberman não nos perturbava mais. Nossos filhos estavam lindos e muito sapecas. Eram crianças muito inteligentes, amáveis e estavam sempre correndo pelo palácio, junto de minha sobrinha.

Acordei com Alec afagando meus cabelos. Sorri assim que nossos olhares encontraram-se.

— Bom dia, minha Lua. — sussurrou.

— Bom dia, amor.

— Acho melhor nos vestirmos, daqui a pouco seremos atacados por muitos... — antes que ele pudesse terminar, Pedro e Valentina entraram no quarto, vestindo seus pijamas e pularam em nossa cama, como de costume. — Beijos. — concluiu, sendo abraçada por nossa filha.

— Bom dia, razões do meu viver. — apertei o nariz de cada um, delicadamente.

— Bom dia mamãe. Bom dia papai. — falaram em uníssono.

— Mãe, por que você está usando a blusa do papai? — Pedro olhou-me curioso.

— Ah, é que... — pensei. — Seu pai estava com calor e eu estava com frio. — dou de ombros.

— Acho que nós dois estávamos com calor. — Alec esboçou um sorriso zombeteiro. Lancei-lhe um olhar repreensivo.

— Mas a mamãe disse que ela estava com frio.

— Seu pai estava brincando, filho. — puxei Pedro para meu colo.

— Por que o senhor tem cicatrizes? — Valentina questionou, pulando para o colo de Alec.

— Quando você for adulta, eu conto. — ele piscou pra ela.

— Pelo visto, só ficaremos sabendo das coisas quando formos adultos. — Pedro resmungou.

— Seja menos dramático, mocinho. — beijei sua bochecha.

— Ouça a mamãe, Pedro. Ficaremos sabendo disso quando eu puder casar com um príncipe e você com uma princesa.

— Seu pai não era um príncipe quando o conheci. Na verdade, ele nunca foi um príncipe, ao menos, não por título. — afaguei os cabelos de minha filha.

— Mas o papai tem jeito de príncipe. — ela sorriu.

— Essa é a minha menina. — Alec encheu-a de cócegas, fazendo-a rir.

— Na verdade, para ser um príncipe basta ser filho de Deus. Qualquer um que aceitá-lo como Pai, terá uma coroa a sua espera lá no céu.

— Contem a história da princesa e do príncipe sem coroa. — Valentina fez bico.

Era a minha história e de Alec, na verdade.

— Contamos isso ontem. — Alec riu.

— Mas a história é legal, pai. Conta de novo. — Pedro insistiu.

— Era uma vez uma princesa que não conhecia o amor, porque ela não tinha Jesus. Certo dia, ela e a família foram para um reino distante, devido a algumas alianças que seriam feitas. — comecei. Meus filhos encaravam-me com os olhinhos brilhando. — Ela tinha que se casar com um conde, mas a princesa não queria. Depois de uma briga com o pai, a princesa saiu correndo. Ela entrou no bosque e quase caiu em um buraco, porém, um jovem muito bonito apareceu e a salvou. — sorri de canto, observando meu marido.

— Como ele era? — Valentina ergueu as sobrancelhas.

— Seu nome era simples, seus olhos eram tão verdes quanto o mais belo campo. Ele era lindo, minha filha.

— Naquele dia, o príncipe sem coroa falou de Jesus para a princesa. Ele apresentou o amor verdadeiro a ela. Os dois se apaixonaram, mas tiveram que enfrentar muitas coisas para ficar juntos. Como os pais da princesa, que não queria aprovar a união dos dois. No entanto, eles lutaram bravamente e no final, casaram-se e tiveram dois filhos lindos. Fim. — Alec puxou-nos para seus braços.

Um abraço gigantesco e cheio de carinho.

— Essa história sempre me lembra Romeu e Julieta. — Pedro comentou.

Sorri e encarei meu marido. Vislumbrei meus filhos. Em instantes, voltei no tempo e lembrei de tudo o que vivenciei para chegar até aqui.

— Mas o final da princesa e do príncipe sem coroa foi diferente de Romeu e Julieta: eles viveram felizes para sempre.


Fim.

Coração ValenteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora