Capítulo 16 - Luta de Braço

Começar do início

   Um dos Periecos se aproximou, era um homem chamado Címanes, e era um desenhista. Ele se sentou em um banco, munido de suas ferramentas de esculpir, com um vaso de barro nos braços, e começou a nos representar no cântaro. Foi um momento de grande orgulho para nós, pois os desenhistas e escultores eram profissionais caros e de grande prestígio.

   Em consequência da situação, não havia mais volta. Desejamos boa sorte um para o outro, e o próprio Agnéio segurou nossos punhos. Ele contou. Um. Dois. Três. E soltou!

   Perséfone deve ter pulado de sua cama no submundo, pois a algazarra dos espectadores foi como um rugido de guerra. Imaginei se em Esparta, que ficava a apenas meio dia de distância, os mais atentos puderam ouvir os urros e os gemidos.

   Nossos dentes morderam nossos dentes, e as maxilas pulsavam como as fontes quentes em Termópilas. Em nossos pescoços era possível ver as ranhuras das rochas, e os tendões de nossos corpos nus eram como os veios de ferro riscando Gaia. As mãos se apertavam como dois amantes enlouquecidos pelo desejo infame de fornicar até a morte, e os cotovelos afundavam na terra, quebrando pedras e partindo raízes enterradas. Os punhos formavam uma arma mortal, que se deslocava para o leste, e, posteriormente, para o oeste. Em uma canção de esquerda e direita, tocada por músculos e ossos, por força e resistência. Hymos afrouxou a pegada em meu pulso, eu senti, e deslocou toda sua força para o topo de minha mão. Como se montasse em um cavalo, ele montou meu punho e começou a descer meu braço em direção à derrota. Dei um rugido de fúria, em um misto de ira e risada, inflei as bochechas e contraí os músculos do ombro e do pescoço até ficar sem ar. Meu irmão arregalou os olhos por um momento, pois se surpreendeu com a força que sentiu no aperto. Sem que eu entendesse como, consegui mimetizar a ação de Hymos, também levei meu punho para cima do seu, e agora era eu quem começava a vencer.

   Os homens gritavam e pulavam, jogavam moedas no solo e se ajoelhavam. Um dos Hilotas veio interromper a competição, dizendo que o jantar já estava pronto, e quase foi espancado pela mulher de um dos comerciantes.

   Címanes, o artista, pintava como a própria Deusa Íris, que cruza os céus com seu arco colorido. Atirando barro, tinta, cera, lascas de cerâmica e lágrimas para os lados, ele nos imortalizava. E usava um pincel. E também usava um cinzel. Entalhava, esculpia, pintava, fazia sulcos no vaso e depois os preenchia novamente com novas porções de material. Era sem dúvida uma das maiores obras que ele produzia, não só pela arte em si, mas também pelo contexto do acontecido. Não é todo dia que se pode pintar dois homens fortes como Heróis, disputando um jogo tão antigo quanto o próprio mundo, às margens de uma guerra no inverno, cercados por mais de quarenta Espartanos de sangue puro gritando como feras. De fato, Címanes deveria chorar de emoção pelo acontecido, mas também chorava tentando imaginar o quanto ficaria rico com aquela peça, já que ela não seria vendida por um preço barato.

   Sim, não precisa levar seus olhos para a peça. É exatamente aquele jaro que está sobre o pedestal ao lado da porta. Quando eu cheguei aqui, foi uma das primeiras coisas que notei. Percebe a cicatriz no peito de um dos lutadores daquela arte? Veja, ela é exatamente como a minha. Duas linhas cruzadas sobre o peito. Temos mais ligações, você e eu, do que imaginas, e em breve te direi mais.

   A luta continuou. Minha longa barba arrastava na terra, sujando-se e perdendo o brilho, e os cabelos de Hymos agiam da mesma forma. As pontas de nossos dedos dos pés açoitavam o solo, procurando forças e apoio, e o pó que subia nos cobria como um manto. A força era intensa, e nossos corpos vibravam de maneira incontrolável. Era como se um terremoto, tal qual o do suposto acontecimento de Ecalia, que transformara a cidade em ruínas, estivesse contido dentro de nossos corpos e nossos músculos. Nossos bíceps estavam duros como rochas, e os músculos posteriores do braço, o qual os cirurgiões chamam de tríceps, queimavam como a madeira nas fogueiras ao lado.

   Hymos deu um grito e puxou meu braço para o chão, mas eu revidei com um grito de mesma intensidade e contraí o abdome até retornar o aperto para o ponto inicial, onde a vitória e a derrota eram incertas.

   Mas, levado pela plateia que assistia e incentivava, ou pelo excesso de força que eu havia empregado, me esqueci de que Hymos era um Campeão dos Deuses.

   De uma hora para a outra o semblante de meu irmão, formado em uma carranca apavorante, tranquilizou-se, e eu imaginei que ele desistiria. Seus olhos se fecharam, e o vento frio desceu dos céus para a terra novamente, açoitando as vestes dos homens e as brasas do fogo. Ele então girou o punho, como se fosse puxar minha pegada para seu próprio peito, e cedeu à minha força até quase o solo. Visando aproveitar a oportunidade, eu empreguei toda minha força naquele instante, mordendo meu lábio inferior. Mas era o fim de tudo. Hymos recuou, até as costas de sua mão quase tocar a terra poeirenta, e depois, com um urro digno de um Olimpiano, fez um movimento em arco, desde minha posição de vitória, até minha derrota. Senti meu punho bater no solo, sob o aperto de Hymos, e a força empregada foi tamanha que meu irmão me fez girar sobre meu próprio corpo. Eu perdi sorrindo, olhando para as estrelas que começavam a surgir no céu, e suando até pelos cabelos. A turba, que havia silenciado quando meu irmão fechara os olhos e tranquilizara o rosto, agora enlouqueceu em comemorações.

   Nós dois ficamos de pé, e nos abraçamos ali mesmo, vestidos apenas com suor, poeira e músculos. Hymos me disse que, por um momento, realmente acreditou que eu venceria. Mas os Deuses estavam com ele, e foi uma vitória justa.

   Após a comemoração, e o final dos treinos, nos sentamos nas pedras ao redor das fogueiras, para comer e voltar à realidade do frio e da morte. E foi justamente aí que a silhueta de Plíndaco surgiu das sombras da noite, que começava a cair, trazendo um menino de sua idade na garupa do cavalo.

Paráxeni - A Ruína dos Persas. (Por Marco Febrini.)Leia esta história GRATUITAMENTE!