22a. Desaparecimento (parte 1)

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Os sons vindos da cozinha despertaram Porasy. Ela olhou na cama em frente e percebeu que a irmã mais velha já tinha levantado: a cama estava arrumada e com uma colcha de estampa florida estendida sobre ela. Amandy também não estava mais aos seus pés. O sol parecia estar alto no céu, indicando ser mais de oito horas, talvez perto das nove, mas ela não se importava. Era domingo, não tinha aulas e ela não tinha pressa de levantar.

No dia anterior, depois do episódio ocorrido na clareira na mata, Guarasyáva e Tupinambá sumiram por um tempo. Guarasyáva apareceu na casa de Porasy mais tarde. Estava envergonhada, mas não tocou no assunto da manhã.

Mais tarde Thomas também reapareceu. É que, após o ocorrido na clareira, ele acompanhara Porasy de volta e depois voltara a sair. Dissera que tinha coisas urgentes a resolver. Ele demorou bastante para retornar. Sumiu durante toda a manhã. No entanto, quando deu hora do almoço a fome apertou, como seus conhecidos naquela aldeia eram restritos, ele não teve outra coisa a fazer senão retornar à casa dos tios, para almoçar.

Porasy o vira chegando e entrando na casa. Ela estava no quarto, sonolenta, mas percebeu que tão logo ele almoçou, saiu com seu pai.

Depois, quando ela ficou um a sós com Guarasyáva, perguntou para ela de onde surgira Tupinambá.

— Onde o Thomas arranjou aquela menina? – ela perguntou.

— Parece que ela veio de Campestre – Guarasy dissera. – Mas eu acho que não foi com seu primo não. Parece que ela soube por alguém que ele estava aqui e veio vê-lo. Vi ela falando para o seu primo que precisava encontrar com nós três: seu primo, você e eu.

Campestre era uma aldeia próxima à Pirakuá. Como Pirakuá, Campestre também era uma aldeia de retomada.

— E para que ela precisava nos encontrar? O que afinal ela está fazendo aqui? – Porasy perguntara.

— Sinceramente não sei. Só sei que está com seu primo pra baixo e pra cima agora.

Depois Tupinambá também chegaria na casa de Porasy. E não só chegaria, como ficaria hospedada na casa. E assim ela e o primo passaram a noite e amanheceram ali. Por isso Porasy ouvia as vozes na cozinha da casa. Estavam todos lá.

Porasy se levantou, arrumou a cama, e foi para o banheiro. No caminho do banheiro não quis nem olhar, nem cumprimentar os dois grupos que estavam em sua casa: um na cozinha e outro na sala. Mas assim que abriu a porta do banheiro se deu conta, ao olhar de relance para sala, de quem era o outro grupo. Na sala estava o avô Marçal Tupã'y com os pais e umas outras pessoas. Era isso! Ela tinha se esquecido que o avô tinha chegado. Sim, o primo e o pai tinham saído, no dia anterior, para buscar o avô. Nossa! Como ela tinha se esquecido disso? Se sentiu envergonhada.

Escovou os dentes, lavou o rosto e foi para a cozinha.

— Apareceu a dorminhoca! – Yvy parecia muito satisfeita ao cumprimentá-la.

— E aí, prima? – o coração de Porasy se acelerou com o cumprimento do primo.

— Oi Thomas – havia quase um tremor em sua voz.

Como não havia onde se sentar, Porasy pegou tudo e foi para sala.

— A bênção, vovô – ela cumprimentou o avô.

— Deus te abençoe, minha filha – o avô respondeu.

Porasy se sentou em uma parte do sofá que estava desocupada e começou a comer. O grupo da cozinha conversava animadamente. Decidiram em conjunto que sairiam para passear pelos arredores.

— Você vem, Porasy? – a irmã a chamou.

— Não vou não agora não, Yvy. Vou ficar um pouco com o vô.

— Tá bom, mas se você resolver é só vir, tá?

— Tá bom.

A mãe percebeu que Porasy já estava mais calma. Ela era muito diferente das outras irmãs. Na verdade, sempre fora, mas nos últimos tempos, em alguns momentos, a mãe tinha dificuldade de reconhecer a filha. Ela estava muito mudada. Antes ela era meiga, calma, cativante. Agora vivia nervosa, agia com impulsividade, se irritava facilmente. É, tempos difíceis viriam por aí, Dhiacuí pensou. E desejou que a filha não fosse dominada pelo seu lado animal. Lado de fera indomável e que a fazia agir precipitada e por impulso.

Como o avô e o pai estavam com visitas, a menina resolveu não atrapalhar. Assim que terminou de tomar café disse para a mãe:

— Vou pro quarto, mãe.

Ia deixando a xícara na pia, junto às outras louças sujas, quando a mãe se interpôs.

— Lava primeiro essas louças sujas.

— Ah, mãe. Eu? Eu tenho que lavar a louça de todo mundo?

A mãe e o pai a olharam juntos, e lhe lançaram um olhar que indicava reprimenda. Sim! Ela iria lavar a louça! Fazer o quê, né?

Enquanto ainda lavava a louça o grupo que estava na sala se dirigiu para fora. Depois, quando Porasy já estava no quarto, eles começaram a tomar tereré e conversar sobre os estranhos acontecimentos dos últimos tempos, em diferentes aldeias. Outras pessoas chegaram aumentando a roda de tereré e a narração de histórias.

De repente a conversa se virou para os fenômenos ocorridos nos últimos sete anos na aldeia de Pirakuá, arredores e em outras aldeias. E de como eles estavam alcançando o seu apogeu.

— São tantas meninas raptadas. E eles jogaram com elas, a maioria das vezes – alguém disse com tristeza na voz.

Porasy sabia o que eles queriam dizer com jogaram com elas. Eles se referiam a estupros, abusos sexuais. Essa parte da conversa a assustou e ela se remexeu na cama onde estava. Não tinha como negar que havia muitas histórias e conversas sobre fatos como esses nos últimos tempos. Mais do que ela queria ter conhecimento, porque esse assunto não era algo sobre o que ela gostasse de ouvir. Mas até Porasy tinha certeza que esses atos estavam ocorrendo com mais frequência.

— Tem havido muitos roubos. As casas têm sido violadas sempre. As pessoas têm perdido muita coisa com esses assaltos. E nunca se vê quem é. Não se sabe quem são as pessoas. Sempre muito estranho.

Em seu quarto a menina não tinha como não ouvir. E ela sabia de várias reclamações nesse sentido – outra pessoa comentou.

Sumiço de roupas, sapatos, celulares, TVs, bicicletas, etc. Quanta coisa declarada como desaparecida nos últimos tempos! Alguns consideravam que seriam jovens usuários de bebida alcóolica e drogas que roubavam para manter o vício. Mas sempre tinha aqueles, como os que se encontravam do lado de fora da casa, que acusavam Monhãi desses roubos.

Porasy cobriu a cabeça com o travesseiro e resolveu dormir... precisava relaxar um pouco.

Se você se esqueceu, Monhãi é um dos filhos de Kerana e Tau. O terceiro filho. Com o corpo de uma enorme serpente, e dois chifres retos e iridescentes, que funcionam como antenas, segundo as histórias, conforme ele se move, seus chifres refletem as diferentes cores do arco-íris. Monhãi domina os campos: ele é o senhor dos campos. Se você pensa em escapar dele subindo em uma árvore, já vou te avisando que é tempo e energia, perdidos, pois o monstro-deus sobe em árvores com grande facilidade. Se alimenta geralmente de aves, que domina com seu poder hipnótico que emerge das antenas. Por isso mesmo, ele também é conhecido como senhor do ar. Ardiloso, tem grande habilidade em roubos, dos quais nunca sofre consequências, já que é muito esperto.

Embalada pelos sons agora não tão nítidos Porasy adormeceu. Lá fora o tereré, bem com a conversa, continuaram por muito tempo. Mas agora Porasy não ouvia mais. Mas no mundo dos sonhos os monstros eram ainda mais reais.

***

(continua)  

1290 palavras 

Porasy e o estranho mundo das histórias de seu avô indígenaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora