Capítulo 5

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Finalmente o relógio marcou 18h.

João acompanhou a trajetória do ponteiro a tarde inteira. Quando foi que as horas resolveram se arrastar assim?

Levantou-se do marasmo de onde observava o relógio de parede em formato de Homem-Aranha e foi arrumar uma roupa para vestir depois do banho.

Parado em frente ao guarda-roupa, simples de solteiro com figurinhas coladas, ele observa as peças e não sabe o que vestir para a ocasião. Separa algumas que acha que podem ser as certas e as espalha sobre a cama. Para pensativo e as observa: camisa de abotoar azul claro com uma calça de sarja bege escuro e um par de sapatênis preto que ganhou da mãe e nunca usou; uma camisa polo azul marinho Ralph Lauren com calças jeans azul e o mesmo par de sapatos; um conjunto de calça social, terno e gravata com sapato social preto que usou no casamento da prima Sabrina.

João não fazia a menor ideia do que escolher. Era apenas um jantar na casa da vizinha e eles provavelmente jantariam comida caseira da mãe da Ana, mas não queria parecer desleixado, queria passar impressão de que se importava com eles e, de fato, isso era verdade. Precisava de ajuda, ele não poderia pecar nisso, de jeito nenhum. A quem recorrer?

Saiu apressado e deslizando apenas de meias pelo corredor e espiou o quarto dos pais. — que era no momento quarto da mãe já que o pai estava dormindo no quarto de hospedes há uns bons anos. Sabia que era tempo perdido porque Silvia estaria afogada em comprimidos, mas precisava tentar. Tentou a porta, estava trancada. A mãe trancava a porta quando ia tomar banho, isso até que era um bom sinal já que não se lembrava da última vez em que a porta esteve fechada.

Passou adiante rumo aos quartos das irmãs: zona perigosíssima para qualquer ser que habitava aquele mundo e, até, o universo inteiro.

A primeira porta era da Paula, uma placa colada avisava para se afastarem com enormes figuras de bombas e armas letais. Teve uma época em que ela cercou a porta com arame farpado de verdade, durou pouco porque o pai mandou tirar. Agora João está prestes a bater e ele sente medo da reação dela, que provavelmente dorme.

Uma batida. Duas. Três, quatro, cinco.

— O que é, demônio?! — berra Paula, com a cara amassada e borrada de maquiagem e metade dos cabelos pretos cobrindo o rosto de forma bagunçada, ao ver João estaqueado na porta. Ele se assusta e dá um passo para trás quase derrubando um vaso chinês, de alguma dinastia antiga, caríssimo de sua mãe.

— Eu, eu só precisava de uma ajuda... — balbucia amedrontado. Paula parecia um cão rottweiler.

— Matou alguém e quer esconder o corpo?!

— Não, Paula é outra coisa e...

— Então morraaa, imbecil!!! — grita e bate a porta na cara do irmão que treme pelo susto.

— Está bem. — responde ele para o nada.

Bom, depois dessa, querer encarar Bianca era quase sentença de morte. Apesar de Paula ser inacessível a maioria do tempo, houve uma época em que eles tiveram contato, mas faz tantos anos que parece que nem existiu. Já com Bianca nunca houve contato algum. Por ser cinco anos mais velha, o mundo dela sempre foi outro. João não tem recordação alguma de nada com Bianca e ele envolvidos. Nem mesmo em aniversários, ela nunca estava presente.

Ele decide que a avó é território seguro.

Desce os degraus correndo, segurando firme no corrimão para não resvalar na escada e procura pela avó na cozinha, sala e, por último, na varanda onde a encontra.

— Vó, preciso de ajuda!

— O que foi menino? Ta com dor de barriga? Vou fazer um chá! — diz fazendo menção de se levantar.

Céu de Menta (Degustação)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora