HISTÓRIA DE AMOR

10 0 0
                                          


Escutar o barulho das esporas batendo, ao tocar na madeira da escada, era um som que penetrava até o fundo da alma de Rebeca. Ele se aproximava mais e mais, enquanto ela, deitada na cama, cobria os ouvidos com as mãos. Ele viria, e o cheiro de gado e o suor de cavalos infestariam o quarto. A sua barba por fazer roçaria o rosto dela ao beijá-la. O corpo da jovem de 26 anos arrepiaria de repúdio assim que ele o fizesse. Toda vez que ele a tocava parecia tirar uma parte dela, como um acordo desvantajoso. Ele a enojava. No começo, pensou que poderia suportar aquela condição, porém, com o tempo, foi provado que não seria possível.

Ela o conheceu quando trabalhava em um prostíbulo barato de beira de estrada. Rebeca havia se separado do marido e, ao aceitar o convite de uma amiga, ingressou na vida mundana sem pestanejar. O seu corpo era o testemunho de anos de abuso, que por muitas vezes beirou a sua morte. Marcas de faca, cinco delas, desenhavam sua pele como uma pintura abstrata. Em sua mão direita, perto do pulso, se encontrava a mais evidente delas. A cicatriz era originária de uma frustrada tentativa de defesa diante de uma longa faca de cozinha.

Os estupros eram ocasionais, porém acompanhados por longos rituais sádicos por parte de seu companheiro. O álcool, concubina inseparável de seu ex-marido, nunca deixou suas narinas, assombrando-a de tempos em tempos. O cheiro de cigarro e bebida no pequeno bar do prostíbulo parecia sussurrar em seus ouvidos, como uma ameaça oculta, prestes a pular em sua garganta.

Getúlio, um velho e solitário fazendeiro, tornou-se um de seus mais assíduos clientes. Escutava as histórias da moça como um espectador atento a cada palavra e detalhe.

_ Aí está uma mulher forte e que conheceu o lado amargo da vida muito cedo! _ dizia com lágrimas nos olhos.

Sua vida era vazia e a presença de uma mulher preenchia o vazio de um incorrigível romântico. Isso o fazia sentir-se, de alguma forma, como um jovem. As palavras da moça o faziam sentir-se bem quisto, como um participante novamente da vida . O pequeno e sujo bar, com uma vitrola virtual no canto e uma fraca luz avermelhada que lambia as paredes sujas e descascadas, podia parecer triste e angustiante para muitos. Contudo, para ele, era um lugar seguro, sem julgamentos, quase mágico. Getúlio, certo dia, pediu-a em casamento, embora o conselho de todos sugerisse que não o fizesse.

"Casar com puta é chave de cadeia!", dizia um ditado antigo da pequena cidade. Mas o fazendeiro queria protegê-la de uma eventual volta do ex-marido que, segundo dizia a jovem, lhe telefonava toda semana com ameaças.

A fazenda de Getúlio era grande. Ele era um homem de posses, apesar de não aparentar, devido ao seu jeito simples de se vestir e comportar. Sua velha caminhonete, companheira de anos, reforçava tal imagem. Uma vida inteira de sacrifícios e trabalho no campo, com gado e café, garantiu a ele um futuro tranquilo. Os seus 75 anos de idade foram comemorados no mesmo dia em que colocou uma aliança no dedo pela primeira vez, tendo Rebeca como noiva.

_ Os olhos do velho pareciam com os de uma criança em uma fábrica de doces. _ diziam todos, lamentando o acontecido. Não foram poupados esforços e dinheiro para realizar uma cerimônia digna de barões cafeicultores da época do Império. Rebeca parecia caminhar nas nuvens. Apesar de sua vida amarga, ainda tinha traços belos, que pareciam ter sido ampliados por uma lupa invisível naquele dia.

O tempo passou, e o amor do fazendeiro crescia mais a cada dia. Fazia de tudo para agradá-la, sem pedir nada em troca. Rebeca, porém, não pôde nutrir o mesmo sentimento pelo marido. Com 10 meses de casada, começou a se envolver com o capataz da propriedade de seu marido. Eram frequentes os encontros furtivos no meio da noite, que aconteciam enquanto Getúlio adormecia e durante as viagens do velho a cidades onde mantinha negócios.

Jonas, o capataz, era um jovem errante de beira de estrada acolhido pelo fazendeiro e criado como um filho. No entanto, seu caráter sempre permaneceu envolto em sombras como o da ex-prostituta. Dissimulado e calculista, cobiçava a fortuna do velho como um pirata diante de outro navio. Os amantes, aos poucos, arquitetaram um plano para matá-lo. Na verdade, um plano bem simples, todavia eficaz e seguro.

No mês de dezembro, o Natal era comemorado na casa da fazenda. Entre os convidados estavam somente as pessoas mais estimadas. Rebeca, particularmente naquele ano, certificou-se de que seria uma cerimônia mais restrita, somente entre o velho, seu filho errante e sua mulher. Providenciou ainda que fosse, nesse mesmo dia, a ida ao antigo poço da fazenda para beber um pouco de sua água – tradição da qual Getúlio não abria mão há anos. Ele acreditava que, dessa maneira, garantiria sempre um ano seguinte próspero. Segundo o fazendeiro, a água de suas terras era o segredo de seu sucesso como empreendedor rural. Ele se recordava do pequeno córrego que cortava suas terras, saciando o seu gado e irrigando a sua plantação por décadas. "A fazenda e eu somos um só", dizia sempre.

No final da noite, o velho Getúlio seguiu seu ritual anual, acompanhado por seu filho torto. Ao aproximar-se do poço, foi empurrado, quebrando o pescoço na queda.

Rebeca foi o álibi de Jonas, garantindo à polícia que estava com ela na casa durante a trágica ocorrência. Todos na pequena cidade conheciam o hábito de Getúlio na época de Natal. Os policiais, em suas investigações, concluíram que tudo não passava de uma infeliz fatalidade, um acidente. Apesar dos olhares desconfiados da gente que vivia na região, nada contra o casal de amantes pôde ser provado.

A ex-prostituta, durante um bom tempo, teve que se esquivar de comentários e atitudes discriminatórias por onde passava, como no mercadinho e na farmácia. E assim, sem perceber, acabou se afastando de todos, tornando-se reclusa na grande casa. O capataz se mudou para a sede da propriedade, inflamando ainda mais os comentários maliciosos dos habitantes. Não tardou até que Jonas se tornasse violento. O montante de dinheiro que adquiriu com a morte do pai aguçou também a sua tendência para a bebida, afinal, poderia agora ser ele mesmo, não recebia mais ordens de ninguém.

Desse modo, Rebeca via o seu passado sendo retomado. Nada, nem a casa grande nem todo o dinheiro poderiam dar um fim naquilo. Ela pensou em vender a fazenda, mas uma cláusula no testamento impedia que o fizesse em quaisquer circunstâncias. Aos poucos foi sentindo a falta de Getúlio. A culpa foi tomando seu espírito, não podia perdoar o que fizera. A vontade de estar ao lado do fazendeiro era tanta que um dia se tornou concreta, realizando o desejo que trazia dentro de si.

Suas esporas tocavam a madeira da escada enquanto subia em direção ao corredor. Ela esperava com um sorriso por seu marido, que retornava de uma longa viagem. A saudade era muita. O homem atravessava o corredor em direção à porta contornada por uma luz que emanava do quarto do casal. Logo a porta foi aberta, revelando a figura decomposta do velho Getúlio. De sua pele desprendiam-se larvas que caíam ao chão a cada passo que dava. Um de seus olhos saíra de uma das cavidades de seu crânio, pendurado por uma membrana acinzentada. Fios de cabelo soltavam de seu pútrido couro cabeludo. Sua boca se encontrava torta, formando um sorriso macabro. Seu maxilar pendia somente de um lado, segurado pela epiderme esverdeada que resistia à ação do tempo. O cheiro de seu corpo emanava uma mistura doce e azeda, ácida.

Ela o segurou em seus braços, assim que ele alcançou a cama. Durante toda a madrugada fizeram sexo, enquanto ela gemia em intermináveis, suspensos orgasmos. No entanto, ela teria que conviver todos os dias com o antigo capataz da fazenda, seu amante, enciumado pelos gemidos de prazer em seus sonhos. Assim se tornaram todas as noites ao longo de sua vida, até que se transformasse em uma senhora de avançada idade e sucumbisse à morte. O pior e recorrente fantasma era a culpa.

HISTÓRIA DE AMOROnde as histórias ganham vida. Descobre agora