EXÍLIO

15 0 0
                                          

 O vento soprava naquela manhã de verão e com ele um leve cheiro de terra molhada da noite anterior encheu seus pulmões. O barulho da chuva batendo nos telhados das casas sempre foi uma das coisas simples da vida que o fazendeiro admirava. Adriano, um pugilista aposentado, sem benefícios do governo e proveniente de uma família hostil do Norte do país, apreciava, sentado em sua cadeira de balanço, a vasta plantação a sua frente. Dois anos de progresso e a mais completa paz eram a recompensa pelos muitos dias turbulentos vividos em sua vida. Adriano tomou o suco de uma de suas laranjas e, ao terminar com o resto do copo, sorriu largamente.

_ O que mais um homem podia pedir? _ indagou ele, tendo nos olhos o brilho de quem apreciava a vida.

Uma caminhonete vermelha passava pela estrada, tomando a atenção do fazendeiro. O motorista parecia apressado, e não havia dúvidas de que seu destino era a fazenda de Adriano, pois a pequena estrada só apontava para aquela direção – o casarão sede daquelas terras. Ele apertou os olhos como reação à luminosidade e colocou o copo sobre a mesa de bambu que ficava ao lado, levantando-se lentamente para receber sua visita. O fazendeiro, de imediato, sabia de quem se tratava. Aquela caminhonete pertencia ao prefeito daquela cidade no Sul do Estado.

Adriano não esperava por aquela visita e não podia imaginar a razão dela. Alguns minutos se passaram até que o prefeito colocasse os pés sobre a terra vermelha em frente ao casarão. O fazendeiro desceu os três degraus que separavam o deck de sua varanda, poucos metros a sua frente. O homem de cabelos grisalhos, chamado José, apertou a mão do seu anfitrião com a firmeza de um candidato à procura de votos.

_ Prefeito, é um prazer ter o senhor aqui na minha fazenda.

O ar preocupado no rosto do visitante e um breve silêncio pareciam o presságio de uma má notícia.

_ Na verdade gostaria de ter vindo em melhores circunstâncias, por razões diferentes. _ disse José, aumentando ainda mais a ansiedade de Adriano.

_ Do que se trata, senhor prefeito?

_ Você foi visto na cidade, parece que voltou do exílio.

O fazendeiro ficou por instantes sem palavras. A garganta secou, os olhos fixaram a plantação à frente. Ele tentava vasculhar em sua mente uma razão ou um sentido para as palavras do prefeito.

_ Tem certeza? _ indagou Adriano, temendo a resposta.

_ Tenho. Você está neste momento na cafeteria do Sr. Andrade. O recado é que você encontre com você mesmo o mais breve possível. A cidade espera que essa situação seja resolvida logo. As pessoas estão apreensivas, filho. Só Deus sabe quais seriam as consequências, caso isso não seja reparado.

O fazendeiro assentiu com a cabeça, demonstrando entender a gravidade dos acontecimentos. José deu meia volta até sua caminhonete e em pouco tempo tomou sentido contrário, de volta à estrada.

Adriano vestiu um casaco jeans e colocou o velho boné marrom sobre a cabeça, deixando a fazenda minutos depois. Ele não pôde conter seus pensamentos que insistiam em projetar em sua mente os acontecimentos de dois anos atrás. Um viajante procurara o prefeito com a promessa de que tinha a cura para todo o mal pelo qual passava a Pequeno Vale, uma cidade que detinha, até então, uma incidência de violência acima dos padrões para um lugar com apenas 12 mil habitantes. Casos de violência doméstica, brigas em bares e atividades ilegais, como prostituição, eram constantes. Também não era raro que alguns desses casos terminassem em morte. Alguns diziam que a razão de tudo aquilo se devia ao fato de que a cidade havia sido construída em cima de um antigo terreno indígena, onde centenas de índios morreram em um massacre por disputa de terras. Outros falavam que tudo não passava de uma lenda caipira e que era apenas a manifestação da natureza hostil dos que viviam ali. Adriano, na época, se encontrava em total bancarrota: a fazenda seria entregue graças aos seus hábitos coniventes com o resto da população. O fundo da garrafa eram seus óculos, por onde ele enxergava um mundo feito de desconfiança e falta de fé no próximo.

EXÍLIOOnde as histórias ganham vida. Descobre agora