IMPULSO ELETROMAGNÉTICO INSTINTIVO

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Na noite passada eu acordei para ir até a cozinha – um hábito meu quando não consigo dormir, o que, aliás, é outro hábito que adquiri recentemente. Ao descer as escadas, encontrei meu pai sentado no sofá da sala, de cabeça baixa, chorando. Eles sempre foram um casal muito unido. Entendo o quanto é difícil para ele aceitar a situação. É um homem que dedicou a vida à sua família. Para ele, isso é tudo. Talvez a única coisa que ainda resta é pensar que há algo além da mata, uma continuidade para todos nós, de alguma forma.

Hoje eu tenho 18 anos. O meu cachorro há muito nos deixou. O meu amigo Carlos andou faz um ano, e minha mãe está prestes a fazê-lo. Eu decidi então andar junto com ela. Eu preciso entender e ver com meus próprios olhos o que impulsiona todos nós.

Não me restou nada que me prenda a esta vida além de meu pai. Por alguma razão eu sei que não serei repelido como os outros. Eu voltarei e contarei a todos que aqui estão do que se trata o maior dos mistérios já vistos pela humanidade. Eu nunca, na verdade, fui apegado à vida. Tudo sempre girou, a partir dos meus 10 anos de idade, em torno do impulso. Não há um só dia em que não pense a respeito.

O que está acontecendo com minha mãe somente fez com que não houvesse mais dúvidas do que deve ser feito. Alguém tem de seguir em frente. Alguém que não se importe em abrir mão da própria vida por um bem maior. Meu pai irá entender. Eu quero ter certeza de que minha mãe caminhará para um lugar bom, onde ela não sentirá dor ou sofrimento.

O mais difícil é acreditar na hipótese de que lá seja ruim ou doloroso, de alguma forma imaginável ou inimaginável. Prefiro acreditar que, no meio da floresta, há um lugar tranquilo em que as pessoas possam repousar. Uma recompensa depois do trabalho árduo. Hoje as notícias nos mostram que o mundo mudou. As pessoas se tornaram mais agressivas. O clima a cada dia parece mais e mais hostil. A mata seria algo distante disso tudo.

As portas não teriam mais que ser trancadas. Os alarmes não seriam mais ligados. Não seria preciso um papel para fechar acordos. Não teria sujeira para limpar. O tempo não seria impiedoso através da idade.

Logo minha mãe começará a andar, provavelmente no meio da noite, como a maioria. Eu estarei com os olhos atentos quando isso acontecer. Hoje é uma noite fria, como todas as demais no inverno. Somente alguns apareceram e caminharam em direção à mata. Existem noites em que poucos andam – hoje está sendo uma delas. Não há uma matemática, algo que possa ser medido. Não há padrões que estabeleçam uma lógica. Ou ao menos uma lógica que possamos compreender para explicar o motivo de tudo isso.

Apenas acontece da forma que foi estabelecida por alguém ou algo. Não temos uma justificativa. Seria como olhar ao redor e tentar explicar a origem de tudo. Teria mesmo o universo surgido de uma grande explosão? Isso é algo que talvez nós nunca iremos saber. Mas a possibilidade de que talvez tais coisas, ou muitas outras, sejam explicadas ao chegar no meio da mata é, no mínimo, intrigante.

São 11 horas, e o jantar já foi servido. Meu pai encontra-se na cama. O som de cigarras e de pés pisando nas folhas secas do lado de fora é tudo que posso escutar. É um barulho com que me acostumei durante todos esses anos. Não atrapalha meu sono e, de uma forma estranha, até me ajuda a espantar a insônia de vez em quando.

A luz do quintal está acesa. Algumas sombras que passam por ela são projetadas nas paredes do meu quarto. São pessoas vindas de todo o mundo: homens, mulheres e crianças. Vêm andando em uma mesma cadência de passos lentos. Todas as vezes que vejo tal ritual me lembro de filmes como os de George Romero. É como se a vida não fizesse mais parte delas.

Tento imaginar como era o mundo antes do impulso. Meus avós presenciaram esse passado não muito distante. É uma pena eu não tê-los conhecido o suficiente para perguntar-lhes. O barulho do assoalho de madeira chama a minha atenção. Sei do que se trata. Mamãe está andando. Posso vê-la descendo as escadas ao abrir um pouco a minha porta. À minha direita, de pé, está meu pai, olhando-a deixar a casa. Seus olhos estão cobertos por lágrimas. Ele não dormira, ao contrário do que eu imaginava. A sua porta se fecha lentamente, assim como os seus olhos se fecham com tristeza.

A minha porta também é fechada bem devagar. Não quero que papai note que estou acordado. A minha janela já está aberta, pois é através dela que vou sair – um velho hábito adquirido na infância. Não demora muito e já estou ao lado da fachada da casa. É quando mamãe abre a porta da frente, andando em direção à mata sem me notar. Seu rosto é de serenidade, como alguém que dorme de olhos abertos em uma noite tranquila, sem pesadelos. O céu estrelado é o mais lindo que já vi até então. Uma tristeza nostálgica surge. Seria como viajar sem saber para onde ir, deixando para trás algo que é precioso. Estou a poucos metros do limite da floresta. Um frio na barriga toma conta de mim. Não darei meia-volta. Tenho certeza que seguirei em frente. O rosto de minha mãe me acalma, o frio parece ceder. Já estou do outro lado, além do que supostamente eu não deveria estar. Ao olhar para trás, vejo a minha casa. Na janela do meu quarto está o papai. Para a minha surpresa, parece que ele sabia o que eu iria fazer. Muitos estão ao nosso lado, e muitos outros atrás de nós. Minha mãe agora olha para mim, um sorriso desponta de seus lábios. Todos parecem despertos.

À frente eu vejo do que se trata o mistério. Em um só segundo compreendo tudo que faz parte dele. É a coisa mais fantástica já concebida. Entendo agora a razão de todos caminharem. Não é mais preciso voltar e dizer aos outros. Meus passos me guiam para frente, eu me rendo ao que é determinado. Tudo que era lógico e fazia parte da razão não tem mais importância.

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