IMPULSO ELETROMAGNÉTICO INSTINTIVO

7 0 0
                                          


Somente quem mora em cidades pequenas sabe o quanto se tem pouco para fazer. Então, quando certos pensamentos ficam em nossa mente, eles acabam se tornando uma obsessão, pois não há muito para tomar o lugar deles.

A primeira vez em que tomei conhecimento a respeito do impulso foi quando perdi o meu cachorro, um pastor alemão, que me acompanhava aonde eu ia.

Éramos eu, o meu melhor amigo Carlos e meu cão. Eu tinha apenas 10 anos e tudo que sabia sobre a vida era que não importavam as besteiras que eu fizesse, eu sempre teria os dois e minha família ao meu lado. Quando Lobo, o meu cachorro, desapareceu – ou andou, como todos dizem quando acontece o impulso –, foi difícil de entender.

Lembro-me da minha mãe e do meu pai, sentados na sala, tentando explicar o inexplicável.

_ É algo que faz parte da ordem natural das coisas, filho. _ diziam eles.

Quando tudo começou, há 50 anos, ninguém diria algo como aquilo. Ninguém sabia o porquê nem até quando duraria. Todos simplesmente aceitaram porque foram tomados pelo medo de algo que não seriam capazes de entender. O impulso é maior do que qualquer um de nós. A ciência dizia que era de origem eletromagnética. Já a religião contestava, naturalmente, dizendo que era parte de algo adormecido outrora em nossa natureza, era um impulso inerente ao nosso instinto. Foi desde então que adotaram o nome de Impulso Eletromagnético Instintivo.

As pessoas simplesmente começaram a andar na mesma direção. Às vezes, por quilômetros, longas distâncias mesmo. Não importava o quão longe estivessem de casa.

Era como se o cansaço não mais fizesse parte de seus corpos. Elas caminhavam até a mata próxima à minha casa. Da minha janela, durante todos esses anos, avistei milhões delas.

São como sonâmbulos. Seus olhos só miram adiante, como se um irresistível magnetismo tomasse conta de todos. Quando entram na mata, jamais retornam. Nunca mais são vistos, assim como acontecera com Lobo.

Não importa o quanto tentemos detê-los, mais cedo ou mais tarde todos nós iremos andar. "É a ordem natural das coisas".

O primeiro sintoma é a dissociação, ou seja, a desconexão gradual do que está ao redor. Todos se tornam distantes. É como se suas mentes enfraquecessem. É como se elas não pensassem em mais nada. A total abstinência. O olhar se distancia da realidade e nenhuma palavra mais é dita.

Pouco a pouco elas se isolam, até que um dia terão o impulso, de andar. Foram contadas inúmeras histórias ao longo de minha vida. Dizem que o exército enviou aviões e helicópteros para sobrevoarem a região. Porém, algo repelia tudo aquilo que não era impulsionado. Somente aqueles que estavam sob influência do fenômeno conseguiam adentrar a mata e cruzar determinado limite. Os não impulsionados dão meia volta, alheios à própria vontade. A história mais assustadora de todas que escutei em minha vida aconteceu muitos anos atrás, antes mesmo do meu nascimento.

Por alguma razão inexplicável, uma senhora teria começado a andar acordada parcialmente do transe. Dizem que, quando tentou resistir, foi como se algo tivesse tomado suas pernas. Por mais esforço que fizesse, não conseguia conter os seus passos. A ansiedade, ou o que tinha se apoderado da pobre senhora naquele momento, tomou conta de sua mente. Aquele sentimento foi tão intenso que o seu rosto foi desfeito até os ossos pelas unhas de suas mãos.

Dizem que foi a coisa mais aterrorizante já vista. Desde então ninguém procurou questionar ou resistir ao que se tornou "natural".

Minha mãe começou a manifestar os sintomas há dois dias. No começo, ela parecia somente um pouco ausente, perdida em pensamentos. Pensamos que pudesse ser alguma outra coisa. Agora ela se isolou em seu quarto. Não come e não menciona mais uma só palavra. Fica sentada em sua cama com o olhar através da janela, em direção à mata.

IMPULSOWhere stories live. Discover now