Um chiado na praça

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            Pedro Gaita tinha acordado com idéia esquisita na cabeça. Desd’o sonho que ele andava se sentindo um passarinho. Varou a noite naquilo; pulando de galho em galho, mantendo vigília em moirão de cerca e duelando o vento com a asa, a modo de alçar vôo.

            Agora veja só que absurdo, um boi velho daquele tisnando de que era passarinho. Naquela idade esses desvarios. Se a patroa estivesse viva, pedia a ela uma reza. Era rezadeira, Maria.

            Ele dizia macumbeira. Implicância. Tudo motivo pra criar briga. Ciumento que só, enciumou tanto que deixou de amores, enrudesceu. Tanto que nem prestou luto pela morte dela. Mas isso foi depois. A morte foi depois.

            O depois, da morte de Maria, é de antes do agora, onde Pedro Gaita tava se acostumando com o monte de gente se espalhando pela praça. De vez em quando alguém fazia um barulho um pouquinho mais alto, assustando os passarinhos das árvores onde se empoleiravam para passar a noite. Ele se sentia a voar junto.

            Seco, reclamou para si mesmo: “Não devia estar aqui”, tossiu e, envergonhado, engoliu o catarro. Não sabia onde cuspir.

            O pai dele cuspia onde fosse. Ele não. Desde cedo que se encabulava de cuspir na frente dos outros.

            De modo que agora era agüentar e engolir. Agüentar e engolir.

            Como em tudo na vida.

            E como muitos ali, esta era a primeira vez que Pedro iria ver um filme. E só tinha saído de casa àquela hora da noite por insistência do filho mais novo, Zito.

            Olhou em volta, catando rostos amigos – em tese, eram todos conhecidos, familiares, mas ele, Pedro, em toda a vida buscara pouco ou quase nada pelo diálogo dos outros. A vila de Macuco estava cheia; as pessoas tinham vindo das cidades vizinhas só para aquele momento. Cordeiro, São Sebastião do Alto, Santa Maria Madalena, Trajano de Moraes, Cantagalo e até Bom Jardim e Duas Barras. Todos mandaram representantes, devidamente anunciados no palanque.

            E Pedro não estava com paciência para agüentar aquele jogo todo dos sorrisos e abraços. No fundo, estava era ansioso para ver logo o tal filme. Olhou ao redor mais uma vez, encontrando, a alguma distância, um grupo de conhecidos tomando cachaça. Um dos filhos no meio. Não o mais velho. Não era Sergio, era Jodir.

            Sergio tinha ido embora logo depois da morte da mãe. “Para o Mato Grosso”, dissera. E nunca mais dera notícias. Vezoutra, algum viajante passava por Macuco e ia até sua casa, trazia notícias pro velho Gaita do filho que agora começava a se tornar apenas um quadro bonito na parede. De vez em quando Pedro se pegava observando o retrato do filho, comparando-o a si mesmo, decrepitude em formação, no espelho. Não gostava do que via.

            Jodir tava numas de lamber fundo de garrafa. Tarde da noite, Gaita ouvia o filho chegando, bêbado, amassado de postes, meio-fios, chutes e amores roídos. Depois, pouco tempo depois dessa noite, Jodir ia sumir, igual água que desaparece na areia da beira do rio. Jodir ia sumir na mesma esponja de mundo que tinha consumido seu filho Sergio. Agora Pedro só olhava o filho lambrecado da nheca do álcool, esmilinguindo.

            “Eu trouxe guaraná pro senhor”, disse o mais novo, Zito, entregando-lhe a garrafa e se sentando como podia, na mureta, bem do lado do pai.

            “Guaraná tá bom”, respondeu, já talagando o líquido. “Brigado”, emendou depois de beber até mais da metade do vidro.

            Secou-se o papo. As palavras até brotavam, mas imperava uma preguiça para se dizer, uma má vontade. Deixou assim.

            Zito cutucou-lhe: “É o prefeito”, apontou para o simpático Zé Carlos, “só tava faltando ele chegar. Agora devem começar”.

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