Capítulo 4

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Ele disse que sim.

Ela sorriu agradecida e contente porque poderia pôr seu plano em prática com mais facilidade. Agora ela só precisava avisar sua mãe que teriam visita para o jantar e ele só precisava... bem, ele não precisava fazer nada porque ninguém daria bola para sua ausência. Somente sua avó, talvez.

A família de João não jantava junto. Cada qual se virava com sua refeição a hora que a fome batia. Porém João era preocupado com a saúde de sua avó e preparava para ela, com antecedência, todas as refeições da semana, depois era só descongelar. Ele fazia questão de comer junto com ela para tentar manter uma relação saudável familiar em sua casa e tentar convencer os outros.

Como sempre, ele chega em sua casa e se livra da mochila no seu quarto. A avó estava na sala tricotando e assistindo o jornal do meio dia, ele a cumprimentou na passada. Vai ao banheiro e lava as mãos, abre o freezer da enorme geladeira prateada de alta tecnologia - que servia gelo, água e suco pela porta. Totalmente inútil porque ninguém tomava nem água ou suco por ali e nem usavam gelo nas bebidas. Eles compravam geladas. Pega o pote com a comida do dia e leva ao micro-ondas, acionando os botões para descongelar na temperatura certa.

Passa pelo quarto da mãe e entra sem fazer muito barulho para não assustá-la. O quarto estava escuro e sua mãe perdida entre cobertas enormes e travesseiros de pena de ganso e aqueles que eram da NASA.

- Mãe? Tudo bem? - Aproxima-se cauteloso. Silvia mexe-se brevemente e limpa o canto da boca com o antebraço.

- O que foi? Quem é? - resmunga com a voz rouca pelas horas dormidas.

- João. Cheguei da aula. A senhora quer almoçar?

- Oi filho. - Senta-se e tenta ajeitar os fios curtos e revoltos tingidos de loiro platinado. A cor já amarelava a olhos vistos, fazia semanas que Silvia não retocava no salão, devia ver isso urgentemente porque o que as vizinhas pensariam dela? - Almoçar? Mas não é cedo demais? Que horas são? - Olha para janela constatando que não teria a mínima noção se era dia ou noite por estar fechada e bloqueada pelas cortinas blackout.

- Deve ser quase uma hora da tarde. - João se senta na beirada da cama buscando proximidade com a mãe. Tão distante mãe.

- Meu Deus! Estou dormindo desde quando? Eu pensei que estava só tirando um cochilo!

- Acho que a senhora deitou ontem depois do almoço, não tenho certeza se a senhora se levantou depois disso.

- Ah... Levantei sim, claro que sim. Dobrei minhas roupas novas. - Mentiu. A verdade é que ela estava apagada fazia quase vinte e quatro horas. Mas como admitir isso?

- Quer vir almoçar? Estou esquentando um picadinho com espaguete. A senhora adora!

- Eu... ãn... você me dá alguns minutos? Vou dar um jeitinho aqui no quarto e já desço pra almoçar com você, está bem meu amado?

- Vovó também vai almoçar. Seremos nós três como nos velhos tempos! Que tal? - soa animado ao comentar.

- Vai ser maravilhoso filho. Mamãe já vai descer. - João vê o semblante abatido de sua mãe e pega as mãos dela entre as suas para demonstrar compaixão e tentar passar forças, para que ela saiba que ele está ali para ela, para qualquer coisa. Ele sabe que dificilmente ela vai sair do quarto hoje ou essa semana. Os remédios fortes não estavam ajudando na depressão, ainda pioravam a memória dela e roubavam seu ânimo de viver. João até sentiu saudades da época em que ela saía com seu Volvo S60 vermelho rua a fora para fazer compras nos shoppings do centro. Ele só não sentia falta de vê-la chorando compulsivamente ou de notar seus olhos inchados como duas bolas de ping pong.

Céu de Menta (Degustação)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora