Capítulo 3

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Ana passou a aula toda pensando numa boa alternativa para seu problema recente: as estrelas. Era complicado para ela ultrapassar o lógico, mas estando há tanto tempo convivendo com João e sua mania sonhadora, ela aprendeu a desenvolver esse lado mais lúdico e poético.

— O que você tanto faz nesse caderno? — pergunta Sofia sua colega nova. Ana tinha uma outra amiga, Marina, ambas se conheciam desde a pré escola, mas Marina teve que se mudar no começo do ano, deixando Ana sem sua companheira da vida toda.

Carol e Roberto ficaram preocupados com Ana sem uma pessoa a qual estava tão ligada e acostumada. Ana sofreu nos primeiros dias sem a companhia da amiga que a conhecia tão bem, porém seguiu sua vida, afinal, ficar chorando não traria sua amiga de volta, só lhe incharia os olhos.

Sofia entrou na escola nesse mesmo ano e, por ser novata e tímida, resolveu aproximar-se de Ana que parecia ser uma garota tranquila e que não lhe faria muitas perguntas ou debocharia do seu jeito.

— Estou desenvolvendo uma coisa. Um projeto.

— Isso parece interessante. Posso ver?

— Pode. — Ana inclina o caderno e Sofia vê estrelas desenhadas num céu noturno.

— Hm. Você pretende virar astronauta?

— Não. Eu estou tentando pensar em algo menos lógico. Como pedras que viram flores, entende?

— Absolutamente não. Mas você que sabe. Você viu que tem trabalho pra fazer? — A professora passava alguns slides sobre filósofos da antiguidade. Aquela aula boa pra não prestar atenção em nada.

— Vi. — Ana seguia desenhando.

— Você viu que precisa apresentar lá na frente?

— Vi também.

— E tudo bem pra você?

— Vou pensar nisso mais tarde. Um problema por vez.

— Então ta. — deu de ombros. — E como vai seu amigo João Paulo?

— Vai? — Era difícil pra Ana entender certos termos. Para os amigos e familiares só bastava ter paciência de sempre explicar. Logo após questionar, ela se dá conta de que era apenas uma pergunta corriqueira sobre o bem estar do seu amigo.

— Quero saber se ele está bem.

— Ele me pareceu saudável essa manhã.

— Eu acho ele uma gracinha, sabia?

— Que tipo de gracinha?

— Do tipo fofo.

— Ah ele é fofo. — Ana se referia às bochechas, hoje não mais tão volumosas como há cinco anos, e à barriga saliente que se percebia pelas marcas na camiseta. Mesmo João tendo emagrecido muito desde os doze anos, ele ainda mantinha as características da sua quase obesidade infantil.

Sofia se referia a outra coisa...

— Você acha ele fofo também?

— Sim. — Vez dela de dar de ombros. Todos o achavam fofo, isso era óbvio.

— Ele te traz e te leva todos os dias. Eu acho isso um gesto adorável. É tão raro ver garotos assim...

— Os outros garotos não fazem isso com suas amigas?

— Pouquíssimos, Ana. Você é uma garota de sorte.

— Você gostaria que um garoto te levasse e buscasse na escola?

Céu de Menta (Degustação)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora