Capítulo 1

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Era uma manhã de julho.

Mas não estava frio como deveria estar; o inverno daquele ano parecia uma primavera. Ana estava contente com isso, afinal, ela não gostava de frio muito frio, como também não gostava de calor muito calor. Às vezes ela não se importava com essa questão do clima. Tendo as roupas certas para a temperatura bem guardadas na gaveta, então não haveria problemas. O que causava desespero em Ana era abrir suas gavetas e não encontrar a peça certa para a ocasião. Isso gerava um estresse enorme que somente sua mãe, Carolina, dava conta de resolver, ou não. Tinha vezes que nada resolvia. Só o tempo.

Ana se arrumava para a escola com o passo a passo já demarcado, numa rotina perfeita. Ela não gostava de ir para a escola porque não se sentia confortável em meio a tantas crianças barulhentas, mas como era parte do dia a dia de Ana, então ela ia. Bastava pensar que era algo simples e reto, com começo, meio e fim. O fim era bom, sinal de que voltaria pra casa. A casa era boa e segura, com todos os objetos e acontecimentos bem organizados, na maioria das oportunidades, já que imprevistos acontecem. Porém era seu lar, com as cores de sempre, os cheiros característicos, os móveis confortáveis e sempre aptos para ela. Com a mãe Carolina, o pai Roberto, o irmãzinho de dois anos Davi e o cachorro Bolota. E Ana! Claro, o lar também tinha Ana. Ana Maria que na época contava com doze anos. Juntos formavam a família Salles. Família essa que morava na Rua das Cerejeiras, número 327.

E naquela manhã atípica de julho Ana descobriu uma pessoa. Um vizinho. Que morava na casa ao lado. Ele apareceu em sua janela, dando em Ana um susto danado que a fez soltar um gritinho abafado. Ela não o viu chegar, estava ocupada em sua mesa anotando as tarefas da semana na agenda colorida de marcadores e clipes de plástico. A menina gostava de fazer as anotações na agenda pela manhã justamente por causa da janela: os raios de sol matutinos eram suaves e Ana leu em algum lugar que era bom pegar sol para a absorção da vitamina D. Vitaminas são sempre importantes. Ana fechava os olhos e imaginava letrinhas D sorridentes tocando em sua pele e sendo absorvidas para que sua saúde fosse perfeita.

No meio de uma passada de página, Ana virou a cabeça para observar a rua e se deparou com aquele menino de cara redonda, grandes bochechas e olhos pretos a olhando e acenando sorridente. Claro que Ana deu um pulo da cadeira, o que assustou o menino também, que se desculpou envergonhado.

— Ei menina, me desculpe! Eu não quis te assustar. Uau você quase me fez cair pra trás bem aqui no seu jardim.

Ana virou o rosto e ergueu a mão para cobrir a sua visão do menino. Ela queria se esconder dele, estava envergonhada, tímida, não queria conversar com ninguém. Sem olhar, puxou as cortinas, a fechando na cara do garoto de bochechas levemente rosadas.

— Meu nome é João! — Ele falou alto para que ela o escutasse e ignorando os modos estranhos da menina. — João Paulo. E o seu?!

— Vai embora! — A menina gritou de dentro do seu quarto.

— Por quê?

— Porque sim.

— Estamos de férias, são poucos dias e está calor, achei que poderíamos brincar aqui fora um pouco. Meus amigos da rua viajaram. Quer ser minha amiga? — Ana não resistiu à curiosidade e abriu uma frestinha na cortina.

— Não gosto de amigos.

— Mas, por quê? — João perguntou intrigado.

— Não consigo entendê-los. São rápidos e falam rápido e correm e mudam de ideia o tempo todo.

— Sério?

— Muito sério. Eu não consigo acompanhar isso, me deixa nervosa e quando fico nervosa eu sinto infelicidade.

Céu de Menta (Degustação)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora