IV

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Culpa

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Culpa. Talvez seja essa a palavra que revirei minha mente para descobrir. Culpa porque Petrus me encarava como se soubesse de algo. Culpa porquê tenho certeza de que Jafar está envolvido nisso. Culpa por desejar entender o que se passa ao meu redor. Como um peixe acuado frente ao seu predador; eu sou o animal pequeno e a minha vida é o que me devora. Não entendo esse mundo a que pertenço; me encaixo mas sem me sentir presente, confusa tento a todo instante encontrar um momento de harmonia e de gratidão. Em vão. Tudo o que há são esses inconstantes pensamentos, essa dificuldade em encontrar respostas, em lidar com as outras sereias, em controlar meus poderes, em cuidar da segurança. E agora isso; como ficará nosso reino? Evidente que Petrus cuidará de tudo até que a Rainha seja resgatada. Uma parte de mim diz que talvez ela não devesse voltar, outra me lembra da fidelidade a ela, que deve ser acima de tudo. 

Humanos. Jafar. Tinha sido essa palavra que ele usara para se denominar, mas eu teimava em não aceitar. Ele parecia tão calmo e bom! Como seria capaz que sua espécie tomasse para si nossa Rainha? Mas na verdade, não é assim conosco também? Somos todas sereias, pertencentes à mesma espécie, mas no entanto tão diferentes em qualidades, defeitos e manias. Além de tudo, temos as Castas, que nos separam mas nos dão uma razão para acordar. 

Petrus havia olhado para mim, entre as milhares de sereias suas filhas, ele olhou para mim. Nossa relação não podia ser menos contactual do que já é. Por sermos muitas; por nascermos sempre a cada Cerimônia da Frutificação, Petrus nos lidera como a figura do comandante que ele o é. Sem muitas palavras e nem um mísero sorriso de aprovação; somos jogadas de um lado a outro desde que nascemos. Primeiro a Itiquira, até que fiquemos maiores e com as mínimas condições de lutar. Depois a escola e a arena, novamente sem que Petrus apareça muito. Por fim as Expedições e só então, o contato com nosso pai. Apenas Nik parece elevar Petrus a um cargo mais alto do que nossa própria Rainha; sempre o chamando por "papai" ou "pai" ao que ele parece não se importar. Ao menos atualmente; pois na primeira vez que Nik o chamou assim seu rosto endureceu mais que o comum, ficando a um passo de um berro estridente sobre "respeito". Mas se ele pensou em articular algum som, este ficou preso na garganta, enquanto ele pareceu ponderar a situação por alguns longos segundos. Quando chegou a uma conclusão, deu um sorriso raro e seguiu seu caminho, não tinha mais tempo para perder conosco. Nik, ao contrário, sorria tanto que é como se seus dentes fossem saltar para fora da boca. Satisfação, talvez seja essa a palavra que a definia naquele momento.

Com o peso daquele olhar não esperei a explicação que se seguiria e nadei veloz até o Casarão; aproveitaria o silencio atípico para pensar. 

Durante todo esse tempo fui ensinada a proteger meu Reino, sempre me perguntei de quais perigos eu deveria protegê-lo, e tudo o que recebia era um olhar duro de alguma professora da Casta 1. Mas como me sinto ao saber agora que os perigos se resumem aos humanos? Há pouco eu nunca sonharia que eles sequer poderiam existir, e agora tudo faz sentido. A Casta 1 sempre soube, disso tenho certeza, Nik curiosa como é, costuma me contar algumas coisas diferentes que ela encontra no Castelo sempre que vai escondida.  Antigamente, suas visitas sorrateiras a este mundo eram mera curiosidade, com o tempo suas visitas começaram a ser mais e mais frequentes, o que me faz duvidar sobre suas reais motivações para ir até lá e correr todo o risco. Recentemente ela me contou que as sereias usavam equipamentos de projeção sofisticados que eram diferente de tudo que a nossa magia costuma criar. Ela costuma me dizer que a Casta 1 sabe mais do que dão a entender, e isso me faz refletir, será que elas também sabem dos humanos? Evidente que sim, afinal eles cuidam de toda a política da nossa Sociedade, claro que teriam de manter contato com este novo povo. Foram esses pensamentos que me motivaram a entrar no Castelo; o território sagrado da Casta 1, agora completamente silencioso.

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