Ícaro e a Ameaça Invisível

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Meus dias passaram a ser um suplício, repletos de sustos, palpitações, olhos arregalados e horrores indizíveis brotando em minha mente. A cada cadeira arrastada, eu imaginava um terrível demônio levantando-se e caminhando em minha direção. Por trás do movimento das cortinas em noites sem vento, fantasiava hordas de mortos-vivos arrastando-se sorrateiramente, preparando um terrível ataque. Bruxas, lobisomens, vampiros, criaturas grotescas de fossos infernais. Cada objeto em movimento, cada ruído na escuridão, cada toque repentino no meu corpo franzino, traziam consigo a dúvida de qual ser das trevas estaria por trás de tal ato.

Na inquietude da adolescência, passei de vítima aterrorizada a questionador implacável. Ainda pateticamente crédulo, busquei respostas nos mais diferentes recantos das religiões, do ocultismo, das crenças populares e das superstições em geral. Perdi a conta dos rituais dos quais participei, das longas horas perdidas em leituras de livros arcaicos e proibidos, das intermináveis consultas a especialistas da luz e da escuridão, cada um deles me lançando em caminhos distintos, tortuosos e infrutíferos. Se antes eu era uma pessoa de trato pouco cortês, agora apresentava-me como um sujeito realmente detestável, descrente da bondade no mundo.

Quando iniciei minha vida acadêmica, era tido como um excêntrico sem amigos, com interesses em assuntos que as pessoas normais evitavam. Um amalucado que se isolava do mundo e acometia feito bicho contra quem ousasse algum tipo de aproximação. A única brecha nessa muralha de rancor surgiu quando um professor da faculdade de psicologia na qual ingressei ofereceu uma resposta convincente. Ele tomou conhecimento de parte da minha história através de meu primo de segundo grau que era seu aluno. Após algumas conversas esquivas fora do horário de aula, a respeito do oceano sem fim da psique humana, descobri que o professor era um respeitado parapsicólogo. Expus maiores detalhes do meu problema e, voluntariamente, permiti que ele me examinasse. A conclusão desses estudos minuciosos remeteu a uma palavra inexistente até então no meu vocabulário: telecinese. Para uma pessoa atormentada pelas incertezas, foi fácil abraçar a nova hipótese para a origem da angústia, eterna companheira da minha existência.

Paranormalidade. Nunca havia cogitado uma resposta que não fosse um agente externo, e acreditei nesse momento que era eu mesmo o causador de tudo aquilo. Imediatamente, iniciei um exaustivo trabalho junto ao professor e a uma equipe de parapsicólogos indicados por ele. Tornei-me seu principal objeto de pesquisas, e o pleno controle de minhas qualidades telecinéticas passou a ser a prioridade na minha vida. Ansioso e pressionado, não consegui evoluir um milímetro sequer na jornada rumo ao controle de meus poderes. Passei por diversos especialistas e equipes, mas nada deu resultado. Os anos foram passando e o desânimo passou a estar cada vez mais presente na minha vida. Especialistas chegaram a cogitar que os gatilhos de comandos telecinéticos que eu gerava eram originados no meu subconsciente, independentemente da minha vontade. Sentindo-me um derrotado, desgostoso por não conseguir resultados, mesmo havendo descoberto a fonte de meus problemas, abandonei os estudos e as experiências. Mais um item para minha lista quase interminável de tentativas fracassadas de entender o que se passava comigo.

Voltei para a casa de meus pais e sobre eles despejei todas as minhas frustrações. Ofensas à minha pobre mãe e ameaças de agressão física ao meu pai passaram a fazer parte do meu dia-a-dia, pontuados por murros nos móveis, chutes nas portas e muita louça quebrada. As coisas fugiram totalmente do controle, e eu já não sabia quanto daquela destruição doméstica tinha origem na minha força física, nos meus malditos poderes paranormais ou em zombeteiros agentes externos.

Em um dia fatídico, após mais uma das discussões desmedidas e altamente ofensivas que eu sempre dava um jeito de iniciar com meus pais, eles saíram apressados com o carro da família, buscando algum lugar onde estivessem livres da fúria do filho mal-agradecido, mesmo que por alguns momentos. Menos de uma hora depois, recebi uma notícia mais devastadora que um ataque paranormal que explodisse o meu crânio: não muito longe dali, meu pai havia perdido o controle da direção do veículo, colidindo violentamente com um poste. O carro pegou fogo e eles não conseguiram sair, presos nas ferragens, e o socorro não veio a tempo. A morte de meus pais havia sido lenta e dolorosa.

Sob esse golpe do destino, uma dúvida passou a me assolar: seria eu o responsável pelo mal funcionamento de um carro que sempre foi impecável, visto que meu pai nutria profundo apreço por ele? Aquele acontecimento foi um tapa na cara dado pela realidade, mostrando-me a ameaça que eu (ou o que quer que me acompanhasse) representava para a sociedade. Rememorei diversos pequenos incidentes que aconteceram ao meu redor, durante toda a minha existência, começando a sentir o peso da culpa por eles e acreditando que eu era o catalisador de todas as desgraças que me cercavam. Eu já não tinha mais algo a perder ou ao que me apegar, facilitando minha decisão: iria me isolar do mundo. Com a roupa do corpo, saí caminhando inconscientemente, sem cogitar comparecer ao funeral de meus pobres pais. O portão escancarado da casa foi a última visão do passado que deixava para trás.

Perambulando a esmo pela cidade cinzenta, poluição e tristeza a lacrimejar meus olhos e fazer doer o peito, analisei a atroz ironia de minha situação. Sentia saudades da época em que acreditava em fantasmas, quando a ameaça era externa e os culpados eram os outros, afinal ainda havia a tentativa de correr, de virar a cabeça para o outro lado, de tentar ignorar os visitantes indesejados. Até a explicação da telecinese seria bem aceita, mesmo não havendo neste caso outro a culpar nem de quem fugir, visto que a origem do mal estava dentro de mim. Agora, porém, só restava a incerteza a me lançar nas trevas da ignorância, no inferno da impotência. O problema era tão grande que já não cabia em mim.

Sem me dar conta, caminhei por horas em meio à megalópole decadente, vindo parar no interior de uma das milhares de obras ciclópicas, esta quase concluída, na qual nem sei como entrei. Olhando ao redor na construção ampla e sem acabamento, onde com certeza um vigia descuidado cometia algum tipo de infração, a solidão me golpeou bem na boca do estômago, fazendo-me querer vomitar todas as frustrações de uma vida inteira. Decidi exaurir minhas pernas, na esperança de também fazê-lo com minha mente, continuando a andar, vencendo cada degrau, pé ante pé, até não haver mais lances de escada cobertos de poeira e sofrimento. De pé, a trinta andares de altura, encarei o pôr-do-sol da fria cidade sobre um beiral sem segurança alguma. De braços e olhos abertos, finalmente despido de angústia, sofrimento e revolta, decidi saltar. Não por estar cansado desta existência tumultuada, nem tomado por cega insanidade. Era movido apenas pela dúvida.

As pessoas dizem que quando se está perto da morte, a vida inteira passa diante de seus olhos. Meu relato confirma essa teoria. Todo este depoimento durou apenas uma fração de segundo, desde o início de meu irreversível voo livre. Pouco mais que isso me separa do concreto rude e impessoal que me aguarda lá embaixo, e então terei a curiosidade saciada: me tornarei um fantasma, como os que me assombraram na primeira metade da minha vida, ou serei salvo pela paranormalidade que se revelou tardiamente na segunda metade? Finalmente, uma resposta imediata a um questionamento que eu tenha feito. Pela primeira vez na vida, sinto-me realmente livre...

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