Capítulo XXVII

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Eu ainda processava as informações das últimas horas. Estava muito feliz, apesar de tudo o que aconteceu e tudo o que Alec fez quando era Alexander Trollinger. Não valia a pena guardar mágoa de suas atitudes. Elas foram hostis, sem caráter, porém, já havíamos sofrido demais. Ficamos longe um do outro durante muitos anos. Eu queria recuperar o tempo que perdemos, ser feliz ao lado daquele que tanto amava. A felicidade era tão grande que quase não cabia em mim. Agradecia a Deus mentalmente. Seus planos foram incompreensíveis, parte deles ainda eram, porém, o que importava era que meu Senhor trouxe meu amor de volta para mim, para fazer-me feliz.
Depois de conversarmos sobre todos os ocorridos ao longo de nove anos, caminhamos até o local onde Alec mandou deixarem a carruagem. Não iríamoz contar nada a ninguém, ainda. Orava a Deus para que se, realmente, tivessem sido meus pais, que Alec perdoásse-os. Não seria fácil, no entanto, o perdão era o melhor caminho a ser seguido.

— Presumo que agora você queira ter os nossos doze filhos. — ele comentou, com um grande sorriso no rosto.

— Eu disse que seriam apenas dois: Pedro e Valentina. — ri.

— Ah, sim. Não irei contrariá-la, minha rainha.

— É bom mesmo. — exibi um sorriso convencido.

— Você não tem ideia do quanto senti falta desse sorriso. — ele afagava meus cabelos delicadamente, já estávamos na carruagem, a caminho de Valência. — Perdão por arrancar tantas lágrimas de você. Eu prometo dar tudo de mim, para nunca mais vê-la chorar. — seu olhar encontrou o meu.

— Vamos esquecer o que nos machucou e focar no amor que irá nos curar, meu amor.

Escorei minha cabeça em seu ombro. Como estava frio, ele tirou seu casaco e colocou sobre mim.

— Pode descansar, chegaremos em Valência apenas no amanhecer.

— Amanhã terá que passar o dia comigo, nada de negócios do reino ou reuniões. Deixe papai, tio Edmundo e Claus cuidarem disso. Pode ser?

— Tudo o que você quiser. Valência é sua casa. Uma bela casa, por sinal.

— É a nossa casa, meu rei.

Com certeza, se dissesse a alguém que perdoei Alec após o que ele fez comigo, chamariam-me de louca, até mesmo, masoquista. Não confunda nossa história com o caso em que mulheres apanham diariamente, elas sim, merecem denunciar e não sofrer na mão de homens sem coração. Entretanto, minha história era diferente. Eu havia sentido dor? Sim. Mas eu lembrei de um alguém que passou pelas piores dores que um ser humano poderia enfrentar nesta terra, tanto emocionais quanto físicas. E esse alguém ainda teve a capacidade de dizer: "Pai, perdoa, porque eles não sabem o que fazem".

— Luna... — ouvi a voz de Alec e sorri, embora meus olhos ainda estivessem fechados. — Chegamos.

Encarei o homem mais lindo do mundo e alarguei o sorriso em minha face. Ele também exibiu o seu típico, belo e reconfortante sorriso.

— Bom dia. — sussurrei.

— Bom dia. — beijou minha testa. — Vamos deixar essa carruagem, minhas costas estão doendo. — Alec fez uma careta muito fofa e beijou-me, rapidamente.

— Já está ficando velho. — ri.

— O que foi que disse, senhora Trollinger? — questionou com um sorriso brincalhão, fazendo-me cócegas. Ele parou assim que uma careta formou-se em meu rosto. Minha barriga estava dolorida. — Perdão. — seus olhos ficaram marejados e ele ajoelhou-se diante de mim, no chão da carruagem. — Eu, Alexander Trollinger ou Alec, prometo nunca mais machucar a mulher da minha vida, a mãe dos meus filhos. Quero só te arrancar sorrisos, minha Lua. — enxuguei a lágrima que rolou do seu rosto.

Delicamente, Alec abraçou minha cintura. Ficamos alguns instantes assim e depois, saímos da carruagem. Os guardas abriram as portas do palácio e informaram-nos que todos estavam tomando café. Eram nove horas da manhã.

— Bom dia. — Alec cumprimentou a todos, seriamente.

Mamãe olhou-me de cima a baixo, provavelmente, notou que a barra do meu vestido estava bem suja, assim como o vestido em si. Afinal, passamos à noite em uma cabana velha de madeira. Tentava esconder minha imensa felicidade, contê-la era extremamente difícil.

— O que aconteceu? Vocês estão todos sujos. — mamãe correu para abraçar-me.

— Fomos alvo de saqueadores.

— Como foi isso, Alexander? — papai perguntou, aparentemente, preocupado.

— Estávamos perto do palácio, quando um grande grupo de saqueadores rendeu-nos. Graças a Deus, Luna e eu escapamos, nos escondemos e depois encontramos o resto dos guardas. Resolvi poupá-la e também, depois de muito pensar, decidi que não quero um acordo com Kevin.

— Machucaram vocês? — tio Edmundo pronunciou-se.

— Não, graças a Deus. — balancei a cabeça.

— Que bom. Não poderia perder minha irmã, ainda mais agora. — Ravena foi até mim e abraçou-me.

— Onde está Claus?

— Ele disse que iria cavalgar. — Ravena respondeu Alexander. Observei meus pais, que se entre olharam. — Eu ouvi os empregados comentarem. — reformulou, nervosa.

— Comam! Devem estar famintos. — minha mãe insistiu.

Assentamo-nos, orei por meu alimento e começamos a comer. Realmente, estava faminta.

— Por favor, prepare meu banho. — pedi a uma das amas, que assentiu.

— Prepare o meu também, pode ser no antigo quarto de Luna. Estou precisando. — ele brincou, como "Alexander Trollinger" brincaria.

— Presumo que irão descansar, ao longo do dia.

— Estou exausta pai, caminhamos pelo bosque por um bom tempo. — suspirei pesadamente.

Após o café, tomei um banho longo e relaxante. Vesti roupas confortáveis e comecei a pentear meus cabelos, depois de secá-los com a toalha.

— Eu tenho o privilégio de ser casado com a mulher mais linda do mundo.

Foi inevitável não sorrir, ao fitar Alec. O sorriso que estava em seu rosto era capaz de iluminar meu mundo. Terminei de me pentear e encarei-o. Aos poucos, ele aproximou-se, puxando-me para si com delicadeza. Seus lábios tocaram os meus iniciando uma valsa lenta. O beijo intensificou-se e então, naquele dia, consumamos nosso casamento e o nosso amor.

— Vai ser difícil agir com você da mesma forma que agia antes, na frente das pessoas. — murmurei com a cabeça escorada em seu peito nu. Já havia anoitecido.

— Por enquanto, é preciso, minha Lua. Sei que será difícil, mas se quem tentou nos separar está neste palácio, poderá tentar novamente, caso souber que eu sou o seu Alec

— Disse bem: meu Alec. — contornei cada traço do seu rosto com meus dedos.

— E você é a minha Lua.

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"É feliz quem segue, fielmente, nos caminhos santos do Senhor. Na tribulação é paciente, esperando no seu Salvador."
Harpa Cristã, 126

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