Capítulo 15 - Casamento

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   Minha mente fervilhava como a lava nas entranhas do próprio Etna, e dentro de minha cabeça Hefesto batia seu malho faiscante sem pausa, engendrando planos e criando situações. A consciência de que eu seria o responsável pelas vidas daqueles homens, não se esquecendo de que se eles morressem Esparta pagaria um preço caro, me preocupava tanto que em meu rosto moravam inúmeras rugas de preocupação. O próprio Ziliáris, olhando-me sentado à beira de um cercado de cabras, me disse que não sabia quem tinha mais linhas na pele: meu rosto ou o saco escrotal de Cronos, o Titã do Tempo.

   A questão era que, se Pátras nos subjugasse naquela guerra, aliada à grande Élis, uma chama de ousadia poderia surgir no coração dos Helenos do norte e eles não hesitariam em nos desafiar. No pior dos casos, que não era raro de acontecer, alianças poderiam surgir e marchar contra Esparta. Como Cleômenes era irresponsável! Era um Rei menino! Mas ali, junto àquelas cabras, olhando a cidade sendo enfeitada por toda parte com guirlandas, coroas, aromas, cores e sabores, eu não poderia estragar a alegria de Agnéio. Meu irmão de falange se casaria, e eu estava feliz por ele.

   Agnéio ainda não possuía idade suficiente para se casar, mas ele havia mandado às favas todos aqueles que lhe perguntavam a idade; isso quando não retirava seu membro por debaixo do Quíton, a túnica Espartana, e pedia para a pessoa contar sua idade através das veias de seu órgão longo e volumoso. Meu irmão passou a manhã sendo lavado e massageado com óleo, pois o dia seria marcado por jogos e rituais próprios de Esparta, que requereriam perfeição de movimentos e vigor.

   Zési não era Espartana, mas um cidadão nascido e criado em Esparta poderia se casar com uma mulher de outra cidade, se seus pais assim permitissem. Os pais de Agnéio eram velhos e sábios, e se preocupavam muito mais com a felicidade do filho do que com as leis de Licurgo. Desta maneira, Zési havia sido banhada e preparada pelas mulheres dos generais da cidade. Ela se mostrou de uma beleza crua como as próprias Espartanas. Vestia um tecido delicado de linho que, ajudado pelo frio, marcava a entumecência de seus mamilos salientes. Uma bela gargantilha dourada se abraçava a seu pescoço, as sandálias, feitas pela própria futura sogra, mãe de Agnéio, possuíam tiras de couro pintadas de branco; alvas como o vestido da noiva. A maior particularidade era seu cabelo, pois lhe cortaram a cabeleira dando início aos rituais do casamento.

   Em Esparta havia um longo ritual para unir duas vidas, já que elas compartilhariam todas as coisas abaixo do céu e sobre a terra, até o inevitável dia em que a morte os alcançaria.

   Os ritos começaram pela manhã, enquanto as mulheres aprontavam Zési em um banho aromático que entorpecia os sentidos. Neste mesmo banho as esposas dos generais cortavam os cabelos da futura esposa, deixando-os na altura das orelhas. Em seguida vestiam-na da maneira mais simples possível, no entanto, preservando uma beleza quase única, como era de praxe das mulheres da cidade. Então levaram-na para um aposento de paredes de pedra, tal qual um templo, e ali a vestiram de soldado, com grevas, peitoral e elmo. Na porta do aposento foram postados dois homens que deveriam defender a honra da mulher, seguindo o costume. Estes homens geralmente eram parentes, mas como Zési era da Argólida o próprio Agnéio escolheu os guardiões. Agnéio deveria lutar com os homens da porta para liberar sua esposa. A luta era simbólica, não poderia conter armas, e era travada em meio a risos e provocações, pois era assistida por muitos convidados e cidadãos da Pólis. O noivo só conquistaria o direito de raptar a mulher da sala se derrubasse ambos os guardas, deitando-os com as costas no chão. Desse modo, sabendo que se escolhesse Hymos, o Campeão, ficaria solteiro para o resto da vida, Agnéio escolheu Plístia e eu para a luta. Eu poderia dizer o quanto Ziliáris reclamou por ter sido deixado de fora do jogo da porta, mas seria uma repetição de queixas intermináveis.

   Ao final da cerimônia da porta, após Agnéio nos derrubar, homens e mulheres foram divididos em dois grupos de acordo com seus sexos. Dava-se início então a Cerimônia dos Bolos. As mulheres deveriam se sentar em um bosque, ao lado de água corrente, onde os escravos Hilotas já haviam forrado o solo com tapetes de pele, e ali assistirem a noiva receber um bolo em formato de seio que era preparado pelas mulheres dos Esparcíatas. Os risos delas, ao verem o bolo em formato de seio, podiam ser ouvidos do outro lado do bosque, onde acontecia a nossa parte da cerimônia, a festa dos homens.

Paráxeni - A Ruína dos Persas. (Por Marco Febrini.)Leia esta história GRATUITAMENTE!