Prólogo

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"Isto não é o fim. Não é sequer o princípio do fim. Mas é, talvez, o princípio do fim."
Winston Churchill

Se prestasse atenção dava para ouvir o zumbido das ondas sonoras chocando-se contra o vidro esverdeado. Na rua, fria e coberta por uma camada espessa de neve, ouvia-se um som abafado e vozes altas; todo o resto estava fechado, apenas o bar, localizado em uma esquina, funcionava madrugada adentro. Passando pela porta de madeira de lei, percorrendo o amplo ambiente revestido de painéis escuros e abarrotado de bandeiras, insígnias e brasões de times irlandeses, encontrava-se uma — quase — imperceptível porta. Atrás dela jazia a escada que descia ao porão.

O som era abafado, mas mesmo assim era possível ouvir as batidas de uma música pop qualquer. A batida fazia com que o coração dela ficasse acelerado, como se batesse exatamente no mesmo ritmo e, a julgar pela situação em que se encontrava, não era nada agradável. Parecia que ia saltar pela garganta.

No centro de um tapete cheio de detalhes em carmim e dourado, encontrava-se uma confortável cadeira e uma belíssima dama, cujas mãos estavam atadas. Ela mantinha a cabeça baixa, seu peito subia e descia rapidamente e sua respiração estava acelerada. Um filete de sangue escorria através de um corte numa de suas têmporas, descendo pela lateral da cabeça, contrastando com a tez clara e manchando o cabelo louro; o sangue insistia em descer pelo pescoço, escorrendo pelo colo deixando um rastro carmim. Uma marca roxa formava-se em torno de seus pulsos apertados por uma corda branca.

Do canto do lugar, um homem levantou-se de sua cadeira giratória e parou de braços cruzados, observando cada mínimo movimento de seu corpo. Visualizou uma gota de suor descer por entre os seios, o canto dos lábios manchado de sangue e a calça jeans respingada de gotas vermelhas. Ele a olhou com admiração, embora estivesse profundamente decepcionado; se olhasse bem lá no fundo, atrás de toda a frieza que adquirira através do tempo, podia sentir a tristeza por ter que fazer o que era necessário. Ainda sim, a admirava.

— Mick. Brown. — Fez um aceno com a cabeça e indicou uma segunda porta.

Mick e Brown eram os comparsas. Tinham idades diferentes, mas eram experientes naquela arte mortal. Mick era o mais jovem. Tinha lá seus trinta anos, talvez um pouco mais; seu biótipo era alto e bem definido; os cabelos castanhos cacheados emaravam-se sob um boné e seus olhos igualmente escuros conferia-lhe um olhar misterioso. Brown, ao contrário do parceiro, tinha um semblante severo e rugas que se acumulavam no canto dos olhos e do cenho franzido. Os anos em uma profissão nem um pouco grata podiam ser vistos através dos cabelos grisalhos e de uma cicatriz escondida entre os fios de cabelo.

Os dois comparsas aproximaram-se da mulher e pegaram-na, meio sem jeito, fazendo-a caminhar de maneira desajeitada. Nenhum dos clientes do bar reparou na cena, e, se por acaso alguém tivesse mesmo visto alguma coisa, teria permanecido em silêncio. Quando ela foi arrastada para fora do bar, seu corpo arrepiou-se por inteiro, pois não estava vestida adequadamente para o frio. Entretanto, não deixou de reparar que suas botas e o sangue que escorria deixavam marcas na neve.

Sem qualquer cerimônia, a moça fora arremessada de encontro a um amontoado de neve no chão. Ela usou os braços para se tentar proteger a cabeça ferida, mas mesmo assim ficara desnorteada com o baque. Quando se virou, o terceiro homem encarou-a.

— Me esperem no bar. — Pediu ele aos comparsas que, imediatamente, assentiram e deram as costas.

Ele encarou-a mais uma vez. Mesmo ali, jogada em um beco qualquer depois de tudo o que ela havia feito, ela ainda o fazia se sentir como há muitos anos atrás. Seu coração pesava por saber da verdade.

— Eu poderia esperar qualquer coisa. — Murmurou ele. — Eu estava pronto para ajuda-la. Mas...

— Me deixe explicar. — Suplicou num fio de voz.

— Não consigo acreditar que fui enganado durante anos! — Ele dizia exaltado, com os punhos fechados para tentar evitar que de fato começasse a gritar.

— Eu preciso que você me escute, que me entenda! — Ela pedia desesperada.

— Entender que você é uma policial? — Franziu o cenho. — Durante todo este tempo você era uma tira e não me contou? Como quer que eu entenda?

— Por favor. Deixe...

— O que foi real? — Perguntou ele. — Quer saber, não me diga. Não preciso saber. Não mais.

Ele abaixou-se em frente a ela e, para surpresa da moça, abraçou-a. Havia carinho, tristeza e decepção naquele abraço. Ele não ficou nem um pouco surpreso ao sentir os braços dela ao redor dele, também não quis se separar.

— Eu gostaria que não tivesse aparecido.

— Jamais iria prejudica-lo.

— Vindo de uma tira, parece-me com um elogio. — Comentou num tom casual. Ele maneou a cabeça e tirou a arma da cintura. Não hesitou ao destravá-la e mirar para a moça. Manteve o dedo sobre o gatilho.

— Não faça isso. — Implorou ela. — Eu posso provar. — Sussurrou ela ao pé do ouvido dele, ainda com o rosto enfiado no vão do pescoço, inalando o perfume cítrico. — Daremos um jeito em tudo, posso consertar isso.

— É tudo o que eu não imaginava. — A voz dele soou amarga.

— É algo grande, muito grande! — Dizia desesperada. — Por favor!

— Não tenho nada a ver com isso.

— Não, não tem. Sei disso agora, mas está em perigo! Por favor! — Ela beijou-o. Levou as mãos ao rosto dele e beijou-o como se fosse à última vez que fosse vê-lo em toda sua vida. Como se dissesse adeus. — Sinto muito.

Quando se separou dele, ergueu um dos joelhos e, com toda a força que podia, levou-o em direção ao estômago. Uma, duas, três vezes e ele estava no chão, arfando, entretanto isso não o impediu de disparar a arma três vezes na direção em que ela corria. Ao levantar-se, viu o ricochetear dois primeiros tiros, e quando disparou o terceiro a viu cambalear e cair no meio da rua.

Ele levantou com dificuldade, aproximou-se delae admirou-a. Admirou sua beleza, a força e o caráter; tinha que admitir,admirou sua coragem e desenvoltura por enganá-lo por tanto tempo. Seus olhosencontraram os dela, fixos em algum lugar além, onde ele jamais poderiaencontra-la. Olhou ao redor e viu a poça de sangue formando-se sob o corpo eacumulando em um punhado de neve. Sentiu o último suspiro dela como se fosse seu, então, deu alguns passos para trás ainda com a arma em mãos,e virou-se para observá-la pela última vez.

Amanhecer ViolentoRead this story for FREE!