Capítulo 14 - Lábios de Pedra

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   Os Éforos disseram que os preparativos para a partida levariam três dias, e que haveria um festival no último dia de espera, honrando a memória de Hércules e pedindo forças ao filho de Zeus. Meus homens foram até suas casas para se despedirem de suas famílias, e eu vaguei por Esparta. Sentia-me só de uma maneira quase desesperadora. Mesmo no brutal Agogê, onde estive abandonado em terras bárbaras, não me sentia tão estranho como naquele dia. Era como se eu fosse um menino novamente, e houvesse chegado de Creta naquela mesma manhã.

   Fiquei sabendo por uma mulher que vendia flores em um dos pátios, que um novo Oráculo havia chegado ao templo de Apolo, e fui ter com o vidente. Eu desejava saber a conclusão daquela guerra, que seria a minha primeira.

   O Templo de Apolo era esplêndido, e me lembro até hoje que Agnéio era devoto inabalável do Deus do sol. Colunas subiam do chão de mármore, pintadas de amarelo e dourado, e se encontravam com as vigas e telhas do teto, que também tinham a cor do ouro. Ver toda aquela riqueza me fez lembrar do motivo da guerra para onde iríamos em três dias. Ouro. O metal mais apreciado pelos homens. O amontoado de pedras e ouro não era como o templo de Delfos, famoso desde o início do mundo, mas agradava os olhos daqueles que passavam pela rua. Na entrada do santuário havia um sacerdote sorridente, vestido com uma túnica vermelha, que segurava um longo tecido amarelo no braço direito. Ele me cumprimentou com um abraço e um beijo na boca, rápido e seco, como era de costume dos sacerdotes de Apolo.

   O Deus da poesia havia se apaixonado por um jovem chamado Jacinto, o qual ele amara perdidamente. Mas Zéfiro, o Vento Oeste, pregou-lhe uma peça e fez com que Apolo assassinasse seu amante. Desde então, os sacerdotes e as sacerdotisas dos templos beijavam os visitantes homens, fazendo um tributo à memória de Jacinto. Quando eu entrei no santuário vi muitas flores pelos cantos. Eram jacintos, que Apolo havia nomeado em honra de seu amor. Não eram reais, todavia, pois o inverno havia caído sobre a Grécia e os jacintos só apareciam na primavera. Eram feitas de favos de mel, simulando perfeitamente uma flor, mesmo nas cores, e tudo isso para satisfazer o dono da Carruagem Solar também durante o frio.

   Logo após a entrada havia uma bela mulher, nua como veio ao mundo, que tocava sua lira de prata com leveza, de uma forma sedutora e ao mesmo tempo tranquila. Ela também me saudou com um beijo na boca, dando-me boas vindas e me desejando bons presságios. Assim que meus olhos se acostumaram à fraca luz das velas, que iluminavam o interior da grande estrutura, vi o novo Oráculo. Era um jovem, não mais do que uma criança. Me aproximei e sentei-me no solo, olhando para o garoto que estava deitado na pedra de sacrifício. Achei aquele local estranho para se deitar, mas o jovem estava em transe profundo, e em um templo os Oráculos podem fazer o que desejam, ao passo que todas as suas ações são guiadas pelos Deuses. Por um longo tempo o menino não se manifestou, de olhar pregado no teto e balançando os braços na frente do próprio rosto. Foi impossível não lembrar das palavras de Lanthasménos: "Seu nome será Paráxeni, e ele será a Ruína de Esparta". De uma maneira ou de outra, a profecia dela havia se cumprido, e para comprovar isso bastava olhar ao redor. As palavras de meu amor maldito aconteciam nas novas muralhas da cidade, na ameaça da queda da política da Diarquia, na doença de Leônidas e na perda de autoridade dos generais de guerra da Pólis. Além, é claro, de se provar ainda mais no novo Rei, Cleômenes.

   Por fim decidi ir embora, já que aquela criança ficaria o dia inteiro brincando com as próprias mãos e tentando ver o futuro no teto enfeitado com tecidos amarelados. Mas Apolo não dormia, e ele apenas havia me pregado uma peça, já que, assim que levantei-me e espanei a poeira de minha túnica e dos longos cabelos, o menino me chamou pelo nome. Como se me conhecesse, ou soubesse exatamente como tinha sido minha vida, ele disse: "Não se recinta por aquilo que perdeu, pois durante sua vida você há de perder ainda mais. Se uma árvore chorar toda vez que perder uma folha, ela acabará se tornando um riacho. Aproveite que você não é uma árvore e evite que mais folhas se percam".

Paráxeni - A Ruína dos Persas. (Por Marco Febrini.)Leia esta história GRATUITAMENTE!