Capítulo 8

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— Isso é sério? — Eliza perguntou para seu pai de novo, ainda sem acreditar. Seu café da manhã continuou intocado enquanto ela encarava o jornal, lendo a manchete pela quarta vez.

— Também não consigo acreditar — disse seu pai com a voz cansada, comendo um pedaço de torrada. Ele esfregou os olhos e piscou algumas vezes. — Meu telefone tá tocado sem parar a manhã toda. Fábio diz que o departamento está lotado. Nunca viu tantos repórteres. Ele disse que estão entrevistando todo mundo. Tão querendo até falar comigo.

A garota abriu o jornal tão rápido que quase o rasgou. Seus olhos conferiram a manchete e a foto de novo antes de irem para o artigo. Chefe de Polícia suspeito de corrupção. Só isso a deixava ardendo de raiva por dentro, mas o que vinha abaixo daquilo quase a fez rasgar o jornal.

O Chefe de Polícia, Djalma dos Santos Silva, é suspeito de aceitar propina para liderar a investigação sobre o prefeito e o conselho municipal e tirar o foco de si próprio. Um informante anônimo informou que as investigações ignoraram qualquer pista que pudesse levar à profunda corrupção dentro do próprio departamento de polícia...

É mentira! Ela tremeu tanto que teve dificuldade para ler o resto. É uma puta de uma mentira! Eliza desistiu e devolveu o jornal ao pai; ela não precisava ler o resto para saber que a deixaria furiosa. Não tem como ele aceitar propina. Aquele prefeito... Eliza lembrou-se dele na festa. Bianca disse que era uma festa de propina... Pensei que ela tava brincando... Bianca...

Com o estômago revirando, a garota correu até o quarto e agarrou seu celular. Assim que escutou o som de chamada, ela virou na direção da casa da Ruiva. Eliza descansou a cabeça na parede e focou os olhos, mas não aconteceu nada. Respirando fundo, ela olhou para a parede. Dessa vez, ela ficou transparente, mas não importa o quanto tentasse usar seus poderes, ela não podia ver mais do que alguns metros adiante.

Não tem como eu me focar agora, percebeu Eliza, estalando a língua. Tudo que conseguia pensar era Bianca e sua família. Vamos lá, atenda... vai, Vermelha, atende... Mas só escutou o som da chamada ecoando.

Ela encerrou a ligação e tentou de novo. Vamos, Bianca, quero ouvir a sua voz... Eliza nunca pensou que odiaria o som da chamada tanto assim.

— Bianca! — gritou ela quando sua namorada finalmente atendeu.

— Oi, Eliza. Bom dia — respondeu Bianca. Embora falasse com a voz normal, Eliza sabia que era forçado. Será que ela conseguiu dormir? — Por mais que eu adore começar o dia escutando a sua voz, não, pera. Esquece isso. É o melhor jeito de começar o dia. Mas sei que você sabe que não sou uma pessoa que acorda cedo.

— É, eu sei muito bem. E também sei várias outras coisas sobre você. Tipo, que você ronca. Bastante — brincou Eliza para melhorar o clima, com um pequeno sorriso fraco.

— Já disse e repito que não sou eu. Talvez suas orelhas tenham evoluído junto com os olhos, por isso fica escutando outra pessoa roncar — respondeu Bianca com seu tom brincalhão de sempre. Eliza podia imaginar a ruiva fazendo cara emburrada, mas sabia que Bianca não estava se divertindo como de costume.

— Isso não faz sentido. De acordo com todos aqueles filmes que você me forçou a ver, só dá pra melhorar os outros sentidos quando você perde um.

— Verdade — disse ela, as duas riram. Logo, pararam e o silêncio reinou. — Creio que tenha visto as notícias?

— Sim — disse Eliza, mas adicionou. — Eu sei que não é verdade! Seu pai nunca faria algo assim!

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