Parte 4

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Estávamos só eu e meu professor na sala de aula. Ele me dizia como os guerreiros das tribos devoravam os cérebros dos seus anciões quando estes estavam próximos da morte, uma maneira de tomar todo o seu conhecimento. Entendi como se ele estivesse me ensinando o seu segredo. De repente, olhei para ele como se tivesse entendido e agradeci.

– Era tudo o que eu precisava saber, velho maldito – disse enquanto o empurrava.

Não pensei duas vezes. Quando me vi, estava com uma faca em mãos e meu professor agonizava. Perfurei o seu peito com tanta força, que ele não tinha outra opção a não ser desistir de lutar pela própria vida. Era tarde demais. Segurei um livro que estava em sua mesa e a página aberta detalhava esse ritual antropofágico. A folha brilhava em minhas mãos, eu sentia que estava cada vez mais perto da minha verdade. O livro e eu estávamos ligados de uma maneira que eu não precisava olhar para a página e já sabia o que teria que fazer em seguida.

Bastava um pequeno pedaço e eu teria toda a sabedoria do meu professor. Peguei um martelo e bati com força o suficiente para rachar o seu crânio, deixando a massa rosada e cinzenta visível. Siga em frente. Com a ajuda da faca, cortei um pouco e coloquei em minha boca. No começo, senti repulsa. Aquela carne, apesar de macia, não tinha um gosto agradável e só de saber o que eu estava comendo, era como se o meu corpo lutasse para botar para fora. Fechei a boca, com medo de que o cérebro escapasse por ela, como um animal vivo e tentei engolir. Que sensação estranha! Por pouco eu não vomitei tudo.

Senti uma energia forte dentro de mim, como se eu estivesse me enchendo de vida novamente. Então, aprendi como o meu professor colocava suas mãos nos livros e sugava suas informações. Tive uma visão de como ele havia feito o mesmo com o seu mestre. Era como uma maldição. As imagens congelaram. Temi não ser tão forte quanto ele. Minha sede pelo poder me fazia continuar devorando aquele cérebro, até não restar um único pedaço. Fiquei rindo, maravilhado com todas as viagens, todos os livros, cursos e sabedoria acumulados por aquele homem. Agora tudo aquilo me pertencia.

Coloquei os óculos dele e segurei os livros que estavam na mesa. Deixei o corpo e o sangue como estavam. Eu era uma nova pessoa. Melhor do que eu esperava. Minha fonte de conhecimento tinha atravessado séculos. Aparentemente aquele ritual era realizado de geração em geração. Assim como o meu professor, uma hora chegaria a minha vez de ser sacrificado, tudo pelo bem da sabedoria universal, daquele poço que não poderia secar, mas eu ainda teria um longo tempo pela frente. E diferente dele que nem mesmo reagiu, quando chegasse a minha vez o maldito aprendiz teria que lutar.

Saí da sala de aula, caminhando com naturalidade, como se nada houvesse acontecido. Quando os outros alunos entraram lá, eu já estava longe, mas consegui ouvi os seus gritos desesperados. Alguém ligue para a polícia.

Fui para casa correndo e aproveitei que minha mãe ainda estava no trabalho. Escrevi um breve bilhete me despedindo dela, agradecendo por tudo e dizendo que eu estava destinado a coisas maiores, coisas que ela jamais entenderia com um cérebro tão limitado. Eu precisava seguir em frente sozinho. Imagine que eu estou morto, será melhor assim, pois já não sou a pessoa que você costumava conhecer, eu dizia na mensagem.

Acordei queimando de febre em um lugar desconhecido. No início pensei que tudo tinha se tratado de um sonho daqueles que são tão reais que você acorda em pânico, até me olhar no espelho e observar a imagem do meu professor sorrindo para mim. Sua essência agora estava em algum lugar dentro de mim.

Coloquei a mão na cabeça e percebi que eu estava sangrando. Joguei água no rosto desesperadamente. Lá estava o meu demônio rindo histericamente, me lembrando de que tudo tinha um preço. Vi o meu próprio reflexo. O monstro não estava dentro de mim, ele era eu mesmo.

Peguei uma caneta e um caderno. Meus braços tremiam. Eu sentia que a qualquer minuto tudo não passaria de uma memória. Escrevi misturado ao suor, as lágrimas e ao sangue enquanto o meu próprio demônio me devorava por dentro. Precisava contar para alguém a minha história. Alucinadamente. 

AlucinadamenteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora