Parte 3

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Acordei no outro dia e minha mãe gritou dizendo que o café da manhã estava pronto. Fui até a cozinha e quando sentei a mesa, percebi que ela estava preocupada com a minha saúde.

– O que aconteceu ontem, meu filho? – suas sobrancelhas se levantaram.

– Não sei. Não consigo me lembrar.

– Já te pedi várias vezes e vou pedir novamente, quero que você pare de ler um pouco. Esses livros ainda vão te deixar louco.

– Bobeira sua. Me deixa em paz!

Comi uma banana para ocupar a minha boca e minha mãe me deixar respirar um pouco. Toda aquela atenção estava me sufocando. Fechei os olhos e tentei me lembrar do que aconteceu na sala de aula e só me lembro de ter desmaiado e acordado em casa. Os meus sonhos continuavam me instigando a descobrir o segredo do meu professor.

Nesta manhã, na sala de aula, o professor me viu e veio conversar comigo.

– Está tudo bem contigo? – o homem cruzou os braços aguardando minha resposta.

– Estou ótimo. Obrigado – respondi com sarcasmo e um sorriso amarelo.

Sentei no meu lugar e fiquei observando os movimentos dele. Eu estava ficando neurótico. Será que eu estava apaixonado por ele? Não é isso o que falam sobre a paixão, sobre se identificar no outro? Sobre projetar seus desejos e se espelhar? Minha atração não tinha nenhuma relação com a sua aparência. Apesar de seus olhos verdes e cabelos encaracolados, o que mais me impressionava era a sua intelectualidade – o maior afrodisíaco de todos os tempos.

Enquanto ele falava sem parar sobre como as pessoas são movidas pelos seus desejos e como o entendimento da psicologia pode ajudar a compreender o comportamento humano, eu me maravilhava com a maneira que ele se lembrava do nome dos pensadores, suas teorias e principais citações. Era algo de outro mundo, como se ele fosse uma enciclopédia. No meio da aula, o homem segurou o livro em uma das mãos e embora ninguém parecesse notar, eu vi como o objeto brilhava. Quando ele lia algum trecho, era como se o seu cérebro tivesse interligado à obra e as palavras escorressem para fora do seu corpo, em um fluxo contínuo, e sua língua fosse um mero instrumento. Fiquei encarando o homem. Desenhei no papel aquela cena. Um livro brilhando e uma criatura sugando suas energias.

Juro que tentei me controlar. Odiava chamar a atenção dos outros. Queria estar sozinho com o professor e colocá-lo na parede. Mas, as vozes, ah, elas falavam, sussurravam, gritavam, não me deixavam pensar. Levantei a mão e alguns alunos olharam para mim. Pergunte a ele o que você quer saber. Não tenha medo. O maldito demônio da curiosidade continuava me cutucando e não pararia até o minuto em que eu conseguisse o que desejava.

– Como você faz para concentrar tantas informações e não se perder?

– O que isto tem a ver com o conteúdo... – ouço um aluno comentando com o outro.

– Estudo e prática – o professor respondeu seco.

– Eu tenho estudado e praticado, mas ando lendo tantos livros que quando parto para a próxima leitura já não me lembro do que li.

– Sua leitura precisa ser de qualidade. Você precisa se concentrar, fazer anotações. Não basta ler por ler. É preciso interagir com o livro, dialogar com o autor, conectar-se com a obra e deixar as ideias fluírem até você. É preciso estimular a mente e a alma.

– Assim como você faz com as suas mãos? Você nos ensina que precisamos ler, mas simplesmente toca um livro e sabe tudo o que está escrito nele. Quanta hipocrisia...

Meu professor me ignorou, como se eu estivesse falando bobeiras. Eu estava sendo tratado como um daqueles alunos que fazem comentários estúpidos em sala de aula, como quem perguntava se a prova precisava ser respondida à caneta ou se ele nos deixaria consultar o material durante a avaliação. Fingi que não me importava, no entanto o meu rosto ardia e percebi como o meu professor me olhava com indiferença, como se eu já não fosse mais o seu aluno queridinho. Talvez eu nunca tivesse sido e tudo não tinha passado de uma ilusão. Já não sabia mais o que era verdade ou mentira. Minha mente estava confusa e por mais que eu tentasse me concentrar na aula, fiquei incomodado com os colegas da sala. Foi só o professor se levantar para tomar água que todos conversaram sem parar. Aquelas vozes estavam me irritando como nunca antes. Imaginei cada um deles morrendo, só então seria possível conversar com o meu próprio interior novamente.

Calem a boca, suas pestes! Ouvi aquela criatura que habitava o meu ser gritar enfurecida. Os ruídos continuaram e eu sentia minha alma se movimentar de um lado para o outro, procurando algum refúgio. Todos tinham algum parceiro ou grupo para conversar e eu estava sozinho, sentado na frente da sala, e mesmo solitário, não conseguia entrar em contato comigo mesmo. Senti as lágrimas descerem queimando os meus olhos. Levantei-me, bati as mãos com forças na mesa e não aguentei me segurar. Calem a boca, suas pestes, ou eu vou matar vocês! Naquele instante me dei conta de que o demônio e eu éramos um só. Não havia outra criatura me guiando, tudo não se passava de uma ilusão que eu criei. Talvez se eu entendesse mais aquele processo, também pudesse dominar a técnica do meu professor.

– O que está acontecendo aqui? – o professor exigiu saber. – Façam silêncio! E você, sente-se agora. Vamos ter uma conversa ao final da aula. – O homem apontou o dedo para mim com autoridade.

Encolhi na minha cadeira, como se fosse uma flor murchando por falta de água e luz. Desta vez minhas bochechas queimavam de vergonha. O que eu estava fazendo? Era como se eu não conseguisse controlar os meus pensamentos e minhas ações. Eu faria todos eles pagarem por aquela humilhação. Ah, se faria... Quem aqueles bastardos pensam que são?

Depois de colocar a sala em ordem novamente, o professor prosseguiu com a sua aula. Minhas mãos tremiam e meus pés estavam inquietos, como se sapateassem sobre o chão. Prometa ser fiel a mim e eu te darei tudo aquilo o que deseja. Meu demônio interior já estava me incomodando com aquelas propostas que nunca surtiam resultados. Questionava-me até que ponto suas promessas eram verdades ou se ele estava tentando me enganar. Tentaria descobrir a minha própria maneira de dominar a técnica do meu professor, sem depender da ajuda de ninguém. As respostas estavam dentro de mim, eu só precisava enxergá-las. Era uma jornada solitária.

Saí do colégio e antes que o professor pudesse me puxar para conversar, fui caminhando para casa. Normalmente eu iria de ônibus, mas estava tão atormentado que poderia matar quem olhasse feio para mim. Eu estava ficando fora de controle.

– Como foi a aula? Passou mal novamente? – minha mãe tentava conversar comigo.

– Foi normal – respondi com rispidez para minha mãe e fui ao meu quarto.

– Garoto estranho... – pude ouvi-la resmungando.

Deitei na cama, fechei os olhos e imaginei a minha alma se separando do meu corpo. Eu precisava obter conhecimentos e algo me dizia que as respostas seriam dadas somente no outro plano. Tentei, tentei novamente, mas nada. Minha mente se recusava a me obedecer. Sentia-me cada vez mais patético. Eu podia ouvir o meu professor, os meus colegas, minha mãe e o meu demônio rindo da minha cara. Coloquei os fones de ouvido e aumentei o volume, tentando calar os meus pensamentos. Senti os meus olhos cansados, as pernas pesadas e adormeci.

AlucinadamenteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora