Parte 2

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Acordei morrendo de sede, no meu quarto. Tentei me lembrar como eu havia chegado lá, mas não tinha ideia. Minha mãe abriu a porta. Você precisa se alimentar melhor. Tire o dia para descansar. Minha audição estava normal novamente. Acenei com a cabeça e quando ela saiu, devorei o sanduíche. Tomei o suco de laranja, porém continuava sentindo minha garganta pedindo por água. Tentei me levantar e me desequilibrei, caindo novamente na cama. Eu estava sem energias.

Você sabe o que precisa fazer. Uma voz sussurrou na minha cabeça. Eu não entendia, até apagar novamente.

Eu estava na minha sala de aula e o professor lia um livro, sentado a sua mesa. Era como se ele não me enxergasse. Foi, então, que decidi observá-lo, desejando desvendar os seus segredos e entender como ele conseguia ser tão inteligente. Com uma caneta em mãos, o homem sublinhava os trechos que achava mais importante, fazia anotações e montava uma estrutura com as principais ideias do texto. Não achei nada de extraordinário em sua atitude. Eu também fazia aquilo.

Olhei para o relógio pendurado na sala de aula. As horas voavam e meu professor continuava lá, lendo um livro atrás do outro. O homem colocava as mãos na capa da obra e descia lentamente, como se estivesse acariciando o objeto. Daquele primeiro contato eu podia ver uma luz branca sendo sugada pelos seus dedos. Vocês devem estar se perguntando como isto é possível ou quem era este mestre. Não saberia responder que técnica era aquela e mesmo se soubesse, não contaria a vocês – minha ambição e meu ego são maiores do que minha vontade de entretê-los. Revelando o nome de um, levaria ao de outro e logo vocês saberiam quem eu realmente sou e como sei tanto sobre a vida e o mundo. Tenho tantos conhecimentos acumulados que eu poderia humilhar aquele coitado, mas se tem uma coisa que eu aprendi era a de que não devemos falar mal de professores nem dos mortos.

Voltando ao que eu estava falando, vi o homem sorrindo ao folhear as páginas daqueles livros rapidamente e as palavras pareciam entrar pela sua pele até a mente. Se eu não tivesse visto com os meus próprios olhos não acreditaria. Desejei aprender como ele fazia, porém não importava quantas vezes eu assistia aquela cena, meu cérebro não absorvia com tanta facilidade, velocidade e densidade o conteúdo dos livros. Você quer o que ele tem. Você sabe o que precisa fazer para conseguir. A voz demoníaca repetia na minha cabeça, entre gargalhadas. Eu queria calar aquela voz. Perguntava-me se estava ficando louco. No fundo eu sabia que ela dizia exatamente o que eu queria ouvir.

Então, me coloquei a pensar em qual seria a melhor maneira de compreender aquele processo. Tentei observar, escutar, imaginar, repetir os seus movimentos, tudo em vão. Sentia-me uma cópia mal feita, um discípulo insolente, uma sombra de quem meu professor era. Quanto mais eu tentava aprender com ele, menos eu sentia que conseguiria alcançar o meu objetivo. Por que eu tinha tanta pressa? Ele não devia ter aprendido da noite ao dia mesmo – ou teria? Não sabia mais o que fazer e uma angústia cresceu dentro de mim.

Se você quer realmente aprender, precisa escutar sua própria voz. Não entendia quem dizia aquelas coisas ou por que, mas resolvi obedecê-lo. Minha inveja era o que me impulsionava a seguir em frente, mas também era o que me consumia. Fiquei obcecado pelo meu professor e seu misterioso método de aprendizado. Não queria ser como ele era, queria ser melhor. Aliás, sempre pensei que os melhores aprendizes existiam para superar seus mestres.

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