Capítulo 13 - Um Fio de Hortelã

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   Antes de partirmos, Cletarco me agradeceu pela decisão, e por eu ter tido paciência com aquela situação tão embaraçosa. Depois me disse que viajaria até Argos, pois um homem ali lhe devia favores. Fiquei triste por deixá-lo partir mais uma vez, mas ele estava decidido e se foi assim que pisamos na estrada.

   Tégea ficou para trás e com ela Lanthasménos, ao menos por um tempo. Meu coração teve de aceitar aquele fato, mas eu nunca esqueci meu amor maldito ou meu filho Dásos. Uma nova etapa de minha vida tinha início, um tempo de homens corruptos e viagens distantes. Como Espartano, eu estava submetido ao estado até meus sessenta anos, e após isso deveria permanecer na Pólis e atender os chamados de guerra emergencial. Ainda na flor da idade, e com uma guerra se aproximando, eu não poderia ter outro destino.

   No caminho para casa muitos Esparcíatas, que compunham a grande falange, desculparam-se pelos escudos erguidos. Mas eu disse que não havia motivo para desculpas, já que eu entendia que eles estavam servindo a Pólis, e não à Cleômenes. Meu gesto fez os homens se afeiçoarem ainda mais a mim, e vários deles me acompanharam durante muitos anos. O próprio Leônidas havia me passado um ensinamento que refletiu naquele momento, quando os homens vieram até mim pedir desculpas. Ele havia dito: "Enquanto líder, seja o primeiro a acordar e o último a se deitar, se enfureça raras vezes e perdoe com a mesma frequência com que pisca os olhos. Desta maneira sempre lutará ao lado de homens com a moral elevada".

   A humildade é uma virtude rara e valiosa, ignorada pelos mortais e invejada pelos Deuses. Elenikeus, que havia me desafiado às margens do rio, era um homem pouco humilde e foi penalizado perdendo sua língua para a ponta de minha lança. Contudo, tratando-se da falta dessa virtude tão importante, Cleômenes era a personificação da soberba. Um homem humilde aceita-se como é, entende que ainda não sabe tudo, e por isso se engrandece acima dos Deuses; assim, por exemplo, era Leônidas, que trocava abraços sinceros até mesmo com os mais doentes. Já um homem que não dispõe de humildade, ignora sua própria essência, ilude-se pensando que conhece tudo o que há para ser sabido, e a única maneira que encontra de se engrandecer é apequenando aqueles que o cercam. Desse modo vivia Cleômenes, que trazia consigo uma loção de óleo e louro para lavar o rosto sempre que era cumprimentado com um beijo.

   A estrada para Esparta estava quieta e abandonada como um templo de Harpócrates, Deus do silêncio e da quietude. Não havia mais pássaros no céu. Os abelharucos, que cantavam tão alegremente, haviam partido com medo do frio. Durante o dia não se via águia nem falcão, e quando o anoitecer caiu os sons das corujas também haviam desaparecido. A própria grama estava sem vida, perdendo o verde e se rendendo a um marrom cansado e triste.

   O inverno havia chegado ao mundo, e Perséfone agora andava pelos salões do Hades.

   Topamos com alguns chacais ao atravessarmos os picos rochosos que circulavam Esparta, e entre as fendas das pedras ouvimos as camurças berrando em alerta, mas eles também sabiam que o frio havia chegado. Um grupo de pequenos animais correu entre alguns arbustos desfolhados, mas Ziliáris já havia se separado do grupo, e voltou trazendo-os em um punhado de porcos-espinhos, que Zési transformou em um ensopado quando a noite caiu mais uma vez. Agnéio não tirava os olhos da mulher, e eles sempre sorriam um para o outro, o que despertava piadas e brincadeiras entre os homens. Todos conheciam a fama do membro de meu amigo, e a ideia de que ele estava apaixonado parecia loucura. Zési o serviu primeiro. Era um ensopado encorpado, com carne e tutano, onde a mulher havia misturado alecrim, gordura de porco, azeitonas ressecadas e mel. Plístia, que devorava tudo como um verdadeiro centauro, esperou todos se servirem e depois comeu direto da panela, de maneira que ninguém pôde repetir a apetitosa refeição. Mas o clima na marcha era descontraído e os homens apostavam, em um jogo de rimas, o quanto Plístia conseguiria consumir do amanhecer até o final da noite.

   A marcha seguiu quando os raios de sol iluminaram a fogueira amanhecida, e, por fim, chegamos à Esparta. Os cinco Éforos nos aguardavam na entrada da cidade, enrolados em mantos, em pé sobre um tapete de peles de lobo. Eu quase não reconheci minha cidade, pois uma grossa e alta muralha estava sendo construída ao seu redor. Esparta sempre tivera muros, mas eram simbólicos, seguindo as leis de Licurgo, que havia criado a constituição Espartana, e limitavam apenas alguns terrenos e plantações. Mas agora Esparta realmente se tornava uma segunda Atenas, com muros grossos e altos, e torres que surgiam de tantos em tantos metros. Tudo aquilo tinha o rastro de Cleômenes. E quando os Éforos me contaram o que tinha acontecido com Leônidas, pensei que as obras do Rei Serpente não se resumiam apenas a pedras e argamassa.

   Em algum lugar do Olimpo, enfurnadas em uma câmara de cristais, existem três velhas fiandeiras que tecem a fortuna dos homens e dos Deuses. Elas são conhecidas como Moiras, e levam os nomes de Cloto, Láquesis e Átropos.

   Cloto tece o fio da vida, iniciando a existência em seu tear do nascimento. Ela também é responsável pela gravidez de uma mulher, por isso muitos homens a temem, pois não gostam de muitos filhos, já que as plantações não se fazem colhidas sozinhas. Também temem Cloto os homens que possuem amantes, ou os estupradores de mulheres ricas e com famílias importantes. Uma criança na barriga errada pode derrubar um país.

   A velha chamada Átropos simboliza o fim, e é a responsável por terminar a obra do fio da vida, trazendo assim a possibilidade de Tânatos dar seu abraço final. Os homens cultivam um medo desta Moira por um motivo óbvio, ninguém deseja ter o fio da vida cortado. Átropos se mostra para os homens de formas distintas. Se um covarde a vê, certamente verá um monstro horrível, os Espartanos, pelo contrário, costumavam esculpir a Deusa como uma mulher bela e jovem.

   Mas há uma senhora ainda mais terrível, ao menos a meu ver. E ela responde pelo nome de Láquesis. Láquesis é responsável por manipular o fio, torcê-lo, apará-lo, encurtá-lo e alongá-lo, assim como dar um nó aqui e acolá, e, não suficiente, tingi-lo da cor que ela desejar. Esta Deusa manipula o destino dos homens e dos Deuses, dos Reis e dos mendigos, e eu a temo até mesmo agora, no fim de minha vida. O nascimento e a morte fazem parte da vida, e são necessários a todos nós, mas os caminhos que Láquesis tece, costurando e girando sua Roda da Fortuna, podem amedrontar até os Deuses.

   Quando eu entrei nos aposentos de Leônidas, esbaforido pela corrida e pela notícia que os Éforos me deram na entrada, foi Láquesis quem eu vi sobre ele. Um braseiro queimava ao lado da cama, emanando um perfume de hortelã que afligia os olhos e os fazia lacrimejar. Braseiros assim eram acesos para espantar os espíritos que traziam doenças da natureza, e também para disfarçar os cheiros das mazelas do corpo. Ou Láquesis se mostrou diretamente para mim, ou minha visão embaçada de hortelã viu um vulto e o julgou divino. Mas eu vi, acima do leito de Leônidas, uma Deusa costurando os fios de fumaça que se desprendiam do braseiro. Levei os punhos fechados ao rosto, esfreguei as lágrimas, e assim, em um piscar de olhos, ela havia desaparecido deixando apenas o resultado de sua costura.

   Leônidas jazia acamado, com a respiração fraca e a pele branca como um pente de osso. Estava magro e seus cabelos eram finos como os de um bebê. Passei a mão por sua cabeça e os tufos se desprendiam aos montes. Seus olhos estavam colados por ramelas amareladas, e seus dentes disputavam um torneio entre si para ver qual era o mais sujo. Lembrei-me de Anaxândrides, deitado naquele mesmo leito, me olhando com pesar.

   Ver meu irmão doente daquela maneira, sabendo que os cirurgiões já o haviam dado como um caso perdido, me fez querer chorar. Mas substitui minha tristeza por fúria, pois eu sabia, com o perdão da Deusa Láquesis, que aquilo era obra de Cleômenes.

Paráxeni - A Ruína dos Persas. (Por Marco Febrini.)Leia esta história GRATUITAMENTE!