Sobre o tempo

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Era uma manhã como outra qualquer. Olhei a paisagem que a janela emoldurava... O cenário me lembrava das roupas que meus velhos tios, Ciro e Valquíria, utilizavam. Ele costumava vestir casacões de tons neutros empoeirados e bolorentos, ela por sua vez era comumente vista usando seus vestidos lisos de uma única cor, juntos formavam o casal mais tedioso que eu conheci na minha vida.

Enfim, criei coragem e levantei para iniciar minha rotina. No entanto, durante o café da manhã uma cadeia de pensamentos foi iniciada. Levava uma excelente torrada à boca quando meu celular alertou o recebimento de uma nova mensagem. O que era mais estranho naquilo tudo? Não era não saber quem enviou. Acredite eu tentei descobrir de "n" formas quem enviou a mensagem. O fator mais intrigante de tudo foi o conteúdo da mensagem. Na tela do celular estava escrita uma curta frase. O que é o tempo? Nunca em toda minha vida recebi uma indagação tão sem pé nem cabeça. Simplesmente fechei a caixa de mensagens do celular e saí de casa rumo ao trabalho.

Já estava na parada do ônibus e aquela maldita mensagem não me saía da cabeça. Quem havia enviado? O que essa pessoa queria com tal pergunta? E o mais importante, por que enviar a mim? Justo eu tão envolvido com os meus deveres sociais, logo eu submerso nesse oceano de expectativas produzido pela sociedade capitalista em que vivemos. Com toda certeza eu não era o mais indicado dos seres humanos para refletir sobre o tempo... Deus! Definitivamente, estava ficando louco. Balancei a cabeça para espantar tais pensamentos e foi nesse momento que eu a vi.

O meu coração se retraiu, diminuindo seus compassos até níveis mínimos de bombeamento sanguíneo, meus pulmões ardiam enquanto clamavam por oxigênio, contudo minha mente só conseguia se concentrar em apenas uma coisa: Na mulher mais avassaladoramente bela que eu já vi na vida. Seu corpo era esculpido com as mais graciosas e sensuais curvas, sua pele tom de chocolate possuía um brilho próprio, lábios carnudos, um delicado nariz e um par de olhos verdes constituíam seu rosto envoltos em cachos escuros na altura do pescoço. Sua camiseta vermelha exibia uma frase estampada que me chamou atenção: "Seja a mudança que deseja no mundo". O mais marcante e louco foi o tempo em que tudo aconteceu, na minha cabeça o ocorrido se passou em uma infindável câmera lenta, mas para as outras pessoas tinham se passado meros segundos.

Entrei no ônibus lotado em direção ao trabalho, o que me fez chegar todo amarrotado. Trabalho arquivando documentos no setor de RH de uma multinacional. Confesso que não é o emprego mais instigante do mundo, mas o salário não é tão ruim para quem é solteiro e, diga-se de passagem, a grande maioria das pessoas começam de baixo. O relógio marcava dez horas quando eu decidi fazer uma pequena pausa para o cafezinho. Não é que meus pensamentos voaram para aquela mensagem de texto novamente? O que me fez perceber a diferença existente entre o tempo que eu trabalhei e o tempo em que vi a garota passar.

Depois da pausa do café voltei aos meus papéis e o tempo passou na velocidade de uma lesma. Cada documento arquivado era uma olhada furtiva no relógio sobre a porta da sala do RH. Os ponteiros estavam lá estáticos, como se a terra deixasse de realizar a rotação e eu me encontrasse em uma dimensão onde o tempo é congelado. Exageros à parte, o tempo passou normalmente, assim eu prefiro acreditar, e os ponteiros dos minutos e das horas estavam juntos no número doze, o bendito sinal indicador da minha hora do almoço.

Eu tenho uma hora para me empanturrar no self-service próximo da empresa, infelizmente não sou o único, ou seja, o local possui filas enormes. Estava em uma delas quando percebi o quanto as pessoas são lentas e demoram enquanto preenchem seus pratos. Fiquei ali na fila por uns vinte minutos, tentando em vão enganar minha barriga, até chegar a minha vez. Enfim, eu iria tirar a barriga da miséria. Fato constatado? O tempo passou rápido para mim, mas tenho certeza que para a senhora de blazer preto atrás de mim, os segundos que eu levei para colocar o feijão se arrastaram em milênios.

Milagrosamente fui liberado às quatro da tarde e em vez de seguir para casa eu decidir me sentar no banco de uma praça próxima da minha casa. Cercada por uma grade de ferro colorida e com um palco no centro, a praça é repleta de árvores, tornando-a um ótimo local para sentir a brisa da tarde. As crianças se divertiam nos brinquedos correndo em volta, quando um idoso se sentou ao meu lado. Ele tinha uma aparência simpática, usava um par de óculos e mantinha seus poucos cabelos grisalhos bem arrumados. Pediu-me licença para sentar, o que pareceu bem-educado da parte dele. Estava admirando movimento das folhas quando ele falou comigo.

- O que um rapaz faz sozinho em um banco de praça a essa hora?

- Estava pensando sobre uma questão que não sai da minha cabeça.

- Ah! Poderia ajudar? A propósito, me chamo Túlio.

- Bom, se o senhor tiver alguma ideia sobre o tempo... seria bem-vinda. Me chamo Daniel.

- Ah o tempo! É no tempo que experimentamos, vivemos e revivemos as mais diversas e controversas situações e emoções. É durante a passagem dele que ocorre a novidade da primeira fala, o sabor especial do primeiro beijo, os louros orgulhosos das conquistas e até as amarguras das derrotas. E no fim, todos nos encontramos em um estágio da vida em que por um átimo de segundo perdemos o fio do tempo para um descanso eterno.

Finalmente em casa...O dia foi revelador, cheio de indagações e descobertas. Não consegui tirar da cabeça a conversa com Túlio. Tomei banho, jantei, acessei as redes sociais e até ali eu não tinha encontrado uma resposta para aquela pergunta. Decidi pensar com afinco sobre a questão do tempo, e mais dúvidas rondaram minha mente. Que tempo é esse? O tempo subjetivo, relativo à nossa mente emoções, ou tempo objetivo, cronometrado e igual perante a todos nós? O tempo de Deus ou o tempo dos homens? Que ser é esse que controla nossas vidas através do andar do ponteiro do relógio, das páginas rasgadas do calendário, das estações do ano ou do mover do planeta em suas rotação e translação?

É o tempo sempre conosco,regendo nosso acordar, fazendo surgir rugas nos nossos rostos, fios brancos em nossas têmporas, tornando-nos mais sábios ou mais ignorantes. Enfim, diante de tanta dualidade e incerteza temporais, entre ser e nada desta incógnita, só nos resta deixarmos nossas marcas nesse tempo de várias facetas.

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