Capítulo 46 - Terna

24 5 2


Ali está a dona do poder que deveria ser meu, mas infelizmente não é. Seu sorriso travesso atravessa meus olhos como flechas certeiras, o brilho daquele olhar fruta cor transborda as superfícies de minha alma, a tempos vivo com parte dela em mim, há séculos que eu deveria ter notado que não vivia sozinha em meu corpo, mas o desejo de ser alguém melhor me cegou, apesar dos gardianos sempre pedirem por mim, imaginando que eu fosse paixão, eles estavam despejando suas depravações em meu colo, enquanto eu enfiei o meu próprio poder tão fundo que não fui capaz de acha-lo, acreditei ser paixão, pois era o que eu queria ser. Sou uma fraude.

-O que está dizendo? –Fala Ivy desconfiada. Ela levanta o queixo, seus cabelos refletem momentaneamente minha cara de choque. Mas sei que é real, essa garota não consegue esconder sua essência, pelo menos não de mim. Ivy fala entredentes. –Como saberemos que você é, quem nos diz ser.

Em voz baixa falo que a garota não mente, sinto essas palavras engasgadas dentro de mim. É como deixar escapar entre meus dedos uma verdade cruel. Respiro fundo e repito desta vez mais alto.

-Ela é paixão. –Digo. Ivy olha surpresa em minha direção, então bate as mãos em seu vestido frustrada. Ela quer mais que apenas esta explicação, meu queixo treme. –Reconheço ela, mesmo nesta floresta onde não podemos usar nossos poderes, sei quem ela é, a senti a vida toda. O que não sei...

Falo estreitando meu olhar a Paixão.

–É por que se escondeu aqui, quando os gardianos precisavam de seu poder.

-Boa pergunta. –Fala Ivy, ficando mais próxima a mim. –Diga-nos, por que se escondeu por todo esse tempo?

Paixão ainda sorria, seu olhar estava pousado em mim como se tivesse presumido cada palavra que eu diria, e esta atitude sinceramente me incomodava. Seus olhos fruta cor me analisavam, como jamais alguém o fez. Levanto o queixo, ainda seguramente séria em meu questionamento. Meu ato atrai sua figura, ela dá um passo hesitante em minha direção, Ivy grunhe que ela fique onde está. Paixão sorri ainda mais, dando a ela um ar louco, mas então chacoalha a cabeça fazendo seus cabelos esvoaçarem. Paixão veste um vestido cor da floresta verde escuro, quase negro, ela bate as vestes e senta no chão. Então, como se fosse a coisa mais normal do mundo começa a se alongar.

-Bem. –Começa ela. –Não me escondi aqui, fui mantida prisioneira. Eu era apenas um bebe quando fui trazida para esta floresta, e com o tempo percebi que diferente dos animais sombrios e sem alma que vivem aqui, não preciso necessariamente de comida, embora possa beber e comer, mas o mais interessante foi descobrir que jamais conseguiria sair da floresta, eu tentei...

Ivy e eu trocamos olhares. Ela continua, agora puxando seus braços para trás.

-Imagino que seja difícil acreditar em uma estranha, se bem que não tenho como saber, são as primeiras que conheci, bem... não as primeiras. Mas devem ter seus motivos para serem tão desconfiadas... ainda mais a depravação.

Ivy bate seu pé no chão com força e ouço sua voz se tornar agressiva.

-O sentimento dela não significa que seja má! –Grita Ivy. –Minha irmã sempre foi uma boa soberana e...

-Ei. Você está sendo preconceituosa. –Diz Paixão e Ivy fica vermelha de fúria. Paixão respira fundo. – Desculpe, me expressei mal, mas acontece que sei a diferença. Ela é guardiã do sentimento, isso não significa que ela é tudo que o sentimento representa... uma senhorinha me explicou a diferença, mas isso não vem ao caso.

Os Soberanos de GardiaLeia esta história GRATUITAMENTE!