START | A ligação

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Acordou suada num dia quente de verão. Escovou os dentes, tomou um banho e foi à cozinha preparar o café da manhã. Caminhou até o quarto do caçula e o balançou para que acordasse logo — "Anda, menino, vai acabar se atrasando!". Voltou para a cozinha e abriu a despensa. Pegou o pó de café, botou na cafeteira e ficou paralisada antes de guardá-lo. Uma embalagem de biscoitos de chocolate pela metade, fechada com um pregador, parecia brilhar dentro da copa. Deixou o pó sobre a mesa, pegou o pacote de biscoitos, olhou a data de validade e constatou: estavam vencidos há um dia. Seus lábios começaram a tremer, lágrimas lubrificaram seus olhos e uma lembrança constante veio-lhe à mente. "Sete meses", murmurou. Levou o pacote até o peito e o abraçou com vigor. "Será que está bem?", pensou. "Como estará se virando por aí? Será que está comendo direito? Será que está com frio? Será... será que está vivo?", supôs, rendendo-se às lágrimas.

— Tá chorando por quê, mãe? — disse o caçula, surpreendendo-a.

— Não é nada, filho — ela respondeu, dando uma leve fungada e passando o braço nos olhos.

— Quero bolacha! — pediu o menino, apontando para o pacote.

— Vou pegar outra pra você.

— Mas eu quero essa.

— Essa aqui não pode.

— Não pode por quê?

— Porque não — respondeu com firmeza, indo em direção à copa. Enquanto escolhia outro biscoito na despensa, o menino gritou exasperado:

— Porque é dele, né?

Ela deixou alguns pacotes caírem no chão. Fechou a cara, virou devagar, pegou o biscoito vencido e o jogou à mesa, com violência.

— Está vendo algum nome aí? — revidou, furiosa. — Quer comer essa porcaria, então coma. Mas fique sabendo que está passado. Se tiver dor de barriga depois, não venha me procurar.

O menino apenas a encarou, amuado.

— Tá bom — disse ele, mais calmo. — Me dá aquela de morango.

Enquanto o menino sentava-se à mesa, ela pegou o pacote vencido e o atirou no lixo com pregador e tudo. Depois, apanhou um pacote de biscoito de morango e o entregou delicadamente ao filho. Por fim, guardou o pó de café na copa.

— Onde é que ele tá? — o menino perguntou enquanto abria a embalagem.

— Viajando, já te falei — ela respondeu, irritada.

— Mas ele não volta nunca!

— Para de falar nele, vai. Eu já te pedi.

O menino comeu dois biscoitos e sossegou por um instante. Ela sentou-se à mesa, jogou café em dois copos de leite e mordeu um pão com margarina.

— Ele me batia, mas eu sinto saudades dele mesmo assim — soltou o menino. Ela apenas olhou para a cara dele, impassível.

— Vai escovar esses dentes, anda. Está quase na hora da sua aula.

O menino baixou os olhos, desgostoso. Em seguida, levantou-se e saiu da cozinha. Ela permaneceu à mesa e bebeu todo o café com leite de uma só vez. Nesse mesmo instante, o telefone na sala tocou. Ela arregalou os olhos e atravessou o corredor como um raio.

— Alô. [...] Sim, é ela. [...] Hã? Lima Barreto? [...] M-mas como assim?

Começou a chorar.

— Sim! [...] Sim, sim! [...] Sim, eu sei, sim!

Começou a rir.

— Não acredito. Não acredito mesmo! [...] Obrigada. Muito obrigada!

Desligou. Sorriu. Chorou. 

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