02 Seis Anos Antes

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Era uma fria tarde aquela. Embaixo das árvores as suas folhas se amontoavam denunciando que o outono havia chegado. Para mim essa estação significava transformação, o passado das coisas se vai para o presente existir.Caminhei lentamente pelas ruas da cidade apreciando o agir do tempo nas paisagens. Por um momento pensei que estava sendo observado.Olhei ao redor e nada notei de estranho. Quando estava entrando no clube Estrelas um homem tocou no meu ombro, ao me virar um desconhecido perguntou:

– Bom dia! O senhor sabe me dizer se aqui tem aulas de artes marciais?

– Confesso que não sei, aqui eu faço apenas natação, mas tem algumas salas no clube com outras modalidades. Aconselho a você seguir em frente, dobrar no primeiro corredor e entrar na sala com porta de vidro, lá tem uma atendente que lhe dará as informações necessárias.

– Obrigado,meu nome é Carlos.

– Prazer Carlos, o meu nome é Davi.

– Davi...

Apesar de ter achado esse Carlos o homem mais estranho que já encontrei,voltei para casa e não consegui parar de pensar nele.Parecia que ele me conhecia, pois seus olhos eram cheios de curiosidade e o mais perturbador foi a sensação que eu tive de também conhecê-lo. Eu nunca tinha passado por isto, por esta sensação de conhecimento e empatia tão automática por outra pessoa. Confesso que sou um homem de poucos amigos, pacato e muito introvertido, a única situação capaz de fazer mudar o meu jeito de ser é quando a minha sede pelo conhecimento supera toda a minha timidez.

Com o tempo e frequentando a mesma academia, eu e Carlos cultivamos uma boa amizade. Ele sempre me incentivava a praticar artes marciais, pois dizia que nunca se sabe quando será necessário. Certo dia ele me acompanhou até minha casa, quando chegamos minha namorada estava,como de costume, na varanda lendo um livro.

– Meu amor, chegamos.

– Chegamos? Você e quem? – Ela falou sem retirar os olhos do livro.

– Eu e meu amigo Carlos, venha quero que o conheça.

– Ah!O amigo que convenceu você a praticar luta. Eu quero saber pra quê um arqueólogo e historiador precisa aprender a brigar?

– É bom, vai que alguma múmia resolve levantar do túmulo e conquistar o mundo, eu estarei pronto para defender a Terra.

Carlos diz:

– Logo nos livraremos dela.

– Como?O que você disse, Carlos?

– Nada,não. Só pensei alto.

Minha biblioteca é o local que eu mais amo em minha casa, lá estão meus livros e meus sonhos prontos para voar. Peguei um livro sobre arqueologia e mostrei para o Carlos.

– Está é minha grande paixão.

– Sei como é isso.

– Você também gosta?

– Gosto sim, mas às vezes a paixão nos leva por uma jornada tortuosa. A sede pelo conhecimento nem sempre é um caminho fácil.

– Penso que o homem tem que fazer qualquer coisa por mais conhecimento.

– Eu bem sei disso. Olha, Davi, com relação à equipe que você pensa em formar.

– Espera um pouco! Nunca falei sobre isto com você.

Carlos ficou um momento em silêncio, levantou e me disse:

– Você não me falou diretamente, mas eu sei por outra fonte que você pretende ir com uma equipe para o Egito, tem intenção de fazer pesquisas nas pirâmides e em outros locais, gostaria de falar para você não ir.

– Carlos,não sei como você tem esta informação, mas não lhe dou o direito de se intrometer em algo que é muito importante para mim. Pretendo evou formar uma equipe para ir ao Egito, é um sonho meu e estou estudando muito para isso.

– Estes locais não são seguros e você pode entrar numa furada.Já pensou ser abduzido? Você consegue imaginar como seria?

– Abduzido?Que absurdo é esse que você está falando? Aliás, porque trazer a nossa conversa este assunto?

– Davi,me ouça, alguns conselhos só entendemos no futuro, com o passar do tempo. Eu digo e repito que você não terá boas experiências nesta empreitada. Não vá...

– Como você pode falar isto? Por acaso você pensa em formar uma equipe também e quer desestruturar o meu sonho? Está de olho em alguma bolsa de pesquisa?

– Desculpe,você não está me entendendo.

– Quem não está entendendo é você. Isto é importante para mim e eu não quero mais falar com você sobre isto.

– Tudo bem. Olha só, não posso ficar mais tempo aqui nesta cidade. Tenho que ir embora nos próximos dias, apenas passei por aqui para tentar ajudar você e lhe direcionar numa escolha futura. Às vezes ajudar o outro é estar ajudando a si mesmo.

– Maseu não estou precisando de ajuda.

– Compreendo.Outra coisa, tua namorada está saindo todas as noites de terça.

– Como?

– Eu tenho que ir Davi, mas se me permite, te deixo três conselhos para os próximos anos: não vá para as pirâmides, se decidir ir não deixe de treinar artes marciais e até faça aquele curso de sobrevivência que o professor da academia falou. Faça, entendeu? E por fim, retroceda caso encontre algo muito surreal.

– Como?Você está louco!?

– Outra coisa, tua namorada está te traindo com seu melhor amigo.

– Seu maluco! Saia da minha casa, agora!

– Vou sim, pois meu tempo acabou, mas não se esqueça de nada do que eu disse.

Fiquei dentro da biblioteca sem entender o que estava acontecendo. Carlos foi embora,mas antes passou na varanda e disse para minha namorada:

– Eu contei para ele sobre o seu caso com o Marcos. Vá embora daqui!



Guerreiros dos Mundos - Em Busca do Planeta MãeOnde as histórias ganham vida. Descobre agora