{Capítulo 13}

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P.O.V - Camila Cabello

Não me lembro bem do que aconteceu depois que chegamos. Os flashes dos fotógrafos espocaram ao nosso redor enquanto andávamos pela área de imprensa, mas eu mal me dei conta disso, estava sorrindo apenas por inércia. Na verdade, estava retraída e ansiosa para me livrar da tensão que Shawn exalava na minha direção.
No momento em que entramos, alguém chamou seu nome e ele se virou. Saí de fininho, olhando ao redor, para os outros convidados, que lotavam a entrada acarpetada do evento.
Quando cheguei à recepção, apanhei duas taças de champanhe da bandeja de um garçom que passava e virei uma delas enquanto procurava por Cary. Quando o vi do outro lado do salão junto com minha mãe e Michael, fui direto até lá, descartando a taça vazia sobre uma mesa no caminho.
- Camila! A expressão da minha mãe se iluminou ao me ver. - Esse vestido ficou maravilhoso em você!
Ela me cumprimentou beijando minhas bochechas sem tocá-las. Estava linda em um vestido longo e justo, azul e brilhante. Suas orelhas, seus pulsos e sua garganta estavam adornados de safiras, ressaltando a cor de seus olhos e o tom de sua pele.
- Obrigada. Dei um gole na segunda taça de champanhe, lembrando que havia planejado expressar minha gratidão pelo vestido. Enquanto agradecia pelo presente, não estava mais tão contente com sua conveniente abertura na perna.
Cary tomou a frente, pegando-me pelo cotovelo. Só de olhar para meu rosto ele percebeu que eu estava chateada. Balancei a cabeça, mostrando que não queria falar sobre o assunto naquele momento.
- Mais champanhe, então?, ele perguntou, gentil. - Por favor.
Senti que Shawn se aproximava antes mesmo de ver o rosto de minha mãe se iluminar como a Times Square em noite de Ano-Novo. Michael também pareceu se ajeitar e se empertigar todo.
- Camila. Shawn apoiou a mão na parte inferior de minhas costas nuas, e uma onda de choque percorreu meu corpo. Com seus dedos grudados em mim, perguntei-me se ele sentia a mesma coisa. - Você fugiu.
Fiquei gelada com o tom de reprovação que ouvi em sua voz. Eu o fuzilei com um olhar que dizia tudo aquilo que eu não podia falar em público.
- Richard, você conhece Shawn Mendes?
- Sim, é claro. Os dois se cumprimentaram.
Shawn me puxou mais para perto.
- Temos a sorte de acompanhar as duas mulheres mais bonitas de Nova York.
Michael concordou, abrindo um sorriso para minha mãe.
Virei o restante do meu champanhe e troquei com gratidão a taça vazia pela que Cary havia me trazido. O álcool produzia uma leve queimação no meu estômago, e ajudava a desatar um pouco o nó que havia se formado lá dentro.
Shawn se inclinou na minha direção e cochichou em um tom áspero:
- Não se esqueça de que você está comigo.
O cara era maluco? Que conversa era aquela? Meus olhos se estreitaram de raiva.
- Olha só quem fala.
- Aqui não, Camila. Ele acenou com a cabeça para todos e me levou dali. - Agora não.
- Nem nunca, murmurei, concordando em ir com ele só para poupar minha mãe daquela cena.
Virando taças de champanhe, eu me coloquei no piloto automático e passei a agir num modo de autopreservação ao qual não recorria havia muitos anos. Shawn me apresentou a algumas pessoas, e acho que minha atuação foi boa - falando nos momentos certos e sorrindo quando necessário -, mas não estava prestando a mínima atenção. Eu estava mais preocupada com a parede de gelo que se ergueu entre nós, com minha raiva e minha mágoa. Caso eu ainda precisasse de alguma prova da determinação de Shawn em evitar interações sociais com as mulheres com quem dormia, tinha acabado de obtê-la.
Quando o jantar foi anunciado, fui com ele para a mesa e mal toquei na comida. Bebi algumas taças de vinho tinto que serviram junto com a refeição e ouvi Shawn conversar com as demais pessoas à mesa. Não prestei a menor atenção às palavras, apenas à cadência e o tom sedutor e equilibrado da sua voz. Felizmente, ele não tentou me integrar à conversa. Acho que eu não diria nada que prestasse.
Só voltei a demonstrar interesse quando, em meio a uma salva de palmas, ele subiu até o palco. Eu me virei na cadeira e o observei enquanto caminhava em direção ao púlpito, incapaz de deixar de admirar sua elegância natural e sua beleza impressionante. A cada passo que dava ele impunha atenção e respeito, o que era uma proeza, considerando suas passadas tranquilas e sem pressa.
Shawn não lembrava nem um pouco aquele sujeito vulnerável depois da nossa foda desmedida na limusine. Na verdade, parecia outra pessoa. Ele havia voltado a ser o homem que conheci no saguão do Crossfire, absolutamente controlado e naturalmente poderoso.
- Em nosso país, ele começou, - o abuso sexual na infância é uma realidade para uma a cada quatro mulheres e um a cada quatro homens. Dê uma boa olhada ao seu redor. Alguém da sua mesa pode ter sido uma vítima, ou então conhece uma. Essa é a inaceitável verdade.
Fiquei vidrada nele. Shawn era um grande orador, e seu tom de barítono era hipnotizante. Mas era o tema de seu discurso, tão pessoal para mim, e sua maneira apaixonada e às vezes surpreendente de abordá-lo que me emocionou. Comecei a amolecer, sentindo minha fúria injuriada e minha autoconfiança ferida dando lugar ao deslumbramento. Minha visão sobre ele mudou quando me vi apenas como mais um membro de uma plateia atenta. Ele não era mais
o homem que tinha acabado de magoar meus sentimentos; era apenas um palestrante habilidoso falando sobre uma questão importantíssima para mim.
Quando terminou, eu me levantei e aplaudi, surpreendendo tanto Shawn como a mim mesma. No entanto, os demais logo se juntaram a mim naquela ovação, e comecei a ouvir as conversas que zuniam ao redor, desmanchando-se discretamente em merecidos elogios.
- Você é uma menina de sorte.
Virei-me para ver de quem era a voz que havia dito aquilo, e me deparei com uma bela ruiva que parecia ter pouco mais de quarenta anos.
- Somos só... amigos.
Seu sorriso sereno fazia de tudo para me desmentir.
As pessoas começaram a abandonar as mesas. Eu estava prestes a pegar minha bolsa e ir para casa quando um jovenzinho se aproximou para falar comigo. Seus cabelos castanhos rebeldes despertavam uma inveja imediata, e seus olhos de um tom de verde acinzentado eram gentis e amistosos. Bonito e ostentando um sorriso jovial, ele arrancou de mim o primeiro sorriso sincero desde que saí da limusine.
- Olá.Ele parecia me conhecer, o que me deixou na desconfortável posição de fingir que fazia alguma ideia de quem ele era.
- Olá.
Ele deu uma risada, despreocupada e charmosa.
- Meu nome é Lucas Vidal, sou irmão de Shawn.
- Ah, é claro. Senti meu rosto esquentar. Eu não conseguia acreditar que estava tão mergulhada na autopiedade que não fui capaz de fazer essa associação de imediato.
- Você ficou vermelha.
- Desculpe. Ofereci a ele um sorriso envergonhado. - Não sei muito bem como dizer que li uma reportagem sobre você sem que isso soe meio esquisito.
Ele riu.
- Fico feliz que tenha lembrado. Só não me diga que foi na coluna social.
- Não, eu me apressei em esclarecer. - Na Rolling Stone, talvez?
- Isso eu consigo aceitar. Ele estendeu o braço para mim. - Quer dançar?
Dei uma olhada para Shawn, parado diante da escada que levava ao palco. Estava cercado de pessoas ansiosas para falar com ele, em sua maioria mulheres.
- Como você pode ver, meu irmão vai demorar um pouco, disse Lucas, parecendo se divertir com a situação.
- Pois é. Eu estava prestes a me virar quando reconheci a mulher ao lado de Shawn, Alessandra Martino.
Apanhei minha bolsa e me esforcei para sorrir para Lucas. - Eu adoraria dançar.
De braços dados, fomos até a pista. A banda começou a tocar uma valsa, e seguimos naturalmente o ritmo da música, com movimentos suaves. Ele era um dançarino habilidoso, ágil e seguro quanto à sua capacidade de conduzir.
- Então você é amiga de Shawn?
- Não exatamente. Acenei com a cabeça para Cary quando ele surgiu ao meu lado com uma loira escultural. - Trabalho no Crossfire, e nós nos encontramos nos corredores uma vez ou outra.
- Você trabalha para ele?
- Não. Trabalho como assistente na Waters Field & Leaman.
- Ah. Ele sorriu.
- Publicidade.
- É.
- Shawn deve estar muito a fim de você para passar dos encontros casuais nos corredores para um evento como este.
Praguejei em silêncio. Sabia que as pessoas iam tirar conclusões, mas não estava nem um pouco disposta a ser humilhada.
- Shawn conhece minha mãe, que foi quem me convidou para vir, então era só uma questão de duas pessoas irem ao mesmo lugar no mesmo carro ou em carros separados.
- Então você está desacompanhada?
Respirei fundo, sentindo-me desconfortável, apesar da fluidez com que nos movíamos na dança.
- Bom, comprometida eu não estou.
Lucas abriu seu carismático sorriso de menino.
- Minha noite acabou de mudar pra melhor. Ele preencheu o restante do tempo da dança com piadinhas divertidas sobre a indústria musical, que me fizeram rir e esquecer um pouco Shawn.
Quando a música terminou, Cary estava a postos para a próxima dança. Nós dançávamos bem, tínhamos feito aulas juntos. Relaxei em seus braços, agradecia por ter seu apoio moral.
- Está se divertindo?, perguntei.
- Fiquei bobo durante o jantar quando percebi que estava sentado ao lado da principal organizadora da Semana de Moda de Nova York. E ela deu em cima de mim! Ele sorriu, mas seus olhos pareciam assustados. - Toda vez que apareço em lugares como este... vestido deste jeito... é inacreditável. Você salvou minha vida, Camila. E depois a mudou completamente.
- E você é a salvação da minha sanidade mental. Estamos quites, pode acreditar.
Ele apertou minha mão e me olhou bem nos olhos.
- Você não parece estar nada contente. O que foi que ele fez?
- Acho que a culpa é minha. Depois a gente conversa sobre isso.
- Você está com medo de que eu arrebente a cara dele na frente de todo mundo. Suspirei.
- Acho melhor não, por causa da minha mãe.
Cary deu um beijo de leve na minha testa.
- Ele já estava avisado. Sabe o que vai ter pela frente.
- Ah, Cary. O amor que eu sentia por ele me provocou um nó na garganta, apesar de meus lábios sorridentes demonstrarem um divertimento relutante. Eu deveria saber que Cary daria uma de irmão mais velho para cima de Shawn. Era a cara dele.
Shawn apareceu ao nosso lado.
- Agora é minha vez. Não foi um pedido.
Cary parou e olhou para mim. Eu concordei. Ele se afastou fazendo uma reverência, com os olhos grudados em Shawn.
Ele me puxou para perto e partiu para a pista de dança da mesma maneira como fazia tudo na vida - com uma confiança absoluta. Dançar com Shawn era uma experiência completamente distinta em relação aos meus dois parceiros anteriores. Ele possuía ao mesmo tempo a habilidade de seu irmão e a intimidade com meu corpo que Cary demonstrava, mas seu estilo era ousado, agressivo, de uma sensualidade inerente.
Não ajudou muito o fato de, apesar da minha infelicidade, eu me sentir seduzida por aquele homem do qual tinha me sentido tão íntima pouco tempo antes. Seu cheiro era magnífico, recendendo a sexo, e o modo como ele me conduzia, com passos ousados e arrebatadores, fez com que eu sentisse um vazio dentro de mim, no lugar que ele havia ocupado pouco tempo antes.
- Você não para de fugir, ele murmurou, provocando-me.
- Mas pelo jeito Alessandra soube ocupar meu lugar rapidinho.
Ele ergueu as sobrancelhas e me puxou para mais perto.
- Está com ciúmes? - Fala sério...
Olhei para o outro lado.
Ele fez um ruído de frustração. - Fique longe do meu irmão, Camila.
- Por quê?
- Porque estou mandando. Fiquei irritada com aquilo, o que era uma coisa boa depois de toda a recriminação e de todas as dúvidas com que vinha lidando após transarmos como dois coelhos no cio. Decidi pagar para ver se virar a mesa era uma opção viável no mundo de Shawn Mendes.
- Fique longe da Alessandra, Shawn.
Ele cerrou os dentes.
- Ela é só uma amiga.
- Isso quer dizer que você não dormiu com ela...?
- Claro que não. Nem quero. Escute... A música desacelerou e diminuiu de volume. - Preciso ir. Eu trouxe você aqui e gostaria de levá-la para casa, mas não quero estragar a diversão. Você prefere ficar por aqui e ir embora com Michael e sua mãe?
Minha diversão? Ele estava de brincadeira ou tinha perdido totalmente a noção? Ou pior. Talvez estivesse tão desinteressado que nem prestava atenção em mim.
Eu o afastei um pouco, precisava criar certa distância. O cheiro dele mexia com minha cabeça.
- Vou ficar bem. Me deixe.
- Camila. Ele tentou me tocar, mas dei um passo atrás.
Um braço aparou minhas costas, e eu ouvi a voz de Cary.
- Pode deixar que eu cuido dela, Mendes.
- Não complique as coisas, Taylor, alertou Shawn.
- Pelo que estou vendo, você já fez isso muito bem sozinho, ironizou Cary.
Engoli em seco, superando o nó que havia na minha garganta.
- Você deu um belíssimo discurso, Shawn. Foi o ponto alto da minha noite.
Ele respirou fundo diante do insulto que aquilo implicava e depois passou a mão pelos cabelos. De forma abrupta, soltou um palavrão, e eu entendi o porquê quando ele sacou o telefone do bolso e olhou para a tela.
- Preciso ir. Seu olhar capturou o meu e o manteve prisioneiro. Seus dedos passearam por meu rosto. - Mais tarde eu ligo.
E ele foi embora.
- Você quer ficar?, Cary perguntou perguntou em voz baixa.
- Não.
- Eu levo você pra casa, então.
- Não, não precisa. Eu queria ficar um tempo sozinha. Afundar-me em uma banheira quente com uma garrafa de vinho e sair daquele estado de agitação. É melhor você ficar. Pode ser bom pra sua carreira. A gente conversa quando você chegar. Ou amanhã. Quero ficar o dia inteiro em casa sem fazer nada.
Ele me lançou um olhar inquisitivo.
- Tem certeza? Confirmei com a cabeça.
- Certo. Mas ele não parecia muito convencido.
- Se puder mandar buscar a limusine de Michael, preciso dar uma passadinha no banheiro.
- Tudo bem. Cary passou a mão pelo meu braço. - Vou pegar seu xale no guarda-volumes e encontro você lá na frente.
A visita ao banheiro demorou mais do que deveria. Para começar, um número surpreendente de pessoas me parou para conversar, e o motivo disso só podia ser o fato de eu ter chegado acompanhada de Shawn Mendes. Além disso, evitei o banheiro mais próximo, que tinha umgrande fluxo de mulheres entrando e saindo, e encontrei um mais distante. Tranquei-me na cabine e fiquei ali um pouco mais de tempo do que tinha levado para fazer o que era necessário. Não havia mais ninguém ali além da funcionária responsável, não havia motivo para me apressar.
Eu estava tão chateada com Shawn que mal conseguia respirar, e estava absolutamente perplexa com suas mudanças de humor. Por que ele havia acariciado meu rosto daquele jeito? Por que tinha se aborrecido por eu não ter permanecido ao lado dele? E por que tinha tratado Cary daquele jeito? Shawn dava um novo significado à velha descrição de uma pessoa - de lua.
Fechei os olhos e retomei a compostura. Minha nossa. Eu não precisava passar por tudo aquilo.
Tinha exposto os meus sentimentos naquela limusine e estava extremamente vulnerável - uma sensação que tinha me custado infinitas horas de terapia para aprender a evitar. Eu só queria ir para casa e me esconder, libertar-me da pressão de agir como se estivesse tudo bem.
Você entrou nessa porque quis, lembrei a mim mesma. Agora aguenta.
Respirando fundo, saí do banheiro e dei de cara com Alessandra Martino parada de braços cruzados. Ela estava claramente à minha espera, procurando o momento certo para me pegar com a guarda baixa. Hesitei; depois me recuperei e fui na direção da pia para lavar as mãos.
Ela se virou para o espelho, observando-me. Eu também a observei. Era ainda mais bonita pessoalmente do que nas fotos. Alta e magra, com grandes olhos claros e cabelos loiros lisos. Seus lábios eram carnudos e vermelhos, e os ossos de sua face eram pronunciados e harmônicos. Seu vestido era sexy e modesto, uma leve camada de cetim cor de creme que contrastava lindamente com sua pele clara. Ela parecia uma supermodelo e exalava sex appeal por todos os poros.
A funcionária do banheiro me entregou a toalha de mão, e Alessandra falou com ela em espanhol, pedindo para nos deixar sozinhas. Reforcei o pedido:
- Por favor, gracias. Alessandra arqueou as sobrancelhas e me olhou mais atentamente, um olhar que retribuí com igual frieza.
- Ah, não, ela murmurou assim que a funcionária se afastou. Fez também um estalo com a língua, um barulho que me irritava tanto quanto o som de unhas numa lousa. - Você já deu pra ele.
- E você não.
Isso pareceu surpreendê-la.
- É verdade, eu não. Sabe por quê?
Tirei uma nota de cinco da bolsa e depositei na bandeja de gorjetas.
- Porque ele não quer.
- E eu também não quero, porque ele não consegue assumir um compromisso. Ele é jovem, bonito, rico e está aproveitando a vida.
- Ah, sim. Concordei. - Com toda a certeza.
Ela estreitou os olhos, e a expressão de contentamento sumiu do seu rosto.
- Ele não respeita as mulheres que come. Depois que enfia o pau em você, acabou a conversa. É assim com todas. Mas eu ainda estou aqui, porque é a mim que ele quer no futuro.
Mantive a frieza, apesar de ter acusado o golpe, que me acertou justamente onde mais me doía.
- Isso é patético.
Saí pisando duro e só parei ao chegar à limusine de Michael. Apertei a mão de Cary ao entrar, e consegui esperar o carro virar a esquina para começar a chorar.

toda sua - shawmila • adaptada •Leia esta história GRATUITAMENTE!