10 - A Fenda - Parte Final

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Aperta-se aquele cinto do veículo não terrestre. Sonia ainda está perdida em pensamentos preocupados.
- Vamos dormir, Sonia. Pelo menos, o som do motor da nave serve para isso.
- Eu estou preocupada. - A russa confessa timidamente. - Muito.
- Você fala. Uau! - Anne se ajeita na cadeira para mostrar que está atenta ao que a outra irá dizer.
- Tenho medo... Do que essas pessoas que estão indo para a Terra podem causar.
- Eu também. Tenho medo que me machuquem meus pais, meus irmãos... Meus amigos. - Anne deixa o olhar se perder nas lembranças.
- Temos que lutar, temos que lutar... - Sonia diz mais para si mesma do que para Anne até que essa fala vira um sussurro.
- É... Talvez seja o único jeito. - A finlandesa se esparrama no seu assento e fecha os olhos para cochilar. A russa faz o mesmo, só que com mais sutileza e discrição.

Água que se move lentamente e a pele clara de uma jovem. O seu loiro cabelo longo ao vento e o seu corpo nu sofrendo com o frio. Manchas de lama, algumas pequenas feridas cicatrizando. Os seus olhos azuis se abrem e parecem atravessar o peito de quem a observa. E quem isso o faz? Sonia e Anne. As duas estão sonhando com esta mesma garota. Elas estão vendo algo dentro dos olhos dessa e o que elas veem, abala-as. Sangue, medo e guerra. Terror. A garota grita e chora perdida à beira de um mar escuro. Desaba na areia temendo que vai morrer. Soluça sem força, ao mesmo tempo que tenta se reerguer. O que não acaba acontecendo. Ela sente a morte se aproximando com sua brisa gélida e que desarma todas as tensões do corpo que foi programado para morrer. Sonia e Anne também sentem a morbidez invadindo as suas emoções enquanto veem essa mesma garota em seus sonhos, ou melhor, pesadelo em conjunto. As duas acordam em um grito em uníssono. A russa se joga ao chão e passa a se contorcer contra o seu próprio desejo. A hacker finlandesa se levanta lentamente com os olhos sem cor: assim como aconteceu no deserto logo depois que elas fugiram do hospital. As luzes da nave começam a falhar e o veículo passa    
a tremular. Na pele de Sonia nascem pelos grossos e acinzentados de lorksels, e isso é acompanhado por garras no lugar das unhas roídas e dentes afiados e enormes no lugar de uma dentição perfeita.
  - Vamos cair! – Róru anuncia em meio a uma violenta turbulência. - Ruma, acho que tem a ver com as duas! – Ele grita desesperado por uma solução enquanto pilota a nave e aperta diversos botões nos painéis vítreos. A auxiliar de Lura olha para as duas integrantes das Sete: Anne, com os olhos embranquecidos, em transe; Sonia se transformando na fera.
- Róru, eu não sei o que fazer... Eu não sei.  - Ruma, numa saída desesperada, grita para Anne:
- Pare com isso! Pare agora!
Mas algo que ela não espera acontece:
- Não nos impeça. Estamos indo até ela. Ela está nos chamando. - Anne se aproxima a passos bem medidos e cautelosos.
- Quem é ela? Quem é ela? O que você está fazendo? - Então, Ruma percebe que não é exatamente Anne quem está falando aquelas coisas. - Melhor: quem está aí por trás dessa garota? Quem? - Ruma chega cada vez mais perto de Anne  e com uma postura que tenta intimidar, por medo.
- Você talvez nos conheça. Um dia. - E então, a finlandesa com os olhos embranquecidos, dá um risadinha de canto de boca de um contorno maligno, vira-se, sem expressão alguma, para Sonia que já se tomou totalmente a forma de uma fera e ela...

Ela pula na garganta de Ruma.

***
 

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now