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Duas semanas depois


Aproveitando o calor da metade de dezembro, Anya se ocupava em fazer uma das coisas que mais amava na vida.

Curtir o sol.

E ela o fazia como uma turista, coberta com óleo bronzeador e o biquíni minúsculo que comprara em seu passeio à capital na semana anterior.

Os cabelos, presos num coque solto, balançavam com a brisa suave daquela espetacular manhã de sexta-feira e lhe faziam cócegas na pele, mas ela não se importava. Ora cochilava, ora suspirava de contentamento, estendida sobre uma enorme toalha aveludada.

O sol, que surgira tímido a princípio, logo se erguera e se estendera por toda a superfície da praia deserta, refletindo nas águas calmas de azul profundo e aquecendo a areia branca.

Oh, sim, amava o sol.

E amava o verão.

E amava se deitar ao sol no verão sem pensar em absolutamente nada.

Ainda mais àquela hora da manhã, quando a praia se encontrava praticamente deserta e poucos eram os que se arriscavam a correr e caminhar por ali.

Espreguiçando-se devagar, Anya ergueu o enorme chapéu de palha que cobria seu rosto e se apoiou num dos cotovelos. Através dos óculos escuros, os olhos sonolentos admiraram a paisagem e ela absorveu profundamente o cheiro singular da maresia.

Oh, sim, amava tudo aquilo.

Aquela manhã, em especial, era uma benção. Uma trégua da chuva fora de época com que os últimos dias foram marcados e que ela já não aguentava mais.

O mau tempo, ao contrário de deixá-la bem-disposta como ocorria com seu irmão, sempre conseguia o efeito oposto nela. Anya se recolhia sob os lençóis, deprimida, triste e desanimada, até ser forçada a sair da cama e encarar o dia. O dia deprimente, triste e desanimador.

Obrigada, menino da previsão do tempo, por ter errado desta vez.

Suspirando em puro deleite por aquele início de dia fantástico, virou-se sobre os cotovelos e alcançou o relógio de pulso deixado sobre a bolsa de palha ao seu lado.

Faltavam quatro minutos para as sete e meia, o que significava que nem valia a pena voltar a deitar. Portanto, ficou ali, apoiada nos cotovelos, olhando para o mar e curtindo sua companhia até ouvir o alarme do relógio.

Sem mais escolha que se despedir do paraíso e retornar à vida real, Anya se levantou e vestiu a saída de praia. Em seguida, enfiou os pés nos bonitos chinelos que comprara na feira de artesanato local e juntou a toalha, sacudindo-a até que o excesso de areia caísse e ela pudesse guardá-la na bolsa.

Revigorada com a energia que aqueles quarenta minutos de ócio lhe proporcionaram, olhou uma última vez para o céu e o mar, como se estivesse se despedindo de um amante, e pegou suas coisas para ir embora.

Era uma silenciosa e solitária caminhada de menos de três minutos em que as poucas casas que avistava se mantinham com as janelas, portas e portões fechados, enquanto as ruas seguiam tão desertas quanto a própria praia.

Não fossem os gramados recém-aparados e a marca dos pneus na entrada das garagens, de fato ninguém desconfiaria que era verão. Composta principalmente por moradores sazonais, aquela parte de Querência era como a maioria das pequenas praias da região: pessoas apareciam nos finais de semana, feriados e férias, quando o calor dava as caras, e muito poucas se estabeleciam para o ano inteiro.

Uma das maiores vantagens deste lugar, considerou Anya enquanto procurava as chaves do portão de casa na bolsa.

Ela se lembrava muito bem de quando foi imediatamente atraída para aquele bairro, tanto pelo curto trajeto de carro que teria de percorrer até o trabalho e faculdade — nos tempos em que ainda estudava —, quanto pela ausência de vizinhos naquela área durante o inverno.

[REPOSTAGEM] Amores, Amores, Compromissos à ParteLeia esta história GRATUITAMENTE!