Capítulo 12 - Rios e Risos

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   O reinado de Cleômenes era construído sobre as bases de um ganho próprio, onde, através de leis, ele tentava trazer uma segunda Atenas para a Pólis dos descendentes de Hércules. Cleômenes, que me queria mal com a mesma intensidade com a qual eu o odiava, havia transformado a Apela, onde os Esparcíatas decidiam o futuro de muitas ações de Esparta, em um conselho democrático tal qual o existente na Ática. O novo Rei de Esparta almejava diminuir a autoridade dos Éforos e do conselho de guerra dos generais, afunilando as decisões para si mesmo através do voto comprado de muitos nobres da cidade. Não obstante, ele desejava abolir uma herança singular do povo espartano, pondo fim à Diarquia.

   Esparta possuía um reinado combinado de Reis duplos, a Diarquia, onde duas famílias governavam simultaneamente. Os governos geralmente eram divididos, separando as maiores qualidades dos governantes em setores, onde eles pudessem contribuir com mais intensidade para a cidade. Meu antigo Rei, Anaxândrides, era um guerreiro temido, e administrava os contingentes do exército de solo e as estratégias militares; muitos acreditavam que Anaxândrides era mais um General do que um Rei. Na época em que meu pai usava sua coroa em Esparta, também era Rei um homem chamado Arístom, o qual desprendia todo o seu tempo cuidando dos portos da Lacônia.

   Arístom, apesar de não passar seus dias na Pólis, onde Anaxândrides governava praticamente sozinho, teve um papel importante na história do local. Sem Arístom a marinha de Esparta seria apenas um punhado de trirremes caindo aos pedaços, sendo comandada por pescadores de salarias e cobitis. O segundo Rei de Esparta havia empregado quinhentos construtores, vinte engenheiros, e mais da metade de toda a riqueza de sua família em navios e embarcações. Ano após ano, buscando um objetivo de forma inclemente e sem descanso, Arístom havia transformado as campanhas navais de Esparta, engrandecendo ainda mais o nome de nosso Estado. Graças ao esforço sem igual do Rei Arístom, a marinha Espartana equiparava-se à força aquática Ateniense. Contudo, se Cleômenes conseguisse concluir seus objetivos sórdidos, toda a estrutura de administração Lacedemônia poderia mudar. E não para melhor.

   Esse conhecimento chegou a meus ouvidos em uma conversa com Cletarco, em Tégea, alguns dias depois de meu duelo contra Elenikeus. Eu e meus quatro irmãos, Plístia, Agnéio, Hymos e Ziliáris, corríamos pelo Peloponeso atrás dos Persas, e não tínhamos informações a respeito de Esparta. Enquanto o Rei Ateniense governava meu lar de maneira avarenta, apoiado por homens mesquinhos e gananciosos, eu estava perseguindo os assassinos e raptores de minha família. Mas eu acreditava que os Deuses me abençoariam em Tégea.

   Naquela época, sem saber que meu irmão estava entregue aos caprichos dos Deuses, eu apenas me perguntava: O que, em nome do Olimpo, Leônidas estava fazendo enquanto seu irmão mais velho instalava aquele caos político em Esparta?

   A resposta acabou chegando até mim, no entanto, não quando eu desejava, e nem como eu a esperava.

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   No caminho para Tégea, quando o primeiro dia do inverno tocou nossa pele, encontramos uma mulher na estrada. Ela estava sentada por sobre uma pele de cabra, retirando as pétalas de uma margarida e murmurando ao vento. Aquela mulher se chamava Zési, era da Argólida, e fora uma das seguidoras da grande caravana de meu antigo desafiante, Elenikeus. A mulher nos contou que havia se apaixonado por Agnéio, meu irmão de membro avantajado, e que não pôde seguir viajem sem antes provar de seu beijo. Nós sabíamos que ela desejava mais do que um beijo de nosso amigo, e ele próprio também o sabia, pois quando olhamos para trás Agnéio já despia-se de suas roupas e armadura.

   Eles se deitaram ali mesmo, na estrada, enquanto eu e meus homens fomos beber água em um pequeno lago que descansava ao sol do início da tarde.

Paráxeni - A Ruína dos Persas. (Por Marco Febrini.)Leia esta história GRATUITAMENTE!