Capítulo 1 - 5 ANOS LUZ LONGE DA TERRA

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"Não sei porque ainda fico contando... talvez seja para me lembrar o que deixei para traz e reforçar o que vim fazer aqui.

Aqui... essa palavra com certeza perde a definição neste contexto no qual me encontro, já que estou a bordo de uma nave rumo aos confins do Universo. Sem tripulação, apenas eu, a nave e o computador de bordo.

Acordei há algum tempo. E embora esteja perfeitamente consciente de que estou desobedecendo o protocolo ao não fazer os registros, assim que saí da criogenia; não me preocupo tanto. Além de receberem relatórios automáticos do computador, que demoram eternidades para chegar à Terra, vocês terão muitas gerações para avaliar minha missão.

Mas hoje de repente tive vontade de iniciar este diário e aqui estou. 

Meu dia a dia não é muito diferente do que era aí na Terra: dormir, acordar, higienizar, exercitar, trabalhar, comer e assim por diante.

A única diferença são as paisagens magníficas que servem de cenário para minha nova vida. Planetas de cores e tamanhos incríveis, nebulosas exuberantes, estrelas, pulsares, cometas, nuvens de poeira estelar... não esquecendo da beleza ameaçadora dos buracos negros, super-novas e blazares!... tudo isso flutuando dentro de uma grande massa escura, como um gigantesco caldeirão de sopa cósmica,  o espaço profundo e infinito que me cerca dia e noite. Na verdade, literalmente apenas noite...

Sei que para a primeira anotação pessoal, depois de tanto tempo viajando pelo cosmos, provavelmente receberei algumas advertências e muitas reclamações (que nunca verei) pela falta de detalhes minuciosos. Mas vocês me conhecem ou melhor dizendo, daqui para frente, me conheciam! ...

Quando tiver algo realmente importante e incrível eu comunicarei o mais rápido que puder.

Por enquanto é isso. Nada de novo. Apenas voando..."

Zack terminou o registro, tocou em "enviar" na tela do monitor e mesmo sabendo que não tinha muito o que contar, respirou aliviado. De certa forma, escrever nem que fosse aquela página pobre e meio desanimada de seu diário de bordo, o deixou menos depressivo.

Quando aceitou a missão de partir da Terra como desbravador espacial no ano de 2.101 até sentiu-se um pouco como o capitão James T. Kirk, da antiga relíquia cinematográfica de quase 2 séculos atrás; o filme Star Trek que seu bisavô tanto adorava! Aliás ele não só passara ao bisneto sua paixão pelo mundo da ficção científica, como também praticamente fora o motivo pelo qual tornara-se astronauta.

Mas tinha total consciência de que diferente da ficção aquilo seria vida real! Sem volta para casa, sem tripulação. A não ser o computador da nave. Sem contato com mais ninguém.

Somente reportando pelo diário de bordo que eles receberiam depois de alguns meses e anos conforme ele ia se afastando da Terra. Além é claro da atualização programada que o computador enviava automaticamente.

- Até que eu conseguisse esconde-la apenas com o meu polegar – disse fazendo o gesto pela escotilha da nave.

"Vejo que alguém está ficando ligeiramente nostálgico..."

- Estava demorando Jarvis – brincou Zack enquanto dirigia-se para os fundos da nave – acho que vou dar uma voltinha lá fora... para me despedir...

"Ficaria muito agradecido se me chamasse apenas de computador. "

- Olha... para uma máquina, você está humanamente mal-humorado hoje – ironizou terminando de ajustar o traje espacial – estou pronto. Preparar descompressão da ante câmara e abrir escotilhas externas.

"Descompressão completa. Bom passeio homem de ferro! "

- Assim está bem melhor!

Mesmo que ele tentasse descrever a magnífica vista da Terra perdendo-se como um pontinho azulado e solitário em meio a grandeza absoluta do cosmos que o cercava, não chegaria nem perto do que, naquele momento, tinha o privilégio de admirar!

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