Capítulo 1: Realidades absurdas (Sir)

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― Vai com Deus! ― Minha mãe gritou, acenando de volta. Seu nariz vermelho a deixava com uma expressão cômica. ― Qualquer coisa é só voltar.

Aproveitei a deixa para passar pela porta, me sentindo mal mas pensando que, se eu pudesse, não voltaria nunca mais.

Entrei na fila para o raio-x, ainda me sentindo meio estranho. Era tudo tão estranho. Deixar meus pais para trás. Enfiar roupas em uma mala para passar seis meses fora. Realizar meu sonho, que nunca pensei que realmente fosse capaz de realizar. Uma poupança inteira que se transformou em uma passagem de avião, um curso de inglês para economistas e o aluguel de um apartamento minúsculo em Little Venice. Ah sim, também se transformou em algumas pouquíssimas libras que ou teriam que ser muito bem administradas ou me forçariam a arrumar um emprego bem antes do que eu pensava. Mas eu era um economista em formação – daria conta de economizar o dinheiro!

Quer dizer, eu era mais ou menos um economista em formação. Tinha feito um semestre da faculdade e trancado para embarcar nessa maluquice. Pelo menos minha mãe achava uma completa maluquice. Trancar a faculdade federal para ir fazer um curso de inglês na Inglaterra? Ela entendia que conhecer o país era meu sonho, já que eu só falava disso desde que eu tinha uns quinze anos, mas ela não entendia como eu estava disposto a sacrificar tudo para conseguir aquilo.

Ora, essa assim que sonhos funcionavam.

Tive que ouvi-la dizer que já tinha pago um curso de inglês inteiro para mim, o que era verdade. Mas era muito diferente do que estudar no país onde a lingua tinha surgido e temas que iam me ajudar no futuro, quando eu tivesse um emprego em economia... Também tive que ouvi-la dizer que eu podia simplesmente passar as férias por lá, não precisavam ser seis meses.

Ela não entendia. Se eles tivessem sido responsáveis por bancar a viagem, provavelmente eu teria feito uma viagem de curta duração, apenas turística e voltado para o Brasil com um desesperado sentimento de quero mais. Como eu tinha sido responsável por trabalhar meio período durante anos¸ angariar fundos e programar a viagem do começo ao fim, ela seria do meu jeito. E o meu jeito era passar o máximo de tempo que eu podia na terra do Rei.

Era um amor que não dava para explicar. Uma empatia e uma sensação de pertencimento que eu não sentia com nenhum outro lugar do mundo, nem mesmo com a minha própria cidade. A sensação constante era que eu tinha nascido no lugar errado ou que, em outra vida, eu tinha sido um importante Lorde inglês.

Coloquei minha mochila e minha mala para passar pelo raio x, tirando meu laptop da mochila para vistoria obrigatória. Passei pelo aparelho sem apitar e sem nenhum problema com as bagagens e agilizei meus passos até o portão 26, onde o embarque já estava se realizando.

Separei os documentos novamente, entrando na fila. Estava preparado, mas com um pouco de medo. Era um passo grande. Era um passo enorme. Eu nunca nem sequer tinha saído do Rio de Janeiro, muito menos andado de avião ou visitado outro país. Acho que realizar sonhos dava um pouco de medo também.

A funcionária da British Airways conferiu minha passagem e minha documentação rapidamente, picotando minha passagem e devolvendo o canhoto. Quando ela me desejo uma boa viagem eu dei um sorriso, mas nem sequer consegui agradecer, tamanho nervosismo.

Um tubo conectava a área interna do aeroporto ao avião e a cada passo que eu dava eu sentia meu coração descompassar. Era um sentimento muito estranho. Tudo meio misturado. Dava vontade de correr, dançar e ficar paralisado – tudo ao mesmo tempo. E se desse tudo errado? E se eu não conseguisse me comunicar direito, mesmo com os anos de inglês? E se a aula de inglês para economistas fosse péssima? E se tivesse dado algum problema no meu aluguel e, na verdade, eu estivesse sem lugar para morar? E se o cara da imigração no aeroporto implicasse com o meu visto e me mandasse voltar de lá mesmo? Dúvidas, dúvidas... Tantas dúvidas.

SIR: um plebeu honradoLeia esta história GRATUITAMENTE!