Capítulo 1: Realidades absurdas (Sir)

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Passageiros do vôo L8599, com destino a Londres, embarque imediato no portão 26

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Passageiros do vôo L8599, com destino a Londres, embarque imediato no portão 26.

Eu olhei para minha mãe, com o coração apertado. Faltava pouco para que a voz mecanizada do aeroporto começasse a berrar meu nome como passageiro atrasado do vôo, mas eu estava sem coragem de deixá-la para trás, chorando daquela maneira.

― Mãe...

― Eu sei, eu sei... ― ela fungou. ― Você precisa ir.

As pessoas ao nosso redor olhavam como se eu fosse um pequeno monstro, largando aquela mulher aos prantos daquele jeito. Não era culpa minha! Era uma reação exagerada. Meu pai, por outro lado, estava contendo uma gargalhada que, se fosse dada, com certeza ofenderia sua esposa e acabaria em divórcio.

De novo.

― Ele vai perder o avião, Ana ― meu pai disse, puxando minha mãe pelo ombro e amparando-a em seus braços. ― São só seis meses, já já ele está de volta.

Eu sorri, grato. Arrumei minha mochila nas costas e agarrei a alça da minha mala de mão, pronto para correr na direção do meu sonho. É claro que, antes disso, dei um abração na minha mãe e prometi que ia falar com ela todo dia. Eu já tinha feito essa promessa pelo menos um milhão de vezes antes daquele momento, mas pelo jeito só ali teve efeito. Suas lágrimas sossegaram quando ela me abraçou de novo e ela até deu um sorriso quando eu me afastei.

― Ah, meu filhinho... ― suspirou ela, voltando para perto do meu pai. ― Vou ficar com tanta saudade.

― Vou ligar, mandar mensagens e até cartões postais ― eu disse, dando um passo para trás, cada vez mais perto do portão de embarque. ― Muitos postais...

Meu pai esticou-se para me dar um abraço desajeitado também. Esse tipo de demonstração de afeto não era muito comum entre nós dois e eu fiquei um pouco incomodado. Afastei-me rapidamente e ele deu um sorriso assustador.

― Vai lá, filho ― bateu nas minhas costas. Tão forte que meu óculos voou um pouquinho de cima do meu nariz. ― Arrebenta com as inglesas.

E era por coisas assim que demonstrações de afeto não eram muito comuns entre nós dois. Nada contra as inglesas – aliás, muito pelo contrário. Mas depois de tantos anos de convivência era pro meu pai saber que minhas chances de arrebentar com as inglesas era mais baixa do que a de Rei Richard abdicar do trono. Como ele amava ser rei, as chances eram mesmo minúsculas. Para não dizer inexistentes.

― Aham, pode deixar ― eu respondi, dando um passo para trás. ― Eu acho...

Virei-me na direção do embarque, satisfeito por sair daquele ambiente por pelo menos alguns meses. Entreguei meu passaporte e minha passagem para o agente de segurança e ele me permitiu passar para a área de embarque. Antes, virei para trás e acenei para minha família uma última vez.

SIR: um plebeu honradoLeia esta história GRATUITAMENTE!