Capítulo 1

2.3K 15 2

                                                             Primeira Parte

                     "Há sempre uma razão, embora não haja nenhuma explicação."

                                                                               Adélia Prado

 Prólogo

E aquele mundo se chamava Petra.

No início era o nada. E do vazio o Criador concebeu a vida. Da energia cósmica do universo, Petra foi moldada. Doze reinos nasceram para serem governados por um único rei e uma única rainha. Justiça, amor e obediência às Leis da Criação — esses seriam os requisitos necessários aos governantes do Reino Unido, e enquanto essas virtudes permanecessem intactas, Petra seria um lugar de paz.

Assim foi durante muitos anos. Mas infelizmente a tentação recaiu sobre a rainha, que perdeu sua fé. Movida pela ambição do poder, ela tentou violar o Vale Sagrado, roubar a essência divina para se tornar uma deusa e dessa forma se igualar ao Criador.

O rei lutou contra ela na tentativa de salvar Petra, ameaçada de ser destruída em consequência de sua desobediência. Em uma batalha épica, em que milhares de inocentes pereceram, a Primeira Rainha foi derrotada. O grande rei clamou pelo perdão e o Criador teve compaixão da raça humana. Os homens e os anões foram poupados.

Uma aliança foi firmada entre o Pai Criador, o Primeiro Rei e seus fiéis cavaleiros. A espada que eliminou o mal de Petra foi abençoada e lacrada em um baú chamado Arca da Aliança. O artefato foi escondido e os leais cavaleiros, entre eles, homens e anões, tornaram-se os Defensores da Aliança. A eles foi dito que enquanto os descendentes do Primeiro Rei, os legítimos herdeiros do trono, governassem Petra, a unidade entre os doze reinos seria mantida. Esses cavaleiros também foram advertidos que, uma vez que o coração humano sucumbira ao mal, ele sempre vagaria por Petra. Somente aqueles cuja fé fosse inabalável ficariam protegidos das forças malignas, mas os que fossem fracos estariam à mercê da influência nefasta da Primeira Rainha.

As crônicas da Criação foram escritas em detalhes pelos bravos que lutaram ao lado do rei na primeira batalha e em outras que aconteceram em consequência da primeira. Mais tarde, os feitos foram compilados em um livro, conhecido como os Testamentos dos Primeiros Cavaleiros.

Milênios se passaram e as histórias dos Cavaleiros Sagrados, aos poucos, foram sendo tomadas como narrativas fantásticas. Os homens modernos passaram, cada vez mais, a acreditar somente no palpável, no material, e por isso o conteúdo heroico das crônicas — agora conhecidas por alegorias ou parábolas — tornava-se irreal ou inimaginável: o mar que se abriu para dar passagem aos cavaleiros, que libertavam um povo escravizado pelo mal, gigantes caminhando pela terra e sendo derrotados pelos menores dos guerreiros, um rei cuja sabedoria seria maior do que todo o tesouro da coroa, um profeta engolido por uma baleia para ascender espiritualmente e reavivar na memória dos homens os desígnios da Criação. Tudo isso, nos tempos modernos, era metáfora para a maioria das pessoas.

De todas as tradições deixadas pelo Primeiro Rei e seus cavaleiros apenas uma permaneceu intacta: todo monarca de Petra precisava sagrar-se cavaleiro para ser coroado. Por isso, havia uma única instituição no Reino Unido que atravessou os milênios, inabalável: a Academia de Cavaleiros, uma escola militar que selecionava os mais bravos jovens para servir aos reis e rainhas de Petra.

Capítulo I

A taberna, onde aconteciam as lutas clandestinas de boxe, ficava na periferia de Tamísia. O bar, frequentado exclusivamente por mestiços, era famoso por organizar disputas entre pugilistas amadores. Essas lutas aconteciam uma ou duas vezes a cada mês e, invariavelmente, envolviam consideráveis somas em moedas de dágoras.

Herdeiros do Trono Vol.1 - DegustaçãoLeia esta história GRATUITAMENTE!