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Minha mão apoiada no queixo me dava quase um ar daquela estátua do pensador. Enquanto algumas pessoas dançavam na pista ao ar livre sob as luzinhas penduradas, dando a tudo um feeling rústico, eu não conseguia parar de pensar no dia maluco que tive e ainda mais, em toda a conversa que eu e meu amigo tivemos no caminho para o tão esperado casamento da minha irmã.

Enquanto todos pareciam despreocupados e com um só objetivo: dançar até as estrelas virarem pó e o amanhecer chegar, eu sacudia freneticamente minha perna esquerda apoiada na direita.

Mordi o lábio inferior. Eu tinha prometido ao Gui que iria me divertir e não ficar pensando no meu dramalhão que ele decidiu por pura e espontânea pressão ouvir enquanto fazíamos o caminho entediante de nossa cidade até o sítio em que minha irmã decidiu se casar.

Você deve estar se perguntando: por que, em uma noite tão quente e estrelada como aquela, eu não estava dançando, me divertindo e comendo deliciosos bem-casados feitos especialmente pela minha querida vovó que tem uma mão abençoada para doces? Bem, pra explicar isso, eu preciso voltar pra derradeira manhã de hoje em que eu e Gui viemos de carro para o dia tão esperado pelos meus familiares:

Gui estacionou o carro de frente pra minha casa. Meus pais já haviam ido um dia antes para o sítio assim como minha irmã, sempre tão apressada e organizada. Naquelas últimas semanas, mal consegui me aproximar dela sem achar que era um guerreiro prestes a enfrentar um dragão.

Sinceramente? Se o casamento deixa uma mulher assim, eu realmente não quero subir ao altar.

Assim que ele estacionou seu amado carro que insistia em chamar de Valentina, começou a tocar a buzina às nove da manhã de um sábado que eu deveria dormir tranquilamente e esquecer da sexta-feira mais trágica que eu já tive na vida.

Ainda bem que não era uma sexta feira treze, mas, mesmo assim, aquele dia tinha sido uma mistura de decepção, lágrimas e um belo pote de sorvete de chocolate.

Mesmo que Gui tivesse insistido para entrar pela janela e passar a noite lá comigo enquanto eu chorava assistindo 'Bonequinha de Luxo', eu disse que precisava daquele tempo sozinha e que não, não choraria. Falhei miseravelmente!

Se os vizinhos chamarem a polícia eu os ajudo a mandar prender você! – disse fechando a porta de casa e colocando sobre meu ombro minha querida mochila de viagem.

São nove da manhã, Carolina! Os vizinhos não são preguiçosos como você que dorme como uma pessoa em coma.

Revirei os olhos para ele enquanto batia a porta e jogava minha mochila no banco de trás de seu antes carro velho, mas que agora, tinha um aspecto bem melhor e um cheiro que não me fazia querer colocar o almoço pela janela.

Você adora me caluniar, Guilherme Brandão e geralmente eu não ligo pra isso, afinal, você é tão idiota que não tem como me ofender com absolutamente nenhuma de suas provocações, mas, hoje eu não estou em um bom dia, então espero que você seja um motorista comportado e um ótimo amigo e me deixe escolher as músicas e também roube uma garrafa de champanhe pra que possamos tomar escondidos naquele casamento. Eu sei que vou ficar entediada assim que colocarem as músicas dos anos oitenta que meu pai tanto quer ouvir na pista de dança.

Ai! Bom dia pra você também, querida princesa de gelo. Como foi a noite?

Fechei a cara assim que ele sintonizou em uma de suas rádios preferidas de rock enquanto eu só queria ouvir Adele e dublar cada uma das letras que antes eram meus motivos de chacota e agora uma realidade trágica.

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