Prólogo

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Brasil, 4 de Abril de 2017

Querido leitor ou leitora,

Esta não é a história que eu gostaria de contar. Não. Preferia contar uma história clichê, algo que lhe fizesse sorrir ou que tivesse um final feliz. Eu já lhe adianto: esta história não tem um final feliz. Talvez não tenha um final justo ou um final que justifique algo que fizemos. Na verdade, para mim ainda não teve um final.

Acho que a palavra "história" não é a melhor forma de retratar o que estou lhe contando. Vou chamar de relato. História implica em uma possibilidade de fantasia, e o que quero lhe contar não é fantasia. Já basta que algumas pessoas que supostamente confiavam em mim, que acreditavam em mim, disseram que esta era uma história de fantasia. Não. Eu não pretendo lhe contar mentiras, nem aumentar, nem inventar. Este é um relato. Com exceção daquilo que pensei, senti ou interpretei, eu só quero lhe contar os fatos, aquilo que realmente aconteceu.

Começar é difícil. Deixe-me estender este momento mais um pouco. Estar aqui, lhe contando o que aconteceu, é uma vitória depois de tudo que passei. O medo... O medo permanece aqui dentro. Ah, é claro. Antes de começar é melhor eu me apresentar. Meu nome é Thalita Brado Romão. Hoje tenho dezessete anos, mas na época eu tinha quinze. Planejava comemorar meu aniversário, com Andreia, Augusto, e Davi, alguns parentes e quem sabe alguns colegas de sala. Planejava estudar mais no ano seguinte, nosso último ano no ensino médio, e passar em uma faculdade pública, ser o orgulho dos meus pais e da família. Planos...

Nós estávamos no auge da adolescência. Eu esperava mais. Sinceramente, eu esperava que as coisas mudassem no ensino médio. É engraçado... Não sei se você tem ou teve esta mesma sensação, mas quando eu estava no ensino fundamental, olhava para os garotos e garotas do ensino médio como "adultos". Era como se eles estivessem em outro patamar da evolução, com roupas legais, mochilas rebeldes com bótons e chaveiros muito loucos, falando coisas que eu não entendia. Eu passava por aquelas pessoas no corredor e ficava impressionada, havia esperança! Aquelas pessoas eram "adultas", deviam ser diferentes. Conforme o final do último ano do fundamental foi se aproximando, a magia, a esperança, foram desaparecendo. Lentamente, aquela imagem evoluída foi se dissolvendo até mostrar a realidade por trás dos fatos. Augusto era o único que ainda tinha esperança. Ele acreditava que algo mágico aconteceria nas férias de verão, e quanto voltássemos tudo seria diferente. Nós seriamos alunos do ensino médio, e tudo seria diferente. Os idiotas que convivemos por anos voltariam das férias de verão transformados, e tudo seria diferente. É engraçado, e triste ao mesmo tempo.

Pensando nesta transição, que ocorreu num período de um ano e meio entre o fim do ensino fundamental e a metade do segundo ano do ensino médio, que foi quando encontramos o livro, eu entendo os motivos que nos levaram a fazer as escolhas que fizemos. Descobrir que as mentes da maioria dos nossos colegas de sala estavam presas na "mentalidade de quinta série" foi devastador. A propósito, quando digo quinta série, me refiro ao sexto ano do ensino fundamental, porém, em minha escola, os professores tiveram bastante dificuldade em se adaptar à nova terminologia, portanto para este relato usarei quinta série e não sexto ano. Continuando, exceto por nossos corpos, nada mudou. Eu não senti que mudei, e sei que ninguém mudou também. A magia não aconteceu. Não houve um momento de iluminação, "eureca", esquece isso. Espero que você saiba do que estou falando, mas se não souber, me desculpe por dar um "spoiler" da vida. Posso estar enganada. Me corrija, por favor, se eu estiver.

Poucos são aqueles que realmente mudam, se comparados ao que foram no passado. As pessoas podem adquirir conhecimento, mudar de cidade, de status, arranjar um emprego, uma família, mas lá no fundo, uma parte destas pessoas permanece na "quinta série", e esta parte aflora de tempos em tempos. Algumas pessoas permanecem inteiras lá no passado, num ponto infantil, desmedido e inconsequente. Nem sempre é assim, mas na maioria das vezes é. Você pode pensar "nossa, ela se acha 'A Adulta', mas tem só dezessete anos", ou que na época eu tinha menos ainda. Eu não sei quantos anos você tem, mas alguma vez na sua vida, disso eu tenho certeza, você cruzou com aquele cara mais velho, talvez um tio ou um amigo dos seus pais, aquele cara "brincalhão" que gosta de fazer piada, de dar apelidos, que no começo é engraçado e com o tempo se torna insuportável. Também tem aquele tipo que gosta de falar dos outros, de apontar defeitos mesmo sem que ninguém tenha pedido sua opinião. Aquele tipo que gosta de humilhar as pessoas, que ri da tragédia alheia e aponta com o dedo indicador estendido e o braço erguido quando algo acontece com alguém, mas odeia quando falam dele. Isso começa na quinta série, talvez um pouco antes ou depois, e dificilmente muda. Pense bem. Quantos anos você tem e quantas pessoas da mesma idade ou mais velhas que você conhece têm este comportamento. É a "quinta série" que mora lá no fundo e volta de tempos em tempos. A "quinta série" foi chave para que a escuridão que habitava em nossos corações desse vida ao inominável.

Se você não cruzou com ninguém assim em sua vida depois da quinta série, meus parabéns, você é um em um milhão, e o meu relato fará menos sentido para você. Se quiser, pode parar por aqui, mas se você for como eu, um dos novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove restantes, talvez você entenda como tudo aconteceu, e eu espero que você acredite em mim. Levei muito tempo para chegar até aqui, tomar coragem, ignorar o medo e contar este relato, mesmo sabendo que existem forças que fizeram e fazem o possível e o impossível para esconder a realidade por trás dos fatos. Eu devo este relato às dezenas de famílias que foram afetadas por nossas escolhas, aos que foram enganados, àqueles cujas lágrimas ainda não secaram ou cuja esperança permanece viva. Eles podem não acreditar em mim, você pode não acreditar em mim, mas eu estou aqui para contar exatamente o que aconteceu. Esta é a minha história. Este é o meu relato.

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