Parte 2

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Existem erros que podem ser consertados com um pedido de desculpa, com um abraço, uma conversa. Há outros que são impossíveis de reparar, deixando sequelas permanentes, que vão assombrá-lo dia após dia, até que esses dias acabem.

Adorava o sorriso da Sophi. O vi poucas vezes, era basicamente quando ela ganhava de mim no vídeo-game, ou quando eu conseguia fazer alguma palhaçada que a divertisse. Era singelo, branco, grande, puro e sincero, aquele sorriso iluminava o seu rosto. Um martírio que fosse tão momentâneo. Pena que essa não seja a sua última imagem em minha mente.

Sophi está a minha frente, de cabeça baixa, seus cabelos estão soltos e desgrenhados, ela está usando seu moletom favorito da looney tunes. Tento caminhar até ela, mas minhas pernas não se movem. Ela levanta o rosto e me encerra com um olhar desolado e aflito. Uma faca aparece, não sei da onde, e ela começa a se torturar na minha frente, olhando no fundo da minha alma. Grito pra ela parar, mas outras palavras saem da minha boca, palavras essa que eu não quero dizer:

— Faça esse favor pra mim. Isso! Pode morrer, eu não vou sentir sua falta mesmo — e elas ecoam repetidas vezes.

—*—

Desperto assustado ao cair do sofá. Respiro devagar, confuso, tentando distinguir o que é pesadelo e o que é realidade. Me sento no tapete passando a mão na testa úmida. Encontro o escuro e o silêncio, a única fonte de luz é fraca e vem da luminária ao lado do sofá, lá fora já anoiteceu. Fico em pé e minha cabeça pulsa de dor, com aquelas palavras ainda ecoando na minha mente. A culpa molesta o corpo por inteiro e fico aqui parado olhando o vazio, pensando no quanto eu sou cruel.

É inevitável não me lembrar do meu irmão, o cara que foi o meu verdadeiro pai, que cuidou e me apoiou até ser morto numa chacina quando eu tinha doze anos. Eu também estava brigado com o Lucas quando ele saiu naquela noite. Ele não queria me levar na tal festa, alegando que eu era muito novo. Mas eu não queria saber, queria porque queria ir com ele e ele não deixou então eu disse que o odiava e me tranquei dentro do quarto. Foi a última coisa que ele ouviu da minha boca.

Não tem como, as duas dores se misturam e eu me sinto um lixo. Um ser desprezível. Alguém que foi capaz de falar coisas horríveis a duas que amava no seu último contato com elas. Eu quero que essa dor passe logo, então vou até a gaveta próxima ao umbral da cozinha e pego todos os analgésicos que encontro, dois frascos e três cartelas de diferentes marcas.

Sento no sofá e olho pra todas essas capsulas soltas na minha mão, eu só quero que essa dor, essa agonia, que todo esse sentimento sufocante passe logo, então penso que só uma capsula não vá ser suficiente. Me vem a mente no meio de todo esse caos, três números, recordo de ter os visto num telejornal local que informava sobre o suicídio da Sophi. Eles apareciam no final da matéria, orientando que quem estivesse confuso, atordoado, sofrendo e não tivesse ninguém para conversar, que antes te tomar qualquer decisão, que ligasse para o número 188.

Sem saber direito o que fazer, alcanço o telefone e pressiono os três números 188.

Centro de valorização da vida. Posso ajudar? — respondeu uma voz feminina, após atender no terceiro toque.

— Eu queria fazer uma pergunta.

Sim. Pode fazer, estou lhe escutando.

— Quantos analgésicos eu tomo para acabar com essa dor que estou sentindo? Têm vários aqui. Se eu tomar todos de uma vez, esse mal estar acaba?

Onde você está sentindo dor?

— No corpo todo, principalmente na minha cabeça. Não aguento mais essas palavras se repetindo na minha mente.

E que palavras são essas que ficam repetindo em sua mente?

— Você não entenderia.

Não estou aqui para julgá-lo. Estou aqui para ouvi o que você tem a dizer. Você não quer tentar me explicar?

— Eu deixei a minha melhor amiga morrer. Ela me mandou uma mensagem pedindo para eu falar com ela, porque ela estava querendo se matar e eu... eu...

Pensei que não tinha mais lágrimas, mas elas tornam a sair. A voz feminina se mantém do outro lado da linha pacientemente enquanto eu choro. Inspiro e tento continuar a falar.

— Eu estava brigado com ela. Ela tinha me magoado muito por não ter ido no lançamento do meu jogo. Eu ia homenageá-la. Gostava muito dela — fungo. — Quando eu respondi que ela podia se matar, que eu não ia sentir a falta dela, eu não sabia que ela está falando serio... Eu não sabia — choro, fungo, inspiro e espiro. — Agora essas palavras não saem da minha cabeça, o que eu faço moça?

Você acha que ela se matou por causa da sua resposta? — a voz do outro lado da linha é neutra.

— Não sei se foi por minha culpa moça, mas foi a última coisa que eu falei pra ela, que não ia sentir a sua falta. Era mentira porque eu estou com muita saudade dela, eu queria abraçá-la, queria poder pedir perdão.

Não sei mais se a mulher está conseguindo me entender, porque começo a falar e chorar ao mesmo tempo, e algumas das palavras acabam saindo meio enroladas.

— Ela deve te... ficado muinto triste com... eu disse e agora a mãe também me odeia... e meu... mão... ahh!...

Chego ao meu ápice de sofrimento.

— Moça me ajuda! — suplico ao telefone desesperadamente.

— Matheus?! — minha mãe pergunta após abrir a porta, ligando a luz da sala, antes mesmo que a moça no telefone possa dizer algo.

Ela rapidamente analisa a cena na sala; eu chorando com o telefone numa mão e vários comprimidos na outra, uma semana depois da minha melhor amiga se suicidar.

— Filho o que está acontecendo? — ela corre até mim e se ajoelha no chão entrando no meu campo de visão.

— Eu preciso de ajuda mãe.

Ela me abraça forte e eu deixo as cápsulas de analgésicos escaparem da minha mão e caírem no chão. 

Eu preciso conversarLeia esta história GRATUITAMENTE!