Capítulo 1

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O cara em minha frente parecia extremamente ansioso e nervoso. E eu não fazia ideia do motivo. Parecia que ele queria estar em qualquer outro lugar, menos aqui. Como se não se sentisse nada à vontade. O que raios estava acontecendo? Não costumava vê-lo assim. Claro que não. Nervosismo? Ansiedade? Essas características eram minhas. Dele? Jamais. O homem mais centrado, sério e coerente que eu já conheci. Será que havia algo no trabalho? Parecia que estava indo tudo bem, mas, talvez algum serviço não tivesse sido concluído da forma como ele gostaria. Ou... Enfim...

Alguma coisa tinha que ter acontecido. Porque sério, não era possível.

Sentia-me completamente intrigada com a situação. Ele mal me lançava o olhar, nossos lugares na mesa um de frente para o outro, no restaurante.

Do caminho do meu apartamento para cá nada falamos. Viemos mudos o trajeto inteiro no carro, o que foi meio desconcertante. Odeio silêncios. Minha mente era sempre um turbilhão que quando um lugar permanecia silencioso por muito tempo me deixava mal. Às vezes não sabia como tinha ido parar na psicologia. Eu quem deveria receber tratamento, e não ajudar os outros a fazer um.

Ainda no carro, antes de chegarmos aqui, tentei perguntar o que se passava, mas ele não respondeu. Apenas desconversou. Sério. Algo estava rolando. E isso me deixava muito, muito, muito preocupada. O que fizeram com o meu namorado?

Ele brincava com a garrafa de água em cima da mesa enquanto olhava o cardápio. Eu apenas o fitando. Ele nem aí para mim ou para minha ansiedade por vê-lo ansioso. Parecia que havia um muro invisível entre a gente nesse restaurante estúpido.

Engraçado... Eu chamando esse restaurante de estúpido, quando tempos atrás ele fora o meu favorito. Até brinquei uma vez dizendo que se um dia ele fosse me pedir em casamento, queria que fosse aqui.

Eu achava o ambiente romântico e clássico. Com o clima a meia luz, as mesas de material rústico e lâmpadas penduradas sob o teto. Meu namorado arquiteto na primeira vez em que viemos visitar o lugar tinha ficado absorto na decoração. Eu que não entendia muito disso achei o lugar ideal para pedidos de casamento.

A lembrança me fez rir. Meu namorado tirou os olhos do seu cardápio-salvador-de-namorada e me olhou com uma cara de "você está louca ou riu sozinha mesmo?". Fingi que nem vi e voltei a olhar para o meu próprio cardápio. Ele não estava fazendo isso comigo a noite toda? Um pouco de desprezo fazia bem para o ego. Minha mente já completamente distante, relembrando o início do nosso relacionamento.

Foi no primeiro mês de namoro. A gente tinha achado o restaurante na internet e resolvemos visitar para saber se era legal. Nada demais. Só que, o local era caro. Tipo, caro MESMO. De modo que nossas visitas não seriam frequentes, isso estava óbvio quando entramos a primeira vez. Mas eu não imaginava que fosse me apaixonar tanto assim. Apaixonei-me de tal forma que, claro, porque a língua e a boca foram feitas para falar e serem abertas, eu tinha que soltar minha grande pérola do dia e dizer para Guilherme, meu namorado, que seria o lugar perfeito para ele me pedir em casamento um dia.

POR QUE RAIOS EU NÃO FECHAVA A DROGA DA BOCA??????

Alguém me explicava???

Guilherme estava bebendo Chandon - porque fingíamos ser ricos - e cuspiu na mesa quando escutou o que falei. Uma reação super plausível quando se tem uma recém namorada meio retardada.

Um mês de namoro. Quem em um mês de namoro falaria uma coisa dessas? Sophie. Óbvio. Eu. Não. Presto.

A gente mal sabia se iria durar. Eu nem sabia se ele roncava ainda. Não sabia se tinha chulé quando tirava o tênis depois da academia. Não sabia se escovava os dentes da forma como o dentista pedia e se tinha mau hálito ou se usava pastilhas de menta para encobrir. Não sabia se minha sogra me amaria ou se me amaria longe do filho dela. Não sabia quais eram seus planos para o futuro ou se ele queria ter filhos. Não sabia nem para que time torcia ou, muito importante, quais séries de televisão já tinha assistido ao longo da vida. Se ele era team Edward ou team Jacob. Ok, vou parar por aqui. Já deu para entender. Eu não sabia quase nada dele e tampouco ele de mim. Daí, eu soltei uma dessas.

Uma bela insanidadeOnde as histórias ganham vida. Descobre agora