O ano de Saturno

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Alguns meses depois de saturno se erguer nos céus mostrando força total, ocorreram mudanças drásticas em minha vida. Mas antes disso quero me apresentar a você, caro leitor. Oi! Meu nome é Débora. Mas não pretendo te contar tudo sobre mim agora.

Meu pai morreu em meados de maio, estávamos brigados, e bem... Sou orgulhosa, eu não queria voltar a falar com ele por medo de... Um belo dia, com meus instintos apurados, senti que algo iria dar errado mas evitei pensar muito nisso. Tentei ignorar o aviso. Era uma quarta feira e eu tinha levantado da cama bem animada, raro de acontecer. Sentia muito frio, meu corpo tremia. Acordei e mal li as mensagens no celular, corri para me arrumar e assistir a última aula do semestre de uma das disciplinas mais difíceis da faculdade, Balanço de Massa e Energia. 

Planejei com uns colegas permanecer na instituição para fazer outros trabalhos de outras disciplinas. Normalmente segui a rotina cuidadosamente planejada. Mas aqueles calafrios não eram típicos de mim, eu raramente me sentia tão solitária. Mandei mensagem para meu namorado, e disse que algo estava acontecendo, mas eu não conseguia discernir o que poderia ser. Talvez eu tivesse uma surpresa naquele dia. E eu estava certa. Na hora de ir embora, voltei com duas colegas, uma eu mal falava a minha vida inteira mas percebi que era tempo perdido, poderíamos ter uma amizade incrível. Tínhamos muito em comum.

O primeiro ônibus quebrou e esperamos por uns 25 minutos a chegada de outro. O ônibus encheu de gente, pessoas ansiosas para chegar em casa e colocar seus pés numa bacia quentinha e poder relaxar de um dia exaustivo. Ninguém espera chegar no ponto de ônibus e esperar mais tempo do que o convencional. Muito menos espera que o ônibus esteja vagarosamente cheio desde o ponto final (onde os motoristas podem parar o carro, se espreguiçar um pouquinho, tomar um café, rir com os colegas e voltar a viagem). Nós três conversávamos e riamos de tudo, satisfeitas por conseguirmos dar andamento nos trabalhos propostos. Era uma felicidade imensa saber que quebramos a cabeça a tarde inteira e havíamos chegado onde pretendíamos. Recompensador. Mas os calafrios continuavam.

Ao descer do ônibus, encontrei com meu irmão, expressando preocupação e logo em seguida o som de oito badaladas provenientes de uma antiga igreja de bairro. Pensei no meu pai imediatamente. Senti frio. Mas não pensei muito, não quis pensar. Estava me forçando a pensar positivo mesmo que meus átomos gritassem que eu estava errada. Devia deixar fluir o que meu corpo dizia. Tarde demais. 

Cheguei em casa e logo corri para a cama para passar a limpo todos os papéis onde havíamos feito contas extensas e gráficos necessários para tabelar o progresso das curvas de pH. Horas depois minha mãe entra no quarto e me dá a notícia que meu pai havia falecido. O que acontecera depois eu prefiro ocultar da sua mente. Queria ser capaz de ocultar da minha também. Quando contei para meu namorado era quase meia noite, ele veio até minha casa. Dormi em seus braços por volta das três da manhã. Estava envolta num desespero mórbido. Meu senso de realidade-fantasia estava descalibrado. Eu chorava de desespero. De solidão. Revolta. Queria voltar no tempo.

Me lembrava constantemente que havia dito em dezembro para uma colega, uma das que haviam ido para casa comigo naquele dia, que seria um ano difícil. Agora fazia todo o sentido toda aquela dor silenciada em gelo dentro de mim.

Saturno: responsabilidades. Sabe aquele pai que é bem severo mas obviamente ama os filhos e os pune para ver seu crescimento, não imediato, mas para que no futuro não sejam bebês chorões? Saturno. Ano de maturação, início de ciclos e mudanças drásticas. Hora de tirar os bebês do ninho e faze-los aprender a voar. No mundo dos animais não existe bicicleta de rodinhas. No ano de Saturno, você só aprende fazendo, e isso inclui cair. E eu cai.

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