Capítulo 1 - Tiago

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Parte Um

Chuva de Meteoros

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro! 

Não levo da existência uma saudade! 

E tanta vida que meu peito enchia 

Morreu na minha triste mocidade! 

Misérrimo! Votei meus pobres dias 

À sina doida de um amor sem fruto, 

E minha alma na treva agora dorme 

Como um olhar que a morte envolve em luto. 

Que me resta, meu Deus? 

Morra comigo 

A estrela de meus cândidos amores, 

Já não vejo no meu peito morto 

Um punhado sequer de murchas flores!

- Álvares de Azevedo.

Capítulo 1

Tiago

Não se aproxime muito

É escuro aqui dentro

É onde meus demônios se escondem

-Demons – Imagine Dragons.

Uma música está tocando em minha cabeça. Back to you, do John Mayer. A canção gira, gira e gira, remetendo-me a um passado não tão distante. Observo enquanto Charlotte anda de um lado para o outro no apartamento. O apê que meu pai me deu no meu aniversário de dezoito anos. Um ano se passou desde que descobri o prazer que é morar sozinho e ter minha vida particular. Lembro-me de quando ele apareceu no meu quarto, balançando as chaves do apartamento, depois de eu ter passado no vestibular para cursar Engenharia Civil. Foi o melhor dia da minha vida. Sentir aquele ar de liberdade flutuando ao meu redor era uma sensação magnífica e única.

 E então, três meses atrás, vivenciei o pior dia da minha vida, contrapondo devastadoramente à felicidade que eu estava sentindo até aquele momento. Dois extremos. Um lado negativo e um positivo que se fundiram e me transformaram no que sou hoje. Naquele dia, enquanto as luzes multicoloridas dos fogos de artifício brilhavam no céu e anunciavam um novo ano, senti uma espécie de vazio assustador, como se um novo ano nunca mais fosse nascer para mim. Por que eu perdi o que mais amava. Perdi o amor da minha vida. E então, eu congelei no tempo e blindei meu coração para qualquer tipo de sentimento bom que tentasse me invadir.

Eu estou recluso em mim mesmo.

Minha cabeça gira enquanto Charlotte anda em círculos pela sala. Seus cabelos sempre estão impecáveis, loiro-platinados, na altura da nuca. Os olhos são amendoados, pequenos e intrigantes, e o corpo mignon a faz parecer uma boneca. Conhecemo-nos há pouco mais de duas semanas, num barzinho da cidade, enquanto eu bebia a sétima dose de Tequila. Ela se sentou ao meu lado, um cigarro pendia de seus lábios carnudos que se esticaram num sorriso provocador quando levantei a cabeça e analisei o seu corpo pequeno, mordendo o lábio inferior, numa expressão de desejo. Uma porcentagem alta de álcool no sangue e um coração machucado foram o suficiente para que eu a levasse para o meu apartamento. Depois, para a minha cama.

Pensei que seria apenas uma vez, mas aqui estou novamente, disposto a mascarar a tristeza com uma boa noite de sexo, muito embora não surta mais o efeito desejado. Começo a repensar se devo ou não continuar com esse joguinho com Charlotte, por fim, tomo minha decisão.

Do jeito que a lua sorri  -PrólogoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora