Capítulo II JANO, O DEUS ROMANO

96 4 16

Existem no universo duas simples palavras que resumem meu sentimento por provas de trigonometria. E essas palavras se resumiam a ódio, seguido por eterno. Não que eu odiasse o professor, mas odiava com toda a certeza qualquer coisa que terminasse com metria: simetria, piometria, ixometria, pneumetria, tipometria, anisometria, etc.

Era como ácido sulfúrico escorrendo em minhas cavidades cerebrais.

- Temos um professor substituto.

Donna, a diretora do colégio, disse as palavras de um jeito bruto, sem um bom dia, e sorriu maciça para a classe. Cortaram meus pensamentos e acabaram com a aula do professor Christopher – Que já havia terminado – de trigonometria, que explicava algo sobre a correção da prova que tínhamos feito no primeiro horário.

Christopher pediu licença, pois ainda tinha uma aula em outra turma e já estava atrasado. E saiu com sua barba estilo Caco Ciocler. A diretora e um homem corpulento entraram já no início da aula de história. Donna era uma senhora bem interessante e, vez ou outra, chistosa. No entanto as rugas no rosto a deixavam um pouco circunspecta demais. E não existe nada pior do que uma pessoa circunspecta demais.

O homem me encarou ligeiramente e depois pregou os olhos nos outros alunos.

- Quero que todos prestem atenção – Ela anunciou rapidamente, sem esperar respostas e sem ligar para os murmúrios que logo se encerraram quando voltou a falar: – A professora de história de vocês... Joana...

Ela parecia esquecida. Donna não era o tipo que se esquecia das coisas. Esse era o meu papel.

Quando Donna se virou para o homem ao seu lado, ele sorriu. E, parecendo que recobrara o fio de raciocínio no momento em que seus olhos a tocaram, tornou a falar:

- Ela ganhou na loteria. Ah, sim. Algo assim – Ela riu como se estivesse drogada – Por isso, o professor Sebastián tomará o lugar dela. Desejem boas-vindas.

O murmúrio recomeçou.

O professor Sebastián era alto, tinha cabelos pretos e olhos castanho-escuros, parecia beirar os 40 anos, pois seus cabelos começavam a ganhar alguns fios grisalhos. Lembrava um pouco George Clooney, só que mais novo.

Era também um pouco amorenado. Estava usando uma camisa social branca, calça jeans, sapato social preto e um casaco marrom que chegava até seus joelhos.

Talvez, exorbitantemente formal para um simples professor substituto.

- Vocês terão três aulas com o professor Sebastián nas próximas semanas – Donna sorriu satisfeita com isso – A contratação será feita senão houver nenhuma reclamação.

Ela continuou falando sobre o assunto. Um colar de prata fino chamou-me a atenção no pescoço do homem. No pingente, de tamanho mediano, havia uma Flor de Gerânio Acinzentado. Aprendi a reconhecer flores com minha mãe, na época em que ela ainda as cultivava. Sua preferida era Margarida e, definitivamente, odiava gerânios. Uma vez, quando uma amiga de trabalho a presenteou com um gerânio, minha mãe parecia que ia jogar o vaso na cara dela. Inventou uma alergia como desculpa e o devolveu. Eu já os tinha visto antes: em vermelho, rosa, branco. E gostava. Eles me cativavam. Mas nunca disse isso à mamãe. E nunca os vi em tom cinza.

O colar possuía um encanto curioso e sobressalente. Eu sabia que já o tinha visto em algum lugar. Daquele jeito, em cinza. Mas onde? Sempre ficava impaciente com isso de déjà vu.

Ele reparou que eu olhava para o colar, esperou alguns segundos a mais e o escondeu depois.

Donna comunicou que deveria regressar à diretoria, deixando-nos a sós com o novo professor.

Vesperelegia - O Objeto da Escuridão [DEGUSTAÇÃO]Read this story for FREE!