Capítulo 40 - Ivy

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Outro dia sem Ravi. Engraçado como minha mão sempre encosta em meu ventre quando penso nele, é um ato automático, assim como o suspiro que me escapa os lábios ao recordar seus olhos azuis. Estou em nosso quarto, tomando banho de banheira com óleos perfumados, a espuma é espessa e cria uma manta de bolhas sobre meu corpo, me aconchego naquele manto d'água e vejo um redemoinho de formar na agua. Franzo a testa, e aliso a barriga. Terna tem razão, meu pequeno soberano provavelmente vai estar ligado a uma ação da natureza.

A manhã passa com a rapidez de sempre, e a tarde chega preguiçosa e chuvosa, com suas nuvens cinzas se alojando pelo supremo reino. Penso em visitar alguns lugares de gardia que estejam com sol, apenas para sentir o calor que tanto gosto em meu rosto. É triste que gardia não tenha estações do ano, e nossos semi soberanos sozinhos não dão conta de ajudar o mundo todo.

Fico tentada a passar o dia na banheira, enrugando como uma uva passa. Contudo devo sair atrás de minha obrigações, hoje não poderei treinar os semi soberanos ao ar livre, e como a semana tem sido puxada insisto para que visitem seus pequenos templos e tentem concentrar sua energia na luz e paz. Saio da banheira jurando retornar. Me visto com minhas cores brancas e sai de encontro as minhas obrigações.

Doriam está mais uma vez no reino, o que me agrada, talvez traga Terna em breve para cá. Ele me segue, como sempre age como um irmão mais velho, me fazendo rir e contando suas histórias de batalha ou discussões com os semi soberanos.

-Então peguei o semi soberano e disse, não importa se você é semi soberano do desentendimento, fazer intrigas é proibido mesmo no reino das trevas. –Fala rindo. Ele ajeita sua manta preta sobre o ombros, e volta a falar. –Você tem que aprender a controlar seus nervos e não se deixar levar pelas trevas...

Um momento se passa para eu perceber que ele se calou. Fito-o com curiosidade, seu rosto está pensativo, e cada dia seus olhos parecem se tornar mais claro, hoje está rosa. Chamo seu nome, tentando chamar sua atenção, mas ele nem pisca, parece alheio as coisas a sua volta, estamos na estrada indo em direção ao castelo, há nuvens negras se aproximando com a chuva. Preocupada pego sua mão, ele se vira. É estranho, por um segundo parece que Doriam não sabe onde está, seu rosto não carrega qualquer expressão, tornando um sonambulo. Chamo ele novamente. Então Dorian vê nossas mãos e seus olhos piscam surpresos, para depois me lançar um de seus sorrisos.

-Ivy... –Diz ele. Sua voz parece surgir de um lugar distante e meu coração se aperta por meu irmão.

-O que está acontecendo Doriam? –Pergunto séria. –Estou preocupada com você, e também estou preocupada com Terna, ela deveria vir para cá, mamãe e papai sentem falta dela, e sabe como os dois raramente podem se ausentar do supremo reino, suas funções os prendem aqui. Acredito que Terna esteja solitária lá, você deveria saber que é muita informação para pouco tempo...

-Creio que desconhece a força de sua irmã. –Diz ele sério, me cortando antes que eu continue. Minhas bochechas ardem de vergonha. Ele levanta o queixo, me olhando de cima. –Terna é a soberana deles, e os semi soberanos de lá, já a adoram. Deveria ver como ela tem feito bem a eles, até mais do que qualquer coisa, que você diz ter feito nestes últimos cem anos.

Fico chocada com sua maneira fria de me falar. Então o frio invade meu corpo, meus dentes voltam a bater. Ele me olha como se compreendesse algo, então presumo que Terna contou a ele sobre a gravidez. Mas que droga Terna, era um segredo, nem Ravi sabe ainda.

-Não quis lhe ofender, nem causar ciúme. –Ele fala se referindo provavelmente ao reino das trevas.

-Jamais me ofenderia seus elogios a minha irmã. Não quero chamar Terna de fraca, mas tenho certeza que ela sente falta do supremo reino... Gostaria que vocês dois pudessem ficar mais aqui. –O frio é tanto que me abraço e tento aquecer meus braços. Ele passa os dedos por sobre meus ombros, seu calor é forte, e ele ainda me olha como se entendesse o que estou sentindo. –Que droga, eu sei que você sabe Doriam, mas não me olhe assim, não estou doente. Ainda não sei como lidar com esta situação, então não vamos falar sobre isto, está bem?

Digo e coloco a mão sobre o ventre. Ele se aproxima, seu olhar rosa me fitando com intensidade.

-Me quer perto, é isto? –Diz ele. Fico surpresa com a pergunta. Então fico aliviada por ele ter mudado de assunto, ele me oferece seu calor e eu me aconchego em seus braços para me aquecer.

-Sim, me aqueça. Tem essa outra questão que devemos falar, a questão desse seu olho. –Ele pisca e afasta o olhar, então ri como se não fosse nada demais. –Ora Doriam, não sou tola, algo está acontecendo, quero saber o que é.

Ele me abraça e seu calor começa a mandar o frio embora. Então suspiro feliz. Se a gravidez inteira for assim, vou precisar andar com os semi soberanos do fogo e do gelo.

-Me diga uma coisa... –Ele fala com a voz um tanto rouca, então olhando para os lados, me puxa para um lado mais afastado onde não poderemos ser ouvidos. –O que você acha de trazer Terna para cá, e você, bem, e você ficar no lugar dela? Podemos arrumar isto, sabe. Afinal somos soberanos, Drakon e Fairy não nos julgariam. Ravi entenderia.

Pisco com a confusão de suas palavras, tentando entender.

-Quer que eu assuma as responsabilidades de Terna? Mas acabou de me dizer que ela é uma mulher forte e....

-Não faça este jogo Esperança. –Ele diz num tom sério, e levanto minhas sobrancelhas em surpresa. Então respiro fundo. Contudo alguns rizamans aparecem e pulam em meu colo, nos afastando, e outros chegam a chiar para Doriam.

-Não sejam malcriados. –Digo, então me volto para Doriam. Então me volto para Dorian e digo com seriedade que o faz murchar. –Olha Doriam, a questão aqui é simples, eu não faço jogos, você que está todo confuso sem explicar a situação direito. Estava falando de seus olhos, eles estão estranhos, e do fato de que vocês deveriam ficar mais no supremo reino, o equilíbrio reside aqui, é bom para os nervos de todo mundo, e acho que você está precisando acalmar os seus.

Dou as costas a Doriam com os rizamans em meu colo. Penso em voltar para minha banheira, para afugentar o frio. Quando me viro para fita-lo vejo que Doriam não está mais lá. Bom, ele deve ter seus compromissos. Volto ao quarto, visto uma camisa de Ravi e deito na cama embaixo das cobertas, o cheiro dele me acalma e a saudade se intensifica, junto com a preocupação com meu marido, cedo ao sono acariciando minha barriga.

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