Prefácio

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Ele era alto, negro, cabelos grisalhos, usava óculos e tinha porte atlético apesar dos quase 70 anos. 

Na verdade, aparentava bem menos. 

O terno era caro e de grife famosa. Tinha olhos vivos, profundos e uma expressão de cansaço. Não sorrira. Levantou-se para recebê-lo, cumprimentando-o formalmente e recebendo seu currículo com uma firmeza que o deixou inseguro.

Convidou-o a sentar-se. Respondera uma ou duas perguntas? Não lembrava mais. Estava nervoso.

Decidiu se concentrar no som do relógio de parede. Ajeitou-se novamente na cadeira e olhou pela janela. Londres estava chuvosa. Não uma chuva torrencial, mas o suficiente para molhar alguns sapatos e atrasar alguns compromissos. 

Atrasar sim, mas nunca desmarcá-los. 

Não que se preocupasse com isso, pois chuva era melhor do que neve, tinha que admitir.

Voltou a se distrair observando o escritório decorado com artefatos diferentes e chamativos. A história daquele homem se encontrava nas paredes, armários e bancadas. Ele conhecia o mundo, e era isso que o fascinava na profissão.

Notou também porta-retratos em sua mesa em que todos sorriam, e ele mais do que os outros.

Ouvira dizer que três de seus quatro filhos haviam escolhido o mundo como moradia e tinham profissões de sucesso. Sua suspeita foi confirmada ao reconhecer a primogênita, uma das mais importantes analistas de sistemas de Nova York, diretora executiva de uma grande empresa de informática. 

A porta foi aberta e a secretária entrou, com o chá. Agradeceu e passou a se servir, sentindo o líquido aquecer seu corpo.

Desde cedo, James Albert Thompson ouvira de seus pais, principalmente de sua mãe, que seria alguém importante se escolhesse a profissão certa e definisse objetivos.

Ao entrar na faculdade de Direito em Cambridge aos 18 anos, sendo destaque e tornando-se o aluno laureado, provou que estava no caminho certo. Não satisfeito, especializou-se em relações internacionais e com méritos próprios foi nomeado assistente internacional em um dos maiores escritórios de advocacia da Inglaterra.

Era a mina de ouro da empresa, sabia disso, porém, as palavras de sua mãe não saíam de sua cabeça.

Ele queria algo mais!

Na verdade, almejava um cargo que lhe daria a possibilidade de ajudar pessoas e de fazer acontecer. E seguindo os conselhos de sua mãe tornou a diplomacia parte de seus planos.  Tinha consciência de que não era um cargo fácil de conseguir.

Mas de acordo com Alex, seu contemporâneo de faculdade e seu chefe, não era impossível. E mesmo tentando por cinco anos convencê-lo a aceitar a sociedade e os benefícios que ela impunha, não lhe restou alternativa a não ser incentivá-lo a lutar pela vaga de assessor diplomático para que seus sonhos pudessem renascer.

Sonho que Amélia Bridgeton, sua namorada desde os tempos de faculdade, não aprovava, porém, não o desestimulava, e isso o deixava mais convicto a lutar por seu objetivo. Preparou seu currículo, entregou-o a seu chefe e exigiu uma chance. 

Dois meses depois, Alex o levou ao Silver Cross para dar-lhe a notícia e entregar-lhe a carta de recomendação. O que  não sabia era que o amigo antecipara sua entrevista usando da grande amizade que o unia ao mais novo dos Cleveland, também advogado.

Ao receber o telefonema do consulado confirmando a entrevista, pagou-lhe um jantar no Dehesa, abrindo o melhor champanhe.

Motivado, passou a fazer planos. Não era um homem de criar expectativas. O que queria era real e estava quase ao alcance de suas mãos. Duas semanas se passaram e se sentia confiante.

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