Círculo de Fogo - Trilogia Herdeiros do Trono - Vol 2

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 CÍRCULO DE FOGO

 Primeira Parte

 

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”

Clarice Lispector

Prólogo

 A cortina de fogo, que encerrava o duelo mortal entre a seguidora da Primeira Rainha e o Escolhido, cessou. Ambos os lutadores estavam caídos. Duas espadas transpassavam, cada uma, o corpo dos combatentes. Uma perfurara o coração, enquanto a outra passara a centímetros.

Capítulo I

 ― Está com medo?

― Não. Estou preocupada.

Tommy acariciou o rosto de Eloise suavizando sua expressão tensa.

― E sabe o que é mais estranho? Não é a razão de ele estar aqui que me deixa inquieta, mas a minha reação ao vê-lo. Não sei se consigo reverenciar o rei Edgar, sabendo que ele matou meu pai.

― Você vai precisar se controlar. De acordo com o Guardião, o rei acompanhará o Torneio de perto.

Sim, Eloise sabia que precisava se controlar. O que ela não compreendia era como aquele descontrole havia se instaurado dentro dela. Logo ela que sempre fora tão comedida e centrada, agora estava agitada e muito próxima a uma explosão de raiva.

Aquela cena lhe parecia total e completamente deslocada, como se ela própria estivesse fora do eixo correto: Tommy estava tentando mantê-la no prumo, argumentando que o melhor era se concentrar no torneio e esquecer, pelo menos por enquanto, que Edgar havia assassinado Pietro para usurpar o trono de Petra.

Naquele momento, parecia que ela e Pedro haviam trocado de posições. Ele estava com a cabeça no lugar, enquanto ela mal era capaz de conter sua revolta.

― Elô!

Eloise estremeceu com o grito inesperado vindo do primeiro andar da hospedaria.

― Você e o Tommy terão muito tempo para namorar, agora, por favor, vamos! ― Pedro disse num tom mais alto do que ela gostaria.

Eloise havia, afinal, contado ao irmão e à Isabel sobre o namoro que começara na Terra dos Anões. E embora esperasse que os dois se surpreendessem, a notícia foi recebida com naturalidade. O único comentário que Isabel fez foi perguntar, quando as duas estavam sozinhas, se ela dava conta de lidar com tudo: ser uma princesa herdeira de um trono marcado por muitas mortes, participar do torneio, ignorar a presença de Edgar em Dravos e ainda se apaixonar.

Eloise, em resposta, dissera que Tommy era a melhor parte daquilo tudo.

Tommy afastou-se um pouco dela para se aproximar da escadaria.

― Não estamos namorando. Estou terminando de colocar a roupa ― mentiu para Eloise não ser obrigada a justificar o atraso.

E, voltando-se novamente para ela, perguntou:

― Você está bem?

― Vou ficar. Só me abraça mais um pouco ― ela respondeu encolhendo os ombros, aninhando-se no peito dele enquanto ele a envolvia em seus braços, como se eles fossem um porto seguro.

Àquela hora a estalagem Pedregulho estava vazia e o dono do estabelecimento empilhava as bancos de madeira sobre as mesas. Certamente, ele era um dos poucos habitantes de Dravos que não estava se dirigindo para a praça central da cidade. Embora a cerimônia de abertura do Torneio de Bravura fosse uma festa famosa, a presença do Rei Edgar Belmonte transformara o evento em algo colossal, que não só atraiu a presença de uma pequena multidão, mas também de uma dezena de importantes representantes da imprensa.

Os repórteres chegaram à cidade há três dias. Entre eles, a colunista do Diário de Gazara, Aava Carmel, que conseguira o feito de entrevistar o rei. Naquele dia, saiu a edição matutina noticiando a exclusiva. E uma das páginas que mostrava em destaque uma foto do monarca, no jardim de sua mansão em Dravos, estava sobre a mesa, debaixo de um dos bancos de madeira que estavam de pernas para cima.

A parte exposta da reportagem mostrava um trecho que Pedro obrigou-se a ler novamente enquanto esperava por Tommy e Eloise.

Diário de Gazara: Existe alguma razão especial para o rei em pessoa vir a essa edição do Torneio de Bravura?

Bem, Aava, existe sim. E antes que você me pergunte que motivo seria esse, tudo que posso adiantar é que farei desse torneio um evento histórico para o Reino Unido.

 

Diário de Gazara: Oh, Majestade, assim nos mata de curiosidade. (risos). Talvez, possa nos falar sobre o baile dos campeões. Como será?

O baile será tão luxuoso quanto as festas do palácio. A Orquestra Sinfônica Real nos presenteará com boa música. E o banquete será digno da realeza.

 

Diário de Gazara: Por que o senhor decidiu abrir sua mansão para receber os jovens mais bravos de Petra?

Para inspirá-los.

 

Diário de Gazara: Como assim?

Ora, Aava, eu quero me aproximar dos futuros jovens cavaleiros e também daqueles que estão cursando a Academia Militar. Farei deles as colunas de sustentação do nosso reino. Sinto nossa juventude dispersa. Sinto que anseiam por uma liderança forte, que transmita segurança e estabilidade.

 

Diário de Gazara: E ao que o senhor atribuiria esse enfraquecimento gradativo dos ideais juvenis?

À perda de valores. A Academia, por exemplo, vem se afastando de suas premissas básicas, afrouxando o treinamento militar.

 

Diário de Gazara: Bom, já que o senhor tocou no assunto, Ayla Benson já se declarou uma reformista e por diversas vezes discordou da monarquia publicamente. O senhor já se sentiu desrespeitado, ou, até mesmo, afrontado, com esse comportamento da diretora da Academia?

Pessoalmente, não. Estamos em um reino livre onde cada um pode expressar sua opinião. Contudo, como soberano não posso ser tão condescendente quanto sou na minha vida privada. Ayla Benson já fez duras críticas infundadas ao rei. Talvez fosse o momento de ela ausentar-se para rever sua postura. Acho que umas férias lhe fariam bem. Talvez ela esteja estressada demais.

 

Diário de Gazara: O senhor está propondo uma eleição?

Veja bem, Aava, não estou fazendo proposta alguma. Estou apenas fazendo suposições. Cabe ao conselho de cavaleiros fazer tal proposta.

O restante da matéria estava oculta pelo tampo do banco de madeira. Mas só de ler o pequeno trecho, Pedro sentiu um solavanco de raiva forte o suficiente para lhe atacar a “boca” do estômago e lhe causar náusea.

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