A Última Luz do Farol

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Para Thaís Moreira, que ilumina até o coração mais escuro.


Já fazia alguns anos que eu não acendia o farol. Não tinha vontade ou motivo. Não me importava com os barcos que podiam se acidentar. Tomei um gole da garrafa na minha frente. O sabor amargo não saía da minha boca.

O som dos passos na escada anunciava a chegada de alguém. Eu não esperava visitantes – nem queria.

- Vá embora! – Bradei, jogando a garrafa na direção da escada. – Me deixe sozinho!

- Mas você já está sozinho, Jonas. – Uma mulher jovem respondeu gentilmente enquanto aparecia pela abertura da escada.

- Não estou enquanto estiver ouvindo sua voz! – Reclamei. – Deixe-me beber em paz!

- Não estou impedindo você de beber. – Ela disse, pegando uma garrafa para si mesma e encostando-se na parede da sala circular. Fitava o mar com olhar perdido. Era fim de tarde e o sol já tingia o oceano de dourado. – Você tem uma vista muito bonita daqui de cima.

- Tanto faz. Só vá embora. – Resmunguei mais uma vez, dando outra golada. Os dedos do meu pé já começavam a formigar.

- Você sabe que eu não vou embora. – Ela respondeu ainda com olhar perdido. – Por que você parou de acender o farol?

- Porque eu não me importo. Eu não dou a mínima para os malditos barcos. – Respondi de qualquer jeito. A maldita não ia me deixar em paz.

- Mas estamos próximos da tempestade.

- Do que você está falando? – Não havia sequer uma nuvem no céu. Ela bebeu da garrafa.

- Então você desistiu de acender o farol. – Ela comentou pensativa e se virou para me encarar. – Por quê? – Ela me perguntou com um olhar sério.

Imediatamente me lembrei de você. É verdade, entretanto, que hoje em dia tudo me lembrava você. Minha cabeça girou enquanto eu segurava a garrafa vazia.

- Porque não importa, não faz a menor diferença. – Respondi mal humorado.

- Isso não é por que você desistiu. Isso é porque você não acende mais. – Ela se sentou no caixote de cerveja e me encarou.

- Por que você está aqui afinal? – Resmunguei tomando dela uma garrafa. Ela sorriu em deboche.

- Não sei. Tem uma altura boa eu acho. É certo que pensei que estaria sozinha, e não com um homem rabugento como você.

- Você é muito atrevida. – Abri outra garrafa. Minha mente já viajava um pouco. – Vem até aqui sem permissão e me ofende na minha cara.

- Quem você perdeu? – Ela perguntou de repente, pegando de volta a garrafa. Engasguei.

- Como é que é?

- Pra você estar aqui sozinho bebendo em plena quarta-feira antes mesmo de anoitecer, você tem que ter perdido alguém. – Ela cerrou os olhos e se inclinou na minha direção. – Esposa? Filha? Meu Deus, as duas?

Como ela fizera isso?

- Eu não sei do que você está falando. – Levantei e me aproximei do parapeito do farol, dando as costas para ela.

- Foi tudo culpa dessa garrafa. – Olhei para trás. Ela encarava o objeto com um interesse perturbador. Aquela garota me incomodava. – Eu passei muito tempo sem beber uma dessas desde que aconteceu, mas acho que hoje já não importa mais.

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