Capítulo 8

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Após a deportação, os lamentos das velhas senhoras eram ouvidos em quase todas as janelas e portas do gueto. Sete mil maridos e pais, esposas e mães, irmãos e irmãs e crianças havia sido levadas para morte - pelo menos era isso que nós contavam os sobreviventes.

Segundo rumores segredados nas ruas, os fuzilamentos nos bosques davam trabalho demais aos nazistas. Os judeus estavam sendo envenenados com gás dentro de caminhões e seus corpos eram fervidos para fabricar sabão, diziam. Meu estômago revirava só de pensar. Houve novas deportações, mas durante algum tempo foram seleções menores, iguais às anteriores, e minha existência no gueto - eu não vivia, meramente existia - voltou ao que era antes. Quem podia trabalhar não era levado, portanto meu pai e eu nos apresentávamos todas as manhãs relutantes para os grupos de trabalho. Eu foi selecionado para ajudar na alfaiataria. A tarefa em si não era muito pesada, mas era como se a minha vida anterior - escola, amigos, tempo para brincar e ler - permanecesse a um mundo totalmente diferente.

Certa tarde, depois do expediente, tomei uma decisão que seria determinante: foi à casa de um amigo, em vez de retornar para o esconderijo de minha família no telhado do prédio. Se eu tivesse voltado direto para casa, se eu tivesse saído com os meus pais para buscar nossas rações, é possível que os acontecimentos tivessem tomado um rumo totalmente diferente.

As ruas do gueto estavam vazias quando finalmente tomei o caminho de volta para casa naquele dia. Isso só podia significar uma coisa: outra deportação. Quando os nazistas vinhão recolher judeus, todos os que viviam nas ruas procuravam um lugar para se esconder. Se não o fizessem, seriam levados. Homens e mulheres que tinham casas caminhavam rapidamente de cabeça baixa por becos e vielas secundários. Desci sorrateiramente a rua Limanowskiego, pronto para me enfiar atrás de algum pedaço de mobília quebrada ou me esconder em uma pilha de trapos caso ouvisse nazistas por perto.

Estava quase chegando em casa quando ouvi brados de oficiais alemães se aproximando da esquina e o som de sapatos se arrastando no asfalto. Varri a área com os olhos à procura de um lugar para me esconder, mas não havia nenhum. Eu me espremi no canto oposto de uma pequena escadaria na frente de um prédio e tentei desaparecer nas sombras.

Os oficiais nazistas marchavam pela rua à minha frente. Bastava que virassem a cabeça para me ver, mas mantiveram os olhos à frente, seguindo por um grupo desordenado de judeus capturados. Eu os observei passar, cerca de cem judeus, todos de cabeça baixa e tão silenciosos quanto um túmulo.

Espere um pouco. Ali. No meio daquelas pessoas. Gelei.

Eram minha mãe e meu pai?

Fiquei na ponta dos pés, tentando identificar mais claramente aquela massa de gente, mas o ângulo havia mudado. Fiquei totalmente exposto, com a cabeça e os ombros bem acima do topo da pequena escadaria, mas não me importava. Meus pai estavam naquela deportação? Talvez eu tivesse visto apenas um casal parecido.

Tive vontade de gritar. Quase  corri até o grupo de judeus em marcha chamando o nome de meus pais, para descobrir se eram realmente eles. Mas me controlei ao ver os oficiais da SS na retaguarda. Se meus pais não estivessem sendo levados naquele momento, eu seria pego e nunca mais os veria. Mas se fossem realmente eles...

Assim que os prisioneiros passaram com seis guardas, saí em disparada para casa, correndo sem cessar. Irrompi pela porta do prédio, subi as escadas rapidamente e esmurrei a grande porta de metal que dava para nosso esconderijo no telhado. As barras ainda estavam no lugar, o que era bom sinal. Isso significava que havia alguém ali. Rezei para que fosse minha mãe e chamei seu nome enquanto golpeava a porta. Ouvi as barras de aço sendo retiradas e parei de bater, com o coração a mil. A porta foi aberta; do outro lado estava minha prima Sala, com lágrimas escorrendo pelo rosto.

- Não - eu disse - Não!

Minhas pernas fraquejaram e fechei os olhos para suportar a verdade que se anunciava.

- Yanek - disse Sala. - Yanek, graças a Deus você está bem.

- Onde eles estão? - interpelei, embora já soubesse. - Sala, onde estão meus pais?

- Eu sinto muito, Yanek. Os nazistas os pegaram quando voltaram da padaria. Eu os vi sendo levados, bem ali na rua, na frente do prédio.

Cambaleei até a porta e adentrei o pombal que fora nosso lar, nosso santuário, por mais de um ano. Estava totalmente vazio.

Caí de joelhos e chorei. Sala pôs a mão em meu ombro, mas eu mal a senti. Mamãe. Papai. Eles se foram. Minha família se fora. Tive a sensação de que meu coração estava sendo arrancado do peito.

Aquele pombal vazio foi um peso enorme para mim. Eu era o único que restara. Como ia sobreviver? Por que deveria sobreviver? Talvez fosse melhore render logo aos nazistas, pensei, amargurado  e derrotado.

Não, ponderei

Limpei as lágrimas na manga da blusa. Não era isso que meus pais desejariam para mim. A dor deu lugar a um sentimento de determinação.

Eu não ia desistir. Eu não ia me entregar. Não importava o que os nazistas fizessem comigo, não importava o que tirassem de mim, eu ia sobreviver.

Eu tinha 13 anos e meus pais haviam sido levados.

Eu estava sozinho no mundo, mas ia sobreviver por conta própria.

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